Notícia de porta em porta

O jornal Maré de Notícias é distribuído de porta em porta no conjunto das 16 favelas da Maré. - Foto: Dani Moura

Conheça quem são os distribuidores do jornal, que nas primeiras semanas de cada mês entregam o Maré de Notícias nos mais de 47 mil domicílios da Maré

Maré de Notícias #120 – janeiro de 2020

Por Edu Carvalho

“Ô, meu filho, me dá um jornalzinho? Gosto muito de ler vocês, sabe? Melhor: me dê dois, um para mim e outro para minha filha’’. Isso foi o que escutei de uma senhora durante a entrega do Maré de Notícias, enquanto andava serelepe empurrando o carrinho cheio de edições pelas ruas do Parque União. 

Minha primeira vez no local me fez conhecer as pessoas e viver essa troca durante a distribuição mensal dos exemplares para quem é de direito: os/as/es moradores da Maré, em suas 16 favelas. Também cria de uma favela, a Rocinha, durante a entrega me vi engolido pela dimensão do território desconhecido, tendo contato físico com seus contrastes, uma possibilidade em cada canto e olhar. “Você chega a se perder enquanto faz toda a entrega’’, me confidenciou Valéria Silva, uma das distribuidoras que poderia apresentar como um Google Maps da Maré. 

Parte da equipe durante a distribuição do jornal de dezembro de 2020, a terceira entrega após a pausa forçada pela pandemia – Foto: Matheus Affonso

Quem já rodou bastante entregando os exemplares é Henrique Gomes, morador e coordenador de distribuição, que começou a fazer esse trabalho em 2011, dois anos depois do nascimento do jornal. “Assim que cheguei na Redes, fui deslocado para integrar o eixo das Mobilizações Territoriais, tendo mais imersão nas regiões. Foi aí que cheguei na distribuição’’, conta ele, recordando que a estrutura era diferente há nove anos. À época, o time de mobilizadores era escolhido pelas associações de moradores, tendo cada favela um representante. 

Anos depois, o setor da Redes da Maré se desfez, mas Henrique continuou a acompanhar o processo. Em 2019, uma reestruturação da entrega foi feita, e novamente ele estava presente. “Nosso principal objetivo era fazer com que o jornal estivesse mais próximo do território e, sobretudo, do morador. Era importante o distribuidor ter camisa do projeto, levar os exemplares junto, formar pequenos grupos’’, diz ele. 

“É bonito desenvolver esse trabalho para o local onde moro, é uma experiência enriquecedora para nossas vidas. E sentimos muito isso ao entregar o exemplar e receber em troca um sorriso, um elogio”

Felipe Bacelar, coordenador de distribuição e morador da favela Rubens Vaz

Em 2019, o Maré de Notícias uniu-se a dois projetos da Redes: o Cria e o Espaço Normal, referência de cuidados de pessoas em situação de rua e/ou usuárias de drogas. A parceria já dura mais de um ano, e é o modelo de distribuição que temos hoje: o grupo de distribuidores é composto por pessoas que fazem parte dos dois projetos – principalmente jovens e adultos que conhecem bem o território, e ninguém melhor que eles para fazer com que as edições dos jornais cheguem aos domicílios da Maré.

Henrique enfatiza a importância disso acontecer da Maré para a Maré, criando e potencializando os moradores de todos os territórios e elevando, com isso, sua autoestima. ‘’Participar disso me faz reconhecer que a maneira de ser ator de mudanças para esse espaço está ligada à construção da minha identidade e ao momento: quando você produz, fala sobre os problemas que te afetam, aquilo sai em um jornal que é local, você vai à rua, entrega aos vizinhos, amigos. É uma extensão do conhecimento.”

E não tem coisa melhor do que partilhar aprendizados com a juventude periférica do local. Para ele, ser esse “coordenador mais velho’’ o coloca no lugar de mais experiente e, ao mesmo tempo, aquele que aprende junto com todo o time de 14 distribuidores. ‘’É um processo bonito de construção com os jovens, que também são o público. Você vê a mudança acontecer ao longo dos meses, eles se fortalecem a cada entrega. Criam-se vínculos, afetos, podendo conhecer um pouco da Maré que é cada um’’.Um desses jovens é Felipe Bacelar, coordenador da distribuição e morador de Rubens Vaz. Para ele, fazer parte da iniciativa abre inúmeras possibilidades estando dentro do território. “Me sinto participante da construção de algo muito significativo, tanto para quem faz quanto para quem recebe. É desafiador”, sintetiza. “É bonito desenvolver esse trabalho para o local onde moro, é uma experiência enriquecedora para nossas vidas. E sentimos muito isso ao entregar o exemplar e receber em troca um sorriso, um elogio”, complementa.

Distribuidores escutam as sugestões de moradores e levam para as reuniões com a equipe – Foto: Douglas Lopes

Responsabilidade em comunicar

Mas há também muita responsabilidade e cobrança, percebida ali, ao vivo, enquanto deixam as edições de mão em mão. “Os moradores criticam se o jornal fica concentrado somente em informações de uma determinada comunidade ou em um assunto de uma região específica. Somos os porta-vozes, e nossa tarefa é captar a demanda, agradecer a crítica e transformá-la em solução, para que o Maré de Notícias seja cada vez mais diverso, sem deixar de incluir nenhuma das 16 comunidades’’, aponta. 

Há dois anos no grupo, Jonathan Ribeiro faz parte da leva remanescente dos indicados pelas associações. Sendo ele morador da Baixa do Sapateiro, conta que rodar por todas as regiões fez com que ele aprendesse sobre si mesmo e sobre a Maré. “É um prazer conhecer todos esses lugares por onde não andava direito, e na companhia de colegas de trabalho excepcionais. É uma verdadeira família.”

O jovem relata que a diversidade de pessoas no time faz com que o trabalho seja ainda mais rico, enfatizando a ideia de símbolos territoriais. ”Cada um de nós representa uma comunidade, definindo de forma especial o morador da Maré, que é múltiplo e tem atenção para vários temas”, diz.  “Trazemos a Maré que é cultura, lazer, que é paz. Isso se reflete no jornal, é isso que damos ao morador.” Marcela Silva completará um ano como entregadora em fevereiro de 2021, tendo chegado por indicação de uma amiga. Para ela, trabalhar ali é também se tornar uma ponte de possibilidades. “Ajudamos a levar conhecimento a quem não têm acesso. Isso faz falta no mundo”, diz. “É gratificante ser representado nestas páginas; me faz ter motivação para continuar com meus sonhos’’.

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