Pedacinho do Nordeste na Maré

O censo de 2019 apontou que a Maré tem 25,8% dos moradores com raízes no Nordeste; muitos são fregueses assíduos da Casa Paraibana, na Rua Teixeira Ribeiro – Foto: Matheus Affonso

Pedacinho do Nordeste na Maré

Nordestinos trouxeram para o território a cultura, o trabalho, a comida boa e muita alegria

Maré de Notícias #127 – agosto de 2021

Por Hélio Euclides

Inté mesmo a asa branca/ bateu asas do sertão/ Entonce eu disse/ adeus Rosinha/ guarda contigo/ meu coração. A canção Asa Branca, composta por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, se transformou em símbolo do êxodo nordestino para o Sudeste. As favelas cariocas são marcadas pela presença desses nordestinos, que começaram a chegar a partir da década de 1950. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2017 revelavam a presença de 1,2 milhão de nordestinos, pouco mais de 8% da população fluminense. Algo diferente acontece na Maré que, segundo o Censo Populacional de 2019, tem 25,8% dos moradores com raízes no Nordeste.

Para efeitos de comparação, São Paulo é o principal destino de migrantes vindos da região e contava com 12,66% (5,6 milhões) de residentes oriundos do Nordeste, segundo a PNAD de 2015 (na capital paulista, no dia 2 de agosto é celebrado o Dia do Nordestino).

Os 35.884 nordestinos da Maré representam uma influência cultural não apenas para si mesmos, como também nas práticas e identidades de seus descendentes.

Uma praça do Nordeste

O conjunto de favelas da Maré tem duas regiões onde quase a metade dos seus moradores é nascida em algum estado do Nordeste. O Parque Rubens Vaz concentra 39,2% de nordestinos, enquanto que na favela do Parque União eles são 44,2% dos moradores. É nesse último pedaço da Maré que se concentra a alma nordestina do território — um convite para quem deseja mergulhar na cultura dos estados nordestinos através da música e da culinária.

Há pelo menos 35 anos, a Praça do Parque União é uma espécie de segunda casa para essa parcela de mareenses. “Começou com uma banda tocando na calçada da antiga padaria onde se encontra atualmente o restaurante Seriguela. As coisas foram evoluindo, e o show passou a ser no meio da praça. Depois foi construído o palco, que agora é um dos locais mais conhecidos do Rio”, conta Edivan Valério, de 53 anos, coordenador da Praça do Parque União e nascido em Jacaraú, na Paraíba.

Antes da pandemia, a praça de seis mil metros quadrados chegou a reunir em uma só noite cerca de cinco mil pessoas. “Os frequentadores se sentem entre famílias: conversam, se divertem e encontram os amigos, elogiam o lugar. Acredito que é porque ele traz alegria aos nossos conterrâneos”, diz. “A praça teve como momentos marcantes os shows da banda Magníficos, do Zé Filipe e da Joelma”, lembra Valério. O local tem no entorno dez restaurantes que servem a gastronomia nordestina. Os mais assíduos são os paraibanos e os cearenses.

A Paraíba também é aqui

Na Maré, a concentração de paraibanos é expressiva: são 14.597 moradores. Na foto, Luíza Moreira, de 91 anos, moradora da Nova Holanda – Foto: Matheus Affonso

Na Maré, a concentração dos que nasceram na Paraíba é bem expressiva: são 14.597 moradores, quase 10,5% da população total do território. Um deles é Luíza Moreira, de 91 anos, moradora da Nova Holanda. Ela nasceu no município de Rio Tinto, no interior do estado, onde vivia com sua mãe e duas irmãs. Tudo mudou com a morte do pai, quando tinha 12 anos. Três anos depois, ela começou a trabalhar na Companhia de Tecidos Rio Tinto (a empresa que sustentava a cidade) e lá ficou por 18 anos.

Dona Luiza casou-se na Paraíba, em 1965, e veio morar no Rio de Janeiro — primeiro num barraco alugado no Rubens Vaz, onde o marido tinha parentes. “Depois me mudei para a Rua Principal, na Nova Holanda. A rua era aterrada, mas as casas, não. Para fazer as palafitas se usavam tripés, que serviam como alicerces, e depois se colocava o assoalho, sem brechas para evitar as águas. A tainha pulava do rio, pena que foi tudo aterrado. Na época, não tinha água e nem luz. Meu marido pagava uma pessoa para buscar água”, conta. Ela está na Maré há 56 anos, onde criou dois filhos e duas filhas.

Dona Luiza foi pela última vez ao Nordeste em 1999 e confessa que sente saudades. “Hoje visito a cidade pela internet. Tenho vontade de voltar, inclusive para morar. O que prejudica é a dificuldade de andar”, diz. 

Um Rio de braços abertos

Os cearenses são o segundo grupo mais presente na Maré: são 8.849 moradores. No dia 17 de julho, João Braga, de 60 anos, morador do Conjunto Pinheiros, participou de um programa de entretenimento[J1] , onde destacou o amor pela Maré e por sua cidade natal, no distrito de Santa Quitéria. “As coisas evoluíram. Quando sai de Trapiá, a população mal tinha rádio de pilha, hoje todos têm televisão. Na casa do meu pai a geladeira era de querosene e a gente usava lampião à noite, isso em 1972. Tinha que pegar água em uma distância como da Maré à Praça das Nações. Eu ia de jumento e trazia dois galões. Para estudar, eram 24 quilômetros de bicicleta”, lembra, acrescentando que tem orgulho do seu pai, Saturnino Soares Braga, que hoje é nome de rua em sua cidade natal.

Com 42 anos em terras cariocas, Braga viveu uma saga e reforçou a fama de batalhadores associada aos nordestinos. Quando chegou ao Rio, foi morar no Méier. No outro dia já estava trabalhando no Fluminense, clube de coração. Em 1979, foi trabalhar num restaurante no Centro do Rio, e nas férias voltava sempre ao Ceará. Em 1981 começou a trabalhar como garçom no O Bom Galeto, onde atuou por 25 anos. Depois aceitou ser sócio na pizzaria Casa de Rafael, por cinco anos. O mesmo tempo ficou no Restaurante Ben-Hur, na Cancela. Como muitos nordestinos que deixam quem amam para trás, ele namorou por dez anos via carta até conseguir casar. “Não tinha dinheiro. Tive que fazer um sacrifício, ir ao Ponto Frio e comprar fogão e geladeira parcelado”, conta.

Em 1990, ele foi morar no Conjunto Pinheiro, mas só há quatro anos abriu o Bar do Braga, que tem como slogan: “O melhor baião de dois da Maré” (o prato é típico do Ceará; com a seca, vem também a falta de comida; a solução era fazer uma refeição à base de arroz e de feijão de corda, além das sobras da cozinha, como carne seca e queijo de coalho, ingredientes do baião). Ele faz três panelas a cada noite, de segunda a sábado. O domingo é dia de outras comidas típicas para o almoço, como galinha caipira.

Braga percebe que tem muito cearense na Maré. “Os nordestinos carregaram o Rio de Janeiro nas costas. No passado, Rocinha e Rio das Pedras eram a morada dos cearenses na cidade. Na Rocinha até existe um restaurante com o nome da Trapiá. De uma década para cá, ocupamos a Maré. O território é nordestino, os moradores carregam o sangue na veia”, considera. Por saudade, confessa que, depois que casou, já foi 23 vezes ao Ceará. “Estou com passagem comprada desde junho de 2020 para visitar minha terra natal. Por causa da pandemia tive que mudar os planos. Quando volto ao Ceará não procuro a praia e sim as casas dos primos, busco o interior”, enfatiza.

Tradições, crenças e costumes nordestinos enriquecem a cultura da cidade carioca – Foto: Jéssica Pires


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Hélio Euclides

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