Um socorro para a Maré

Lideranças da Maré e Manguinho e instituições tem feito ações de prevenção e cuidados contra o coronavírus - Foto: Douglas Lopes

Projeto piloto desenvolve ações para driblar a expansão da COVID-19 no território

Hélio Euclides

Mesmo com a reabertura da cidade e especulações da volta às aulas, o novo coronavírus segue fazendo vítimas. As favelas e bairros periféricos sofrem com o contágio e mortes. Na Maré, o Painel Rio COVID-19, da Prefeitura do Rio, trazia 541 casos e 90 mortes na noite de 18 de agosto. Com os dados apurados pela equipe do Boletim De Olho no Corona!, na 15ª edição o conjunto de favelas possuía 1.076 moradores com suspeita e 34 mortes causadas pela COVID-19. Assim, a Maré tem, entre confirmados e suspeitos, 1.584 casos e 124 mortes por coronavírus. É um dado preocupante, pois os números no território continuam subindo, apesar de a imprensa divulgar uma queda no Estado como um todo. 

Para reverter esta situação, foi desenvolvido o Conexão Saúde – De olho na Covid, projeto piloto que será implementado na Maré e em Manguinhos para combater o novo coronavírus nesses territórios. O projeto irá atuar por meio de ações, como telemedicina, testagem, pesquisa e um centro de isolamento para atenção integral. A ação é uma parceria de instituições Centro Comunitário Manguinhos, Cruz Vermelha, Dados do Bem, Estáter, Fiocruz, Redes da Maré, SAS Brasil, Todos Pela Saúde e União Rio. 

O lançamento foi nesta quarta-feira (19) através de uma live no canal do Youtube da Fiocruz, com a presença do oncologista Dráuzio Varella, da pneumologista e pesquisadora Margareth Dalcomo, além de Eliana Sousa representando a Redes da Maré e Patrícia Evangelista, do Conselho Comunitário de Manguinhos. Também fizeram parte da conversa Nísia Trindade Lima (Presidente da Fiocruz), Valcler Rangel (Fiocruz), Adriana Mallet (SAS Brasil), Fernando Bozza (Dados do Bem) e Eduardo Pádua (União Rio).

A pesquisadora Margareth Dalcomo destacou o papel das lideranças comunitárias enquanto facilitadoras na execução de projetos como o Conexão Saúde. “As lideranças comunitárias são fundamentais para que nós consigamos ter acesso a essas comunidades. Elas são legítimas representantes não só dessas pessoas, mas como dos problemas que são prevalentes nessas comunidades”, observou a pesquisadora. Margareth destacou que em espaços de alta violência urbana muitos projetos externos têm dificuldade de se sustentar sem o apoio das lideranças, que são o elo entre os projetos e os territórios.

Ações para combate

A primeira ação já foi iniciada, com atendimento on-line feito por médicos e psicólogos. “Por conta da pandemia, foi iniciado a telemedicina no Alemão, para as pessoas que, com receio, ficaram sem acesso a outras especialidades. No Alemão, 97% dos atendimentos foram resolvidos pelo telefone e outros 3% encaminhados para unidades. Agora é a vez de Manguinhos e Maré. O morador manda um WhatsApp com uma mensagem, é feita uma triagem e depois o médico liga para a pessoa”, diz Luna Arouca, coordenadora do Espaço Normal e do Boletim De Olho no Corona!

Para realizar o serviço, a SAS Brasil tem uma equipe de 70 médicos e mais de três especialidades. Sabine Zink, diretora da SAS Brasil, explica que o atendimento será completo, não apenas para os casos de COVID-19. “Para o paciente, é um médico no WhatsApp. Estamos conversando com as clínicas das famílias e com a UPA, para somar esforços nesta crise de saúde que estamos vivendo. A ideia é que a gente fique quatro meses [atuando no território]”, comenta. O projeto já está em funcionamento com bastante procura. 

Com o avanço tecnológico, o médico Dráuzio Varella vê que a utilização da telemedicina é um mecanismo importante, mas destaca também a necessidade do contato presencial com os profissionais. “Eu vejo a telemedicina como uma grande ajuda, desde que ela seja incorporada para exercer um papel que ela deve ter. Agora, ela não pode substituir o sistema de saúde e os outros profissionais necessários para outros atendimentos médicos”, destacou. 

Telemedicina está em atendimento na Maré desde julho

A segunda ação são as testagens. Ela nasce da articulação do aplicativo Dados do Bem na coleta, com a parceria da Fiocruz no cruzamento de dados. “A ideia é começar com 80 testes por dia com os sintomáticos, entre o 2º e 9º dia da doença. Com o resultado positivo, é indicado o isolamento e o teste pode ser estendido para até 5 pessoas que o paciente teve contato”, detalha Luna. O local usado para base dos diagnósticos será o Galpão Ritma, na Rua Teixeira Ribeiro, nº 521, na Nova Maré.

Para realizar a testagem, a pessoa precisa, inicialmente, apresentar os sintomas da Covid-19. A partir disso, é necessário baixar o aplicativo do Dados do Bem no Google Play (sistema Android) ou na App Store (sistema iPhone), responder as perguntas e caso esteja dentro dos critérios, a pessoa é agendada para fazer o teste. É importante ficar alerta no aplicativo pois o agendamento será feito apenas pelo programa.

Passo a passo da utilização do aplicativo da Dados do Bem

Já a terceira ação vai ser um Centro de Isolamento na Maré, ao lado da Clínica da Família Jeremias Moraes da Silva, na Nova Holanda. No local serão 18 leitos, onde o paciente terá atendimento, alimentação e acomodação para dormir. O projeto ainda contará com uma ajuda na estruturação da clínica. Será um projeto-piloto, que pode seguir para outras favelas da cidade.

Uma pesquisa na favela

A Secretaria Municipal de Saúde começou uma pesquisa em parceria com o IBOPE na Maré, a partir de 1.000 testes, divididos em duas etapas. Na primeira, realizada em junho, 19% dos moradores da Maré testados tiveram resultado positivo para o vírus. Pensando na população total da Maré, estima-se mais de 24 mil casos positivos na região. A segunda etapa da pesquisa foi realizada no mês de julho e nela 11,4% dos moradores da Maré, que participaram do inquérito sorológico, testaram positivo para º novo coronavírus. A previsão é que a terceira fase seja iniciada no início de agosto.

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