Precisamos falar sobre bissexualidade nas favelas e periferias do Brasil

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Por Amanda Pinheiro, em 12/06/2021 às 06h

Editado por Edu Carvalho

Entre as diversas temáticas discutidas dentro da pauta LGBTQIA+, um assunto ainda é pouco debatido: a bissexualidade, pessoas que se relacionam de forma afetiva, sexual e emocional com homens e mulheres (cis ou trans). Um tema que, apesar de muitas opiniões e cercado de mitos, ainda não é totalmente abordado nas favelas e periferias. Nosso texto não pretende ser um ponto final na abordagem, levando em consideração a multiplicidade do tema. Mas é uma forma de começarmos.

Representada pela letra B do LGBTQIA+, a bissexualidade não é uma confusão, indecisão, nem uma fase experimental da vida. Para Marcos Diniz, morador da Maré, escritor e ator, essas pautas, sobretudo nas favelas, sofrem com um atraso e certo descrédito.

Marcos Diniz. Arquivo pessoal

‘’Para mim, não há diferença entre ser bissexual na favela ou fora dela, pois minha sexualidade não é validada dentro ou fora da Maré. Minhas relações sempre foram atravessadas pelo preconceito, questionadas e não respeitadas independentemente de onde quer que eu estivesse. Estamos sempre tendo que provar nossa “existência” e que nossa vivência é válida em todos os sentidos. A pauta da bissexualidade é importante na mesma proporção em que ela é esquecida de muitas discussões. Ela não é devidamente visibilizada dentro da sociedade heteronormativa, tampouco no meio LGBTQ+’’, declara Marcos.

Em 2020, Marcos lançou o livro “Decididos: uma celebração bissexual”, pela editora Margens. Segundo ele, a ideia de organizar a antologia de contos com diversos autores surgiu da necessidade de se ver representado e ter personagens bissexuais também pela mesma perspectiva. 

‘’Muitas vezes, a grande parte da representatividade que temos é com o olhar que se tem da favela: estereotipado e equivocado. Então, nessa minha necessidade de me ver protagonista de histórias e mais que isso, ver bissexuais sendo protagonistas de histórias diversas, foi que pensei na antologia Decididos. E outra coisa pensada na época foi que mais do que reunir escritores bissexuais escrevendo sobre nós, eu queria outres autores escrevendo sobre nós. Por isso o livro tem autores homossexuais, heterossexuais, pansexuais. Afinal de contas, se nós bissexuais podemos escrever história sobre eles porque eles não podem escrever sobre nós’’ disse. 

Aos 19 anos, Magda Gomes, moradora da Rocinha, que hoje tem 25 anos, se sentiu interessada por uma colega de turma da faculdade. Segundo ela, não houve resistência da parte dela, nem da família, quando precisou contar que estava se relacionando com outra mulher. 

Magda Gomes. Reprodução: Instagram

‘’Era um domingo, cheguei em casa para almoçar e disse: “mãe, essa aqui é..” e antes de terminar a frase ela completou perguntando: “sua namorada?” No reflexo respondi que sim, fomos todos almoçar e desde de então não se falou mais nisso. Ela, minha tia e minha avó, não fizeram nenhum comentário desrespeitoso. Mas a outra parte da minha família, em grande parte, sempre falava: “a Magda está está confusa, daqui a pouco isso passa”, relembrou. 

Ela acredita que nas favelas, o assunto ainda é um tabu, sobretudo quando se trata de homens bissexuais. No entanto, apesar dessas dificuldades, celebrou o amor e espera por mais respeito em relação à pauta.

‘’Queria que tivesse um entendimento coletivo e respeitoso sobre as mais diversas formas de amar e ser amado. E que nós, LGBTQIA+, somos múltiplos, diversos. É como diz Lulu Santos: “Consideramos Justa toda forma de amor” — concluiu. 

Na Maré, uma intervenção artística do produtor cultural e conselheiro tutelar Carlos Marra visa colocar ainda mais visibilidade sobre a temática, englobando todas as nuances da sigla e as diversas formas de amor e demonstração contida nelas. Confira o papo, produzido e editado por Matheus Affonso.


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