Pandemia ameaça inclusão nas universidades

Atividades presenciais retornam aos poucos, mas um dos pontos mais citados pelos especialistas é o agravamento da desigualdade por conta do ensino remoto – Foto: Douglas Lopes

Pandemia ameaça inclusão nas universidades

Restrições escancaram o que impede a formação superior dos jovens das periferias

Maré de Notícias #131 – dezembro de 2021

Por Jorge Melo*

*Contribuíram para a pesquisa desta reportagem os estudantes Bianca Ottoni, Flavio Herculano e Sthefani Maia, vinculados ao projeto de extensão Laboratório Conexão UFRJ, parceria entre o Maré de Notícias e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)


Em um país desigual como o Brasil, a pandemia acentuou as diferenças sociais e econômicas de forma dramática, e foi na educação que ela se tornou ainda mais visível. Com o fechamento de escolas e universidades, as aulas remotas aumentaram a já significativa disparidade entre o público e o privado. A imposição do ensino à distância fez o abismo educacional aumentar, com as dificuldades de conexão e a redução da renda das famílias mais pobres. Milhões de jovens com acesso precário à internet e sem equipamentos como computadores, tablets e telefones celulares não conseguiram acompanhar os cursos online; muitos abandonaram a escola. Os que perseveraram no ensino médio sentiram que ficou ainda mais difícil chegar ao ensino superior. 

Enem 2021, um passo atrás 

A edição deste ano do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deixou à mostra o resultado sombrio dessa desigualdade. O número de inscrições foi o menor desde 2007: 3.109.762 alunos, um número 34% menor que o do Enem de 2020 (5.687.397 estudantes inscritos). A participação de estudantes negros e oriundos de escolas públicas também caiu.

Em 2020, 63,2% dos estudantes eram pretos, pardos, amarelos ou indígenas. Este ano, eles são 56,4%. O número de candidatos brancos, no entanto, aumentou. Saltou de 34,7% em 2020 para 41,5% em 2021. A conclusão é de um levantamento do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp). 

Ellen Batista, de 17 anos, é moradora da Nova Holanda, está terminando o 3º ano do Ensino Médio e faz pré-vestibular na Redes da Maré. Ela se dedica exclusivamente aos estudos, sendo o Enem 2021 sua primeira experiência com o exame. Segundo Ellen, a questão financeira não foi a principal dificuldade que enfrentou: ela sofreu ao lidar com o emocional, considerando as mudanças na forma de relacionamento social, o distanciamento social e o confinamento. Além disso, a jovem teve que se adaptar à rotina de estudos que a covid-19 impôs. 

“A pandemia, em si, dificultou o processo de todo mundo. Muitos dos meus amigos estavam desgastados por conta do isolamento. Minha prima se inscreveu, mas não se sentiu com condições psicológicas de fazer as provas. No dia, não compareceu.”

Ellen Batista, moradora da Nova Holanda.

A prima de Ellen faz parte dos 26% de inscritos que faltaram ao Enem. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, a abstenção de 2021 está na média histórica, e é bem menor do que a de 2020, quando 51,5% dos inscritos não compareceram, principalmente por medo da contaminação pelo novo coronavírus. De acordo com o Inep, a taxa de faltosos em 2021 foi maior entre aqueles que optaram pela prova digital: 46,1%, contra 25,5% entre os que se inscreveram para fazer a prova impressa.

Aulas remotas ampliaram diferenças

Gabrielle Vidal, de 22 anos, tentou o Enem pela segunda vez e acredita que trabalhar reduz suas chances

Samantha Quadrat é professora associada de História da América Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF). Com longa experiência em sala de aula, ela já lecionou para turmas do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Segundo ela, são visíveis os danos causados pela pandemia de covid-19 na educação dos alunos mais pobres das universidades públicas. “A evasão de modo geral tem sido grande. As turmas estão vazias, alguns falam que precisam trabalhar para ajudar em casa, muita gente com depressão”, conta.  

A moradora da Nova Holanda Gabrielle Vidal, de 22 anos, tentou o Enem pela segunda vez este ano; a primeira foi em 2019, antes da pandemia. Ela acredita que trabalhar para ajudar a pagar as contas em casa reduziu suas chances nas duas oportunidades: “Estudar e trabalhar é muito difícil. Não é todo mundo que consegue.” Gabrielle enfrentou outro problema, muito comum entre alunos de baixa renda: a casa dela não conta com internet. Foi preciso recorrer aos amigos — um processo, segundo ela, desgastante. Quando foi preciso, ela usou o celular para estudar mas, depois de certo tempo, sentia dor de cabeça e irritação nos olhos. 

Adaptação difícil

Há dois anos, Bárbara Lima é professora voluntária de espanhol no projeto Educafro, que tem como objetivo preparar jovens e adultos de baixa renda (em especial negros) para ingressar no Ensino Superior. Ela reforça o depoimento de Samantha: houve uma grande evasão por conta das dificuldades de aprendizado via plataformas digitais ou, em muitos casos, por falta de acesso à internet. Em 2020, o projeto tinha cerca de 80 alunos inscritos e uma fila de espera. Este ano, o número de vagas preenchidas não chegou à metade dos anos anteriores. Espanhol e inglês são as línguas estrangeiras da prova de idiomas do Enem. A turma de Bárbara, que contava com oito estudantes no início do ano, terminou com apenas duas alunas. Como professora, adaptar-se ao novo modelo foi difícil. “A comunicação com os alunos foi afetada. Reconhecer as dificuldades com a transição para o virtual acabou sendo um grande desafio”, conta. 

Número de inscrições para o Enem 2021 foi o menor desde 2007: 3.109.762 alunos, 34% menor que o de 2020 – Foto: Douglas Lopes

Evasão pode aumentar

Milenny Telles é estudante de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estagiária do Descomplica, uma plataforma virtual voltada para a aprendizagem e que acabou sendo apoio para quem pretendia prestar o Enem. Ela lembra que “muitos alunos não tinham uma boa conexão ou computador; às vezes, as aulas online atrasavam por instabilidade na conexão e isso deixava os alunos muito frustrados. Infelizmente, em ano de vestibular qualquer mudança os desalinha, principalmente quando são tão drásticas”, pondera. 

Samantha Quadrat acredita que o distanciamento social e as aulas remotas dificultaram a busca por soluções porque desarticularam as organizações e entidades de professores e alunos.

 “Espero que a gente volte ao presencial porque no remoto é muito difícil pensar saídas coletivas e ações de solidariedade, fazer pressão no governo. Mas meu medo é que tenhamos uma evasão histórica nessa volta à sala de aula. As passagens da região metropolitana do Rio de Janeiro, por exemplo, estão muito caras. Tem muita gente desempregada, muitos alunos são de municípios vizinhos. Antes da pandemia, muitos já faltavam porque não tinham dinheiro para o transporte.”

Samantha Quadrat, professora associada de História da América Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Ferramentas de acesso

O Enem surgiu em 1998 com o objetivo de avaliar os estudantes no último ciclo da formação básica. Ao longo dos anos, a prova passou por algumas alterações e, atualmente, é a principal ferramenta para o ingresso de estudantes no ensino superior tanto público quanto privado, mediante programas do Governo Federal como o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Financiamento Estudantil (Fies).

Há também consenso entre especialistas e pesquisadores da educação de que a lei 12.711, conhecida como a Lei das Cotas, representou um grande avanço na luta contra a desigualdade, possibilitando uma mudança no perfil dos estudantes das universidades brasileiras através da inclusão de estudantes de escolas públicas e de negros e indígenas nas salas de aula de educação superior. Por isso, a preocupação com os números do Enem 2021 é o que tira o sono de educadores como Samantha.

 A professora, com sua experiência em todos os níveis de ensino, afirma que “o exame nacional permite que o aluno se prepare para aquela prova sem as diferenças de vestibulares do passado, onde cada universidade fazia o seu. É uma data nacional, um estilo de prova, uma única inscrição. Isso foi uma conquista. Mas ainda há muito a ser feito”, afirma. 

(*)Contribuíram para a pesquisa desta reportagem os estudantes Bianca Ottoni, Flavio Herculano e Sthefani Maia, vinculados ao projeto de extensão Laboratório Conexão UFRJ, parceria entre o Maré de Notícias e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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Jorge Melo

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