O isolamento é uma prevenção com obstáculos

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Na favela, a casa pequena e a necessidade de socializar falam mais alto

Maré de Notícias #113 – junho de 2020

Hélio Euclides

No mês de maio, uma palavra nova chegou ao vocabulário do brasileiro: lockdown. Com o agravamento da pandemia, o distanciamento social mais severo foi considerado por especialistas como uma medida para evitar um número maior de contaminações pelo coronavírus. Na favela, o que se percebe é que nem o Decreto estadual do isolamento social pegou, tendo em vista a grande quantidade de moradores que se encontram pelas ruas da Maré. Como consequência, dados do boletim “De Olho no Corona!” de 11 de junho, afirmam que na Maré há 768 casos de coronavírus.

As restrições às aglomerações começaram no dia 17 de março, quando o governo do Rio publicou um Decreto com medidas de enfrentamento da propagação decorrente da COVID-19. O texto confirmava a suspensão das aulas nas unidades da rede pública e privada de ensino, comícios e passeatas; eventos desportivos; sessões de cinema e de teatro; shows e eventos em casa de festas. Há outras medidas, como recomendações de fechamento do comércio e academias de ginásticas, além de restringir a frequência nas praias.

Na favela, o isolamento social foi um ato que esbarrou em diversas dificuldades. Muitos moradores têm de sobreviver à fome, às violências domésticas e à falta de perspectivas. O morador da favela não tem como romantizar o confinamento, com habitações sem conforto, pelo tamanho dos cômodos. “As pessoas são acostumadas a se falar, tocar, a estar juntas; por essas formas de socialização é impossível o distanciamento. Ninguém consegue ficar dentro de casa, até porque as habitações são muito pequenas e as pessoas estão acostumadas a ficar na rua, sentadas nas portas”, conta Helena Edir, diretora da Redes da Maré.

“O isolamento na favela é muito difícil, não existe. As pessoas chegam e querem entrar na minha casa para visitar, eu faço a minha parte, fico isolada”, comenta Helena. Ela detalha que a maioria das lojas estão abertas, como se nada estivesse acontecendo. Leônides Mariano, morador do Rubens Vaz, acredita que ficar em casa é primordial para o declínio da pandemia. “É uma forma de prevenção; o ideal seria que cada um fizesse a sua parte. Se na cidade fosse declarado o lockdown (confinamento obrigatório) não daria certo, pois pode ser que nem todos os comércios respeitem a ordem de fechar”, diz.

Para especialistas, o confinamento é necessário

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estima que o pico da pandemia será no início de junho e que medidas mais severas devem ser tomadas. Com dados de projeção desenvolvido pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ), pesquisadores recomendam o confinamento obrigatório. Pelas projeções, o número de infectados no estado chegaria a 40 mil até metade de junho, entretanto, este número foi ultrapassado no final de maio. Em 13 de junho, o estado registrou 77.784 casos confirmados. 

Em Nota Técnica, a Fiocruz considera que, tanto no estado como na capital do Rio de Janeiro, os níveis de contágio já se encontram muito acima dos padrões históricos e, considerando que a transmissão do vírus ainda não está sob controle, qualquer diminuição ou flexibilização representará um aumento da transmissão e da demanda do sistema de saúde, que ainda não atende aos critérios e às condições para responder ao aumento de casos.

Apesar de estudos apresentados por instituições federais, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, anunciou o relaxamento do isolamento social na cidade, por pressão do governo federal, empresários e líderes religiosos.

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