Na favela, eles preferem o rock’n’roll

Foto: Douglas Lopes

Na favela, eles preferem o rock’n’roll

Bandas de rock, metaleiros e eventos musicais da Maré mostram que o gênero faz parte de um movimento histórico entre os mareenses

Maré de Notícias #121 – fevereiro de 2020

Por Thaís Cavalcante

Nos anos 1980, o rock nacional explodia nas cidades e favelas do país. A Maré também fez parte desse momento. Não só com a história das palafitas e favelas na música Alagados, dos Paralamas do Sucesso, como também com a explosão da cena underground de rock e de metal se fortalecendo nas 16 favelas da Maré. Desde então, toda uma ocupação cultural de roqueiros, bandas locais e eventos passou a ser valorizada pelos moradores, músicos e produtores musicais. Isso não diminui a diversidade musical que faz as caixas de som tremerem nos eventos, nas ruas e casas: muito forró, brega funk, samba, pagode e funk proibidão são tocados sem stop. Tem lugar para todo mundo na favela.

Para os roqueiros e metaleiros da Maré, opção para curtir um som pauleira não falta. No Morro do Timbau, o antigo Bar do Zé Toré foi um dos primeiros lugares a incentivar a apresentação das bandas no território e mostrar que na favela também tem amantes do rock’n’roll e de suas variações, como o heavy metal, hard rock, grunge e punk rock, entre outros. O tablado da Mata do Pinheiro também era palco para shows, assim como o Pontilhão Cultural, espaço embaixo da Linha Amarela. Já a Lona Cultural Herbert Vianna, a Lona da Maré, que fica entre a Baixa do Sapateiro, Nova Maré e Nova Holanda, já promoveu eventos como Rock na Lona e o Festival Favela Rock Show, trazendo bandas locais e também nacionais. Apresentações que movimentam a Vila dos Pinheiros e fecham até a rua são os shows em frente à Tabacaria Dreadlocks, como as últimas edições do Festival Rock em Movimento.

“Quando eu era moleque sempre via uma galera com camisetas de banda andando pelas ruas. Comecei a fotografar e, com isso, conheci essas figuras e entendi a importância e o nível que essa galera tinha”, diz Paulo Barros, fotógrafo de bandas de rock local e morador da Baixa do Sapateiro. Ele conta que um divisor de águas na cena de rock da Maré foi quando os festivais de música começaram a reunir as bandas nascidas na própria favela para se apresentar em diferentes espaços culturais. “Aqui é um dos principais locais com bandas de rock da cidade do Rio, assim como as comunidades da Zona Sul, de Rio das Pedras e mesmo de Niterói”. Ele cita algumas bandas que cresceram na Maré: D’loks, Canto Cego, Algoz, Ágona, Café Frio, The Primos e Carburador, entre outras.

Não à toa, o movimento do gênero da favela estimulou uma trajetória musical de luta que não é só pela fama, quando se buscam espaços de apresentação, produção e de ensaios. Os integrantes, também moradores, faziam de sua casa o próprio estúdio e até o lugar de seu primeiro clipe, como o da banda Algoz. Paulo não só conhece como acompanha de perto esses bastidores e admite que, em seu trabalho, precisou enfrentar barreiras, como o racismo e o preconceito. “Sempre achei os bastidores muito interessantes e isso foi uma das coisas que me levou a fotografar. Precisava registrar esse trabalho para derrubar o estereótipo de que o cara que está fazendo rock não faz nada da vida”. 

Grupo Ágona durante apresentação no Espaço Favela, no Rock In Rio 2019 – Foto: Paulo Barros

Solos de guitarra da Maré no Rock in Rio

O movimento não ocupou só a favela. Crias da Maré, Ágona e Canto Cego se apresentaram no palco Favela na noite dedicada ao metal da edição do Rock in Rio de 2019. A Orquestra Maré do Amanhã também representou os 140 mil moradores tocando clássicos do gênero com o concerto Rock Symphony. “Tocar no Rock in Rio foi coisa de louco, na produção do evento não faltou nada. Foi uma oportunidade para muita gente se apresentar, mostrar o nosso trabalho e também a potência da favela, porque o Estado não entra aqui”, conta Rafael Ferraz, morador da Baixa do Sapateiro e baixista da banda de death metal Ágona.

Os músicos se encontram no QG da banda – a casa do músico. São mais de 15 anos de história, CDs gravados e uma coleção de shows. Rafael explica que o gênero death metal é um tipo de metal um pouco mais rápido e mais técnico, e as músicas falam sobre o que o ser humano faz na terra. “O metal é um movimento de resistência, subversivo. Nossa sorte aqui na Maré é que tem muita gente boa e muitos produtores. Espero que a cena do rock se mantenha e resista ao tempo”, diz o baixista, lembrando das dificuldades de conseguir patrocínio e da falta de espaços culturais para se apresentar. “O roqueiro geralmente ouve música alta no quarto. Às vezes, não tem condição de pagar um show fora daqui, então a galera precisa desse presente”, completa.

Fome de cultura na cidade

Quem já fortaleceu a Maré com música foi Leandro Oliveira, produtor e gestor cultural que fundou o Cine & Rock, único movimento social e cultural de Rio das Pedras, na Zona Oeste. O som veio através do projeto de ônibus itinerante Caravana Cine & Rock, na Vila dos Pinheiros, anos atrás. Ele diz que incentivar musicalmente um espaço precisa de perseverança. “Espero que quem fizer isso saiba que é muita luta; precisa deixar acontecer. Tem que amar muito, porque é muito caro fazer eventos de rock. O investimento é na montagem, nos músicos, equipamentos, produção, entre outras coisas”, observa. 

O que fez Leandro começar seu movimento foi a repressão vivida pelo segmento cultural do rock. Se fosse outro gênero musical, ele garante que apoiaria da mesma forma.  A partir desse incentivo em oferecer mais cultura musical para sua região, cerca de 20 bandas de rock nasceram. “Foi necessário primeiro buscar aceitação por parte da comunidade. Eram organizados eventos com cinema e rock na praça”, ele relembra o grande movimento de ocupação territorial, inicialmente mobilizando, em uma ação ambiental para transformar um lixão em uma praça limpa e pronta para virar palco, crianças e jovens, que passaram a participar do movimento.

Isso fez surgiu o entendimento da necessidade maior de se ter educação, cultura, esporte e lazer, além da música. Hoje são 350 crianças e jovens atendidos e responsáveis pela manutenção do espaço que frequentam, com aulas de caratê, reforço escolar e outras atividades. Um trabalho social e intelectual que pode não ser muito percebido por carregar em seu nome um gênero com críticas, mas que não para de crescer.

Legenda: Apresentação do grupo Canto Cego no Rock em Movimento – Foto: Paulo Barros

Rock em Movimento

A partir dos anos 2000, as edições do evento de rua Maré de Rock levantou fortemente a bandeira dos direitos humanos junto a diversas bandas e agitou ainda mais a cena musical e crítica da favela. O evento deu tão certo que os organizadores, músicos das bandas Algoz, Café Frio e Levante e outros colaboradores, criaram o Coletivo Rock em Movimento e um festival de mesmo nome. 

Em sua trajetória, o coletivo registra a participação de mais de 200 bandas em seus eventos e promete realizar uma edição virtual este ano. Atualmente, a organização do Rock em Movimento é dos integrantes da banda de rock alternativo Missão de Galo: Reginaldo Costa, Klaus Grunwald e Diogo Nascimento. Com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, o grupo vai realizar a transmissão de shows online e lançar um podcast em março. Graças à iniciativa, as bandas e articuladores da cena do rock poderão divulgar novas músicas e debater os desafios surgidos por conta da pandemia. Bandas poderão se inscrever para ganhar a gravação profissional de três clipes; serão escolhidos quatro grupos, mas todos farão parte de um levantamento sobre o cenário musical local.

Participe do Festival Rock em Movimento Online

Inscrições: de 25/01/2021 a 11/02/2021

Divulgação das bandas selecionadas: 15/02/2021

Evento online: 18/03/2021

Inscrições no site: http://bit.ly/2M0fVA4 

Contato: rockemmovimento@gmail.com

Thaís Cavalcante

http://linktr.ee/tcavalcantes

Repórter do Maré de Notícias.

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