O samba é cultura popular

Mulheres, como o Grupo Samba que Elas Querem, têm papel importante na popularização do samba - Foto: Elisângela Leite

Resistência sempre fez parte da cultura do samba, e o sentimento se manteve com a pandemia

Maré de Notícias #119 – dezembro de 2020

Por Hélio Euclides e Andressa Cabral Botelho

“Não deixe o samba morrer. Não deixe o samba acabar. O morro foi feito de samba. De samba pra gente sambar…”, esse trecho da música “Não Deixa o Samba Morrer”, de composição de Aloísio Silva e Edson Conceição, gravado em 1975 pela Alcione, até hoje, está em evidência. A pandemia paralisou as rodas de samba e assustou quem vive do ritmo musical. Como o show não pode parar, por bom tempo as quadras das escolas de samba e casa de espetáculos deram lugar às lives, mas recentemente elas tiveram liberação para retornar respeitando o distanciamento. Dessa forma, o samba se esquivou, sacudiu, levantou a poeira e deu a volta por cima. 

O Dia Nacional do Samba é comemorado em 02 de dezembro e é uma data reconhecida pela Lei estadual n° 554, de 27 julho de 1964. Desde 2007, o samba carioca e suas expressões são reconhecidos como patrimônios culturais imateriais do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional (Iphan). Ele nasce de uma mistura de batuques de escravizados com ritmos indígenas. Mas o novo gênero musical não era bem visto pelas elites escravistas do século XIX. Na virada para o século XX, o ritmo vem de Salvador para o Rio de Janeiro e vira marca cultural, principalmente, na região central do Rio, onde, até hoje, recebe uma série de rodas de samba que atrai locais e turistas. 

Uma figura importante para o samba carioca, Hilária Batista de Almeida, popularmente conhecida como Tia Ciata, baiana, cozinheira, mãe de santo e moradora da Pedra do Sal e Praça XI, dois redutos do samba no início do século XX. Ela é um símbolo de resistência por abrir a sua casa para a realização de rodas de samba, muitas vezes, reprimidas pelo poder da polícia. Foi em sua casa que o primeiro samba gravado do país, Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida, foi escrito. 

Os sambas de segunda e sexta-feira na Pedra do Sal são um dos mais populares da cidade – Foto: Andressa Cabral Botelho

O samba se refaz na batucada

A cultura foi um dos primeiros setores a parar em meio à pandemia do coronavírus. Todas as atividades que dependem da aglomeração e da venda de ingressos foram interrompidas, e não houve um plano para suprir a renda dos profissionais do setor. Alexandre de Mello Gonçalves, o músico Dão, integrante do Grupo Nova Raiz, conta que os sambistas tiveram problemas e alguns ainda estão numa fase difícil nas finanças. Toda uma estrutura, de gente que trabalha antes e na hora do evento, foi prejudicado. “Não temos apoio, a galera está sobrevivendo. Ocorreram rodas de samba clandestinas e outros jeitos para superar o perrengue da fase mais difícil da pandemia”, diz.

Apesar dos prejuízos, o músico vê o lado bom das férias forçadas. Ele destaca que o samba nunca foi tão tocado em casa por meio de lives, ouvindo os DVDs, consumindo por meio de aplicativos de música ou Youtube. “Teve gente que achou discos antigos ao arrumar suas casas. Não podia ouvir ao vivo na rua, então a casa era a solução”, fala. Dão também lembra que profissionais tiraram o tempo para estudar e  aprimorar suas técnicas, para compor, fazer arranjos e produzir vídeos. Por outro lado, alguns músicos não tiveram cabeça e inspiração, pois foram muitos os problemas enfrentados. “É um momento único e cada um tem a sua história”, conclui. 

O setor cultural envolvia mais de 5 milhões de pessoas trabalhando em 2018, representando 5,7% do total de ocupados no país – 44% desses profissionais são autônomos, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad). “Com certeza os profissionais envolvidos com eventos foram os mais prejudicados, porque nós fomos o último segmento a voltar a trabalhar. Nesse período de quase oito meses sem shows, os grupos e artistas de menor expressão tiveram que se reinventar e contar com a ajuda dos familiares, amigos, fãs e empresas para conseguir sobreviver com dignidade e pagar as contas”, expõe Rogerinho Ratatuia, cantor e ex-morador do Rubens Vaz.

Nesse período de pandemia, as lives surgiram como uma ótima alternativa. Por meio delas, muitos artistas e grupos conseguiram se manter visíveis no mercado, além de receberem doações financeiras e alimentos. “Infelizmente, o poder público e os governantes demoraram muito a nos enxergar. A nossa aposta agora é na Lei Aldir Blanc, que foi aprovada e irá beneficiar não só o samba, mas muitos fazedores de cultura de um modo geral”, comenta.

Para Luiz Antônio Simas, escritor e historiador, é preciso ver o outro lado, de que existe uma economia criativa que é ligada ao samba. O samba também é um elemento que proporciona muita gente viver dele. “O Rio de Janeiro tem um circuito de roda de samba, tem as escolas de samba, isso é uma economia que circula em torno desse ritmo musical que é muito importante. O samba tem congraçamento, tem a construção de sociabilidade e de identidade de grupo. Além disso, o samba, para muita gente, é um modo de ganhar a vida. Assim, ficamos numa circunstância complicada”, conta.

Simas afirma que o samba continua, e os sambistas tentam fazer o seu trabalho. Na mesma linha, ele percebe que as escolas de samba procuram conviver com esta situação. “O drama maior é dos trabalhadores do samba, aquele técnico de som, músicos e cantores da noite, os garçons das casas de show, todos foram afetados. Mas, no fim das contas, o samba tenta sobreviver, pois tem um público fiel desse gênero musical que é uma referência de criação de laços comunitários há mais de 100 anos”, diz. Ele completa que os outros gêneros musicais vêm, vão, explodem, mas é o samba que continua. 

O samba e as feijoadas do Siri de Ramos foram interrompidas com a pandemia
Foto: Elisângela Leite

Escolas de samba seguram a marimba

Em decisão inédita, a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) resolveu adiar os desfiles das agremiações cariocas do Grupo Especial do Rio, de fevereiro para julho de 2021, caso haja vacinação até o primeiro trimestre do próximo ano. O Fórum Carioca de Blocos, formado pelas principais ligas, concluiu que o carnaval de rua deva seguir o mesmo caminho do adiamento. Sobre o Grupo B, Edivaldo Pereira, o Vadão, presidente da Escola de Samba Siri de Ramos, explica que todos estão aguardando o fim da eleição para bater o martelo sobre questões divergentes entre ligas, e se haverá um carnaval fora de época no meio do ano. “Essa gestão municipal não entendeu que o carnaval é cultural”, resume. Vadão afirma que, até o momento, tudo está parado na quadra. 

No Grêmio Recreativo Escola de Samba Gato de Bonsucesso, o posicionamento da presidência, diretoria e carnavalesco é de retornar aos desfiles apenas em 2022. “Para regulamentação, teremos que tirar dinheiro de pedra”, diz Jorge Geraldo, o popular Jorge Bob’s, diretor da agremiação. Para colaborar financeiramente com a escola, desde o dia 15 de novembro, retomaram as rodas de samba, que ocorrerão quinzenalmente. 

Um passado bem próximo

A Maré, como tantas favelas, tem muita força no samba. Para Jorge Bob’s, a semente foi plantada quando os moradores removidos das favelas do Pinto e do Esqueleto chegaram na Nova Holanda. Na época, nos anos 1960, a favela tinha o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Nova Holanda. Depois veio o Bloco Mataram Meu Gato, que, 25 anos depois, deu lugar à Escola de Samba Gato de Bonsucesso. No ano de fundação, 1999, a favela ainda pertencia ao bairro vizinho.

Nas décadas de 1990, o Parque União teve dois blocos, o Alegria do Parque e o Boca da Ilha, para o qual Jorge compôs um samba que falava da duplicação da Avenida Brasil. Depois, ainda existiu o bloco Filhos do Parque. “No Gato, comecei em 1992. De lá para cá, já participei de disputa de sambas por umas 20 vezes, emplacando quatro. Sinto amor verdadeiro por minha escola”, lembra Jorge.

Já na Praia de Ramos, tudo começou com o Bloco Boca de Siri. Pires Queiroz, da velha guarda da agremiação Siri de Ramos, lembra que tudo começou nos desfiles de rua. “A gente fechava a Avenida Brasil e rodava a comunidade todinha. Quando empolgou, fizemos camisetas com nome do bloco”, diz. Ele completa: o amor pela escola não se explica. “Foi amor à primeira vista. O bloco foi crescendo, e eu fui junto. Abro mão de qualquer coisa pelo carnaval”, finaliza.

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