Regiões da Maré sofrem com galerias de águas pluviais e descarte de esgoto inadequado

Sistema de abastecimento de água e o saneamento básico da Maré não suprem as demandas das 16 favelas – Foto: Douglas Lopes

Regiões da Maré sofrem com galerias de águas pluviais e descarte de esgoto inadequado

Por Hélio Euclides, em 08/06/2021 ás 06h

Editado por Edu Carvalho

“Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele”, disse o presidente da república Jair Bolsonaro, demonstrando descaso de como é tratada a população que ainda sofre com a ausência de saneamento básico, logo no início da pandemia, em março de 2020. Também ano passado foi instituído o novo Marco de Saneamento Básico do Brasil, que prevê água potável para 99% da população e coleta de esgoto para 90% das pessoas até 2033.

Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, ainda há 35 milhões de pessoas que não têm acesso à água tratada e 104 milhões não contam com serviços de coleta de esgoto no Brasil. O escoamento das águas pluviais ou o esgoto canalizado fazem parte de um conjunto de serviços conhecido como saneamento básico.

Essas ações se somam a distribuição de água potável, tratamento de esgoto e coleta de resíduos sólidos. No Rio de Janeiro, por exemplo, fica clara a ausência de políticas públicas, segundo os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS): só 65,62% do esgoto é tratado. Quando se planeja o esgoto não é só a coleta, mas é preciso existir uma ligação com a estrutura de tratamento. Atualmente na cidade há cinco estações de tratamento de esgoto (ETEs) que juntas tiveram uma vazão média ano passado de 3.317,1 litros por segundo, o que significa só 43,9% da capacidade delas.

Um exemplo é a Maré, que apesar de ficar entre as ETEs da Penha e a Alegria, no Caju, o esgoto do território ainda é dispensado na Baía de Guanabara.

Um esgoto esgotado

Na Maré algumas áreas sofrem com as chuvas, como algumas ruas da Nova Holanda, Parque Maré e Baixa do Sapateiro. Na Nova Holanda até as ruas maiores como a Sargento Silva Nunes e Bitencourt Sampaio não escapam de enchentes. No Parque Maré a rua Nova é corriqueira a situação de inundação. Já na Baixa do Sapateiro nem a frente da 30ª Região Administrativa escapa.

A situação ainda é pior na favela de Marcílio Dias, que no passado teve processo de ocupação por palafitas à beira da antiga Praia das Moreninhas. Com o tempo ocorreu o aterramento e um esgoto de pequeno porte foi instalado, no qual ao passar dos anos não suportou o aumento da população local. “As ruas são valas puras, mesmo com o sol a água transborda. Sem falar nos insetos que se proliferam, como ratos, lacraias e baratas. Já cheguei a contrair uma bactéria na perna. Sempre foi assim, mas piorou com os anos, após o aumento do número de casas. Precisamos de uma solução”, comenta Daiana Ventura, moradora da localidade conhecida como Favelinha.

Para os idosos a situação é ainda mais difícil. Maria do Nascimento, moradora também da Favelinha, diversas vezes ficou ilhada. Quando chove fica tudo cheio, se precisar sair de casa fica impossível, pois ninguém passa para não pisar na água de esgoto. Queremos uma solução”, conta. Outras áreas da favela não escapam dos alagamentos. “Quando chove fica tudo alagado, dá para usar jet ski’’, ironiza. ‘’Sempre foi assim, pois a manilha pequena não suporta o volume de água. A solução é quebrar tudo e fazer nova, pois em dia de chuva não dá para passar. Também podiam retirar a gente daqui para novas casas no entorno da favela, só que os políticos vêm aqui na eleição e não voltam”, reclama Rosane Ramos, que tem uma casa de construção na Rua Kelson’s.

Infelizmente não é só o esgoto que traz prejuízo, o retorno da água do mar também traz transtorno. “Não precisa chover, pois é só a maré subir para ter alagamento. Agora quando chove entra no meu estabelecimento, pois vira um rio. Tenho prejuízo, pois as pessoas não conseguem chegar para comprar”, revela Ivanildo Pereira, dono de um barzinho no beco do Seu Madruga.

O Maré de Notícias entrou em contato com a Fundação Rio-Águas, que em comunicado, informou que enviará equipe para a avaliação do sistema de drenagem da localidade. Já a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, a CEDAE, não respondeu aos questionamentos.

Edu Carvalho

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