Por Dentro da Maré #8 Crianças e Adolescentes

Data:

Publicado em 26/10/2020 às 12h04

Dos 140 mil moradores da Maré, quase 46 mil são crianças e adolescentes. Elas são pretas, brancas, inventivas, amáveis e amigáveis, brincalhonas, amorosas, demandam carinho, cuidado, atenção, têm medo, querem estudar, querem ser felizes, amam sua família e seus amigos. “Mas vivem em desvantagem em relação às demais, devido a negligências históricas por parte dos governos”, diz Gisele Martins, assistente social e colaboradora da Redes da Maré. Ela fez uma pesquisa sobre os direitos de crianças e adolescentes na Maré como projeto de conclusão do seu doutorado. E, durante a pandemia, estas desigualdades vieram ainda mais à tona.

As famílias que puderam seguir as recomendações de distanciamento social e mantiveram as crianças e adolescentes em casa tiveram que se reinventar. Mas o desafio não foi só ‘ficar casa’. A insegurança alimentar e nutricional foi uma das expressões da desigualdade. Das 12.470 famílias que passaram por entrevistas sociais da Redes da Maré para pedido de cestas básicas, 40,6% possuem crianças e adolescentes. Ou seja, 8.625 famílias com crianças e adolescentes enfrentaram ou enfrentam desafios para garantir o direito básico à alimentação. Os impactos de uma má alimentação para crianças e adolescentes são muitos e podem trazer danos irreversíveis.
Estudar à distância, sem uma internet de qualidade, muitas vezes sem ambientes tranquilos, foram questões presentes na vida desses mareenses nesses últimos meses. Mas também foi oportunidade de se aproximar mais da família, dar valor às coisas simples e aprender coisas novas: a Mylena Donaria, de 15 anos, contou pra gente que começou a fazer aulas de teatro online durante a pandemia. Já a Maria Isabel, de 11 anos, começou a se aventurar na cozinha. 

 
Quem são as crianças e adolescentes mareenses?

Segundo o Censo Maré de 2013, na Maré vivem 34.034 crianças, de zero a 14 anos, e 11.961 adolescentes, até 19 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garantiu status de “sujeito de direitos” e o reconhecimento de sua condição de desenvolvimento, o que exige cuidados, por parte da família, do Estado e da sociedade. Com isso, o ECA estabelece que crianças e adolescentes tenham prioridade nas políticas públicas. Não é o reflexo do que vemos nos espaços de favela no geral – e a pandemia escancarou esse cenário. Segundo Gisele Martins, “os governos naturalizam as diferentes manifestações da violência que sofrem e produzem outras, sem estratégias de reparação desses danos”.
Sem falar no preconceito. Quem buscar “crianças e adolescentes nas favelas” no Google, por exemplo, terá como resultado da pesquisa imagens de jovens prestando serviço precoce aos grupos civis armados. Mas essa galerinha não se resume à falta de alternativas. Na Maré, a potência pulsa desde a infância. Aqui tem o Caio Yarlen, de 12 anos, o Guilherme Vieira, a Vivana Gentil e o Pedro Yago, todos de 14 anos, que fazem Jiu Jitsu e já participaram de diversas competições. Tem a galerinha do ‘Nenhum a Menos’ que discute questões da estética negra (se liga nesse video que eles produziram). Tem é muita criança e adolescente fazendo, produzindo e vivendo coisas incríveis e, também, lutando por direitos desde cedo.

Futuro

Comum entre as crianças e jovens da Maré é o desejo de que esse momento passe. Que a possibilidade de convívio com amigos, familiares e as ruas, a cidade, volte a ser comum! Mas o olhar atento à garantia de direitos para crianças e adolescentes deve seguir: “elas (as crianças e adolescentes) já são pessoas com demandas e desejos atuais, urgentes. São sujeitos de direitos, merecem respeito e devem ser ouvidas, devem ter espaço de voz e participação. Contemplar essas dimensões presentes, certamente irá reverberar em frutos positivos no futuro”, observa Gisele. 

Direção de produção e conteúdo: Geisa Lino

Direção Audiovisual: Douglas Lopes

Captação de imagens: Gabi Lino e Douglas Lopes

Edição: Douglas Lopes 

Narração: Jéssica Pires

Reportagem e texto: Jéssica Pires

Revisão de texto: Jô Hallack e Andrea Blum 

Agradecimentos desta edição: Agradecemos às crianças, adolescentes e responsáveis que compartilharam seus relatos e vídeos, e à Gisele Martins, colaboradora da Redes da Maré.

Compartilhar notícia:

Inscreva-se

Mais notícias
Related

Política de segurança pública do Estado não garante direitos para todos

Primeiro dia do II Congresso Falando Sobre Segurança Pública na Maré pauta a violência histórica sofrida pelas pessoas negras e de favelas como resultado das políticas de segurança pública do Rio.

Jovens negros e de favelas na COP28

Kamila Camillo, fotógrafa popular, ativista social e comunicadora, moradora da Maré; Raull Santiago, ativista social do CPX do Alemão e confundador do Coletivo Papo Reto; Thuane Nascimento, diretora executiva do PerifaConnection e Gabriela Santos, geógrafa e ativista social do CPX do Alemão estão na COP28.

Semana dos Direitos Humanos da Maré tem diálogo com crianças e adolescentes

Crianças e adolescentes mareenses se reúnem para troca de experiências e reflexões sobre segurança pública

Série “Amar É Para Os Fortes” será exibida gratuitamente na Maré

Série sobre violência das operações policiais em favelas será exibida na Maré nesta quarta (05)