Nada supera o bom senso

Data:

Maré de Notícias #112 – maio de 2020

Simone Lauar

Moradora do Salsa & Merengue, administradora do Garotas da Maré e colunista convidada do Maré de Notícias

Desde que essa pandemia devido à vilã Covid-19 começou, eu só perdi. Posso enumerar todas as dores de cabeça, estresses, noites de dormir… Para quem mora na favela, sabe que não precisamos de pandemia vinda da China pra ter um sistema de saúde precário. Somos reféns da insegurança do ir e não saber se voltamos de lá vivos. Parece que as pessoas não estão querendo aceitar que nossas vidas estão em xeque mate, estando mais preocupadas com elas e não olhando ao próximo.

Como disse, eu perdi muita coisa. Principalmente o meu emprego. Eu fazia quentinhas para fora para ajudar na renda da minha família e com essa pandemia, eu tive que parar, assim como muitos de nós da Maré. Parei para não ser uma pessoa que pudesse transmitir a doença para outras. Parei para não carregar esse vírus para a minha casa. Parei para ter minha família, amigos e clientes vivos! Vivo agora de doações e amigos que me abraçam de uma forma que nunca imaginei. Sou muito grata por isso. Mas, infelizmente, esse não é o mesmo raciocínio da maioria das pessoas daqui.

No dia 26 de abril, perdi uma pessoa que eu amava muito: Marinalva era minha avó e morreu a espera de uma vaga num hospital. Nessa mesma noite, eu saí de madrugada com a minha irmã para ficar na fila e tentar garantir o Auxílio Emergencial. Saímos eram cinco da manhã e para minha triste surpresa, no meio do caminho tinha uma mega festa de rua, cheia de adolescentes bebendo, se abraçando, sem máscaras e como se fosse um carnaval fora de época. Existem corpos enfileirados na UPA aqui da Maré, e as pessoas estão na rua em festas? É isso mesmo?

Tem acontecido vários multidões para conscientizar os moradores. Várias pessoas arriscando vidas para doar cestas básicas, distribuir quentinhas para pessoas em situação de rua, e essas outras pessoas estão nas ruas bebendo como se nada estivesse acontecendo? O que mais me dói é ter que depender do bom senso das pessoas para salvar nossas vidas.

Nos últimos dias de abril foi possível notar o quanto há pessoas egoístas nesse Brasil. Pessoas preocupadas com seus churrascos e festas, fazendo lives e compartilhando a sua diversão nesse momento que se deveria respeitar o isolamento, outras dizendo que isso não vai pegar, lideranças políticas mais preocupadas com a economia do que com as vidas…. Nada disso está certo.

Quando vi todas aquelas pessoas rindo e aglomerados dançando, eu só queria que elas sentissem a dor do luto que eu estava sentindo. Da sensação de perda e impotência de não poder ter ajudado a minha avó a ter um leio para ela viver. Uma revolta muito grande tomou conta de mim. Ainda mais quando soube depois que várias e vários profissionais de saúde também estão falecendo. Enterros sem despedidas… Você já se imaginou não se despedir daquela pessoa que fez parte de muitas histórias bacanas na sua vida?

Esse vírus está entrando na favela pela porta da frente e essas pessoas estão abrindo a porta para o novo coronavírus.  Um vírus que está se mudando e em cada organismo causa uma reação. Existem pessoas que testam positivo para o coronavírus e tiveram derrame. Outras têm falecido de infarto fulminante. Tem pessoas que não tem nenhum sintoma e passam para família sem nem saber que estão infectadas. Tudo ainda é incerto, mas quase ninguém aqui está ligando. Só irão ligar quando o coronavírus tiver um rosto e um CPF, assim como foi comigo.

Mas o que podemos fazer? A mídia e as frentes comunitárias tem feito diversas ações falando sobre o vírus, mas parece que não tem mais por onde alertar essas pessoas. Só o bom senso… Só o amor ao próximo poderá nos salvar desse mal. Sempre importante reforçar: fiquem em casa e cuidem dos seus.

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Do Conjunto de Favelas da Maré à conferência da 19a reunião de cúpula do G20, a trajetória de Kaya Bee, moradora da Nova Holanda é um exemplo inspirador na luta por um futuro mais justo e sustentável. Aos 27 anos, mãe, ativista climática e estudante de jornalismo, ela carrega a força e a resiliência de quem enfrenta os desafios da vida na favela com a determinação de transformar a realidade para os mareenses.