O início da Maré

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Dificuldades, muito trabalho e solidariedade

Jonatas Magno

Nada surge de um dia para o outro, todo lugar tem sua história e cá estou eu para falar da história da Maré. Não vivi naquela época, mas tive ajuda especial no processo de compreensão do que era a Maré desde a sua origem, de Berto Raimundo da Silva, que alguns chamam de “Seu Roberto”, mas eu o chamo de “vô”.

Em seu início, a Maré não tinha nada além de algumas palafitas, água e lama. Para ter sua casa, cada morador aterrou sua rua e foi construindo seus barracos de modo coletivo. Os moradores se uniam para comprar o caminhão, a fim de utilizar os entulhos para aterrar e poder construir seus barracos, mesmo em meio a tanta dificuldade. Compartilhando adversidades e apertos, a empatia unida à necessidade falava mais alto e, assim, pouco a pouco, a Maré foi sendo construída.

Além do mais, o meu avô disse que no processo de aterramento e construção deste bairro muitas dificuldades foram encontradas. Uma delas era o fato de o caminhão com os entulhos parar próximo à Avenida Brasil, já que não tinha condições de entrar por aqui, por isso os materiais eram trazidos por cima de pontes de madeira, utilizando carrinhos de mão, levando-os até o local desejado. Esse processo era intercalado entre o grupo de moradores que havia pago pelo caminhão. Outra observação feita por ele foi que não tinha água encanada, era necessário ir até a Avenida Brasil com balanças de água, entre outras coisas que eram possíveis para o transporte. Essa era só mais uma das dificuldades enfrentadas. Banheiro? Não tinha também. O banheiro improvisado era um buraco nas estacas de madeira, que serviam como suporte para as pessoas se locomoverem e não cair no manguezal.

Uma infância diferente

Naquela época, a Light não tinha entrado na Maré, logo a responsabilidade pela luz era feita por uma comissão e você pagava um valor mensal para ter direito a ela, assim como é hoje em dia, porém ela era muito fraca e a todo momento caía – o que dificultava ainda mais as coisas. A natureza também “contribuía” no quesito dificuldades, já que na Maré tinha muito mosquito, então só conseguia dormir em paz quem tinha mosquiteiros, o que não era muito fácil de arranjar.

Nesse processo todo de aterramento, as crianças viviam em dificuldade, não tinha local para estudarem e nem para se divertirem; a única saída era quando se juntavam e brincavam de se esconder das pessoas mergulhando no manguezal. Aliás, por não terem um local apropriado para diversão ou estudo, elas eram obrigadas a ajudarem nesse processo de aterramento e construção dos barracos, por isso não tinham uma infância adequada.

A violência, tão presente no dia a dia atual, que faz a Maré figurar nos principais veículos de comunicação, praticamente não existia. A separação das comunidades entre Baixa do Sapateiro, Parque União, Nova Holanda, Conjunto Novo Pinheiro (Salsa e Merengue), entre outras já existia, porém não havia guerra entre os territórios, porque apenas uma facção criminosa tomava conta desse território que futuramente seria chamado de Maré. Por esse motivo não existiam conflitos constantes. A relação entre os policiais e moradores era bem diferente do que é hoje. Existia um Posto Policial na comunidade, os agentes conversavam e brincavam com todo mundo, não tinha tanta marginalidade. A única preocupação era de não deixar as portas abertas, pois as pessoas podiam passar e roubar algo da casa, porém nada tão marginalizado como é hoje em dia.

Apesar de bem próximas, cada comunidade tem suas particularidades, seja na cultura, na música ou até na arquitetura, que são explicadas pelos diferentes períodos de constituição de cada uma delas. A Maré é bem mais que os jornais retratam, ela tem uma história, tem vida, tem arte, tem educação, tem gente que-  merece ser respeitada e, não, abandonada, como ocorre na maioria das favelas do Rio de Janeiro.

 

A falta de água encanada foi um dos principais obstáculos no início da Maré | Foto: João Roberto Ripper

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