Maldição de Eva

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Por Marcello Escorel em 22/05/21 às 06h

Há dias atrás fiquei gratamente surpreso ao me deparar no Facebook com uma reportagem atual sobre a existência de duas rabinas na Alemanha, sendo que uma delas assumidamente homossexual.

Desde o surgimento das primeiras grandes civilizações no Crescente Fértil, por volta de 4.000 AC, o patriarcalismo foi avançando a passos largos para consolidar a subserviência da mulher e o desprezo pelo feminino. Não devemos nos esquecer que a dominação do macho só sofreu suas primeiras derrotas com as lutas para estabelecer a igualdade de gênero somente no século XIX. São mais de 20.000 anos de opressão e ainda há muito a caminhar neste sentido.

Basta olhar o papel da mulher nas confissões religiosas tradicionais. E aqui vale o nosso aplauso para as religiões afro-brasileiras que evoluíram do patriarcalismo na África originária para estabelecer de vez no Brasil a grande liderança de mães de santo responsáveis por famosos terreiros de renome.

Mas as religiões alicerçadas na Bíblia, fora algumas vertentes do protestantismo, estão a anos-luz de reservar às mulheres um papel de destaque em seus ritos e em sua hierarquia. Essa verdadeira desgraça começa por intermédio do Gênesis, mas especificamente no Jardim do Éden.

E aqui vale um parênteses. Embora a ortodoxia confira a Moisés a autoria do Antigo Testamento, estudos confirmam que o conjunto da obra é uma compilação de vários autores anônimos através de séculos. O Gênesis, por exemplo, conta com, pelo menos, três camadas redacionais: a eloísta, que adota o nome Elohims para designar Deus; a javista que usa o termo IHWH(Javé); e a sacerdotal. A tradição eloísta descreve Deus criando o primeiro humano à sua semelhança: “macho e fêmea”, um andrógino, um hermafrodita. É nosso redator javista que introduz a história do Jardim do Éden, da criação da mulher a partir da costela de Adão e de sua desobediência às ordens divinas que culminam na expulsão do casal, e por conseguinte da humanidade, do Paraíso. Segundo este mito, Eva, a primeira mulher, foi a responsável maior por ceder à tentação da Serpente e, pior, convencer sua cara metade a acompanhá-la no delito. Eis a origem da tragédia da mulher: o mito bíblico fundamenta sua subserviência por ter sido criada posteriormente para ser companhia e deleite do macho, e sua inferioridade por ter sido moldada de um pedaço de Adão e não criada pelo sopro de Deus insuflado no barro da Terra.

É essa mácula mítica originária que o feminino vem carregando como uma cruz por milhares de anos, a exemplo dos judeus, que carregam a pecha de assassinos de Jesus, quando os verdadeiros culpados foram os ancestrais dos italianos cuja pátria abriga hoje o estado do Vaticano.

O patriarcalismo da era politeísta e pagã que ainda permitia a existência de deusas, ainda que subalternas e sob o comando de deuses machos, desaguou, com a predominância do monoteísmo, em um mundo espiritual onde toda e qualquer deusa foi condenada ao ostracismo ou a serem veneradas em templos e cultos à margem das sociedades dominantes.

Na mulher, desde o mito do Éden, foram estampadas a maior parte das características negativas da humanidade: Dissimulação, frivolidade, mentira, traição, fraqueza, licenciosidade, entre tantas outras. Características que para serem evitadas precisavam necessariamente da orientação espiritual de um pai, irmão ou marido.  Assim foi até a Idade Média, que viu surgir um movimento predominantemente literário com seus trovadores exaltando a “novidade” de um amor romântico e a idealização da mulher e do amor verdadeiro como um caminho espiritual de autoconhecimento e libertação. Da mesma forma a devoção medieval a Maria, mãe de Jesus, foi crescendo tanto com o correr do tempo que a Igreja se viu quase que obrigada, ainda que tardiamente, a promulgar o dogma da Assunção em 1950, que afirma que a mãe do Salvador foi levada aos céus em corpo e alma, ocupando um lugar ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ainda assim, a Trindade não se tornou uma Quaternidade. Maria ocupa agora o lugar vacante das deusas, sem uma representante há tanto tempo por conta do doente e unilateral patriarcalismo.

Nós, homens, temos uma grande dívida que precisa ser saldada o quanto antes. Ainda mais no Brasil, país de tantos feminicídios e que até pouco tempo atrás fazia para atenuar este crime hediondo o conceito de “legítima defesa da honra”.

Por isso tudo é que minha alegria foi genuína ao ver a reportagem das duas rabinas alemãs. Já passa da hora de podermos presenciar, por exemplo, atrás do altar de uma igreja uma mãe ministrando a missa e os sacramentos, mulheres entrando nas mesquitas em pé de igualdade com os homens. Afinal, não haveria humanidade sem elas, que correm o verdadeiro perigo de perderem suas próprias vidas para garantir nossa própria existência enquanto espécie. 

Marcello Escorel é ator e diretor de teatro há mais de 40 anos. Paralelamente a sua carreira artística estuda de maneira autodidata, desde a adolescência, mitologia, história das religiões e a psicologia analítica de Carl Gustav Jung

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