Um meio ambiente que pede socorro

Muitos moradores da Maré têm plantas em casa, como Raimunda Santos, que vende algumas mudas em sua casa, na Nova Holanda - Foto: Matheus Affonso

Com queimadas pelo país, moradores tentam preservar o verde na Maré

Maré de Notícias #117 – outubro de 2020

Hélio Euclides

O meio ambiente nunca sofreu tanto como nos últimos 2 anos, mas, foi em  2020, que ele  levou “socos cruzados”, daqueles que deixam sequelas. Na cidade do Rio de Janeiro, logo no início do ano, o que parecia  geosmina – composto orgânico encontrado no solo – era poluição industrial nas águas do Rio Guandu, o que fez com que os cariocas ficassem sem água potável em casa. Em agosto, começaram as queimadas, que  destruíram mais 3 milhões de hectares, cerca de  21% da área do Pantanal. Recorde absoluto na história deste bioma, que é o mais úmido do planeta. E, no mês em que iniciamos a primavera, e se comemora o Dia da Árvore (22 e 21 de setembro respectivamente), o Brasil arde em chamas na Amazônia, no Cerrado,  na Região Serrana do Rio de Janeiro e no Pantanal –  que ainda não teve o fogo controlado.(até o dia 23/9)

Diante do cenário trágico, pequenas atitudes de preservação ambiental ganham outra dimensão. Na Maré, moradores lutam pela preservação de espaços verdes. Ao longo dos 20 anos, como supervisor na Vila Olímpica da Maré, Pablo Ronaldo Oliveira sempre teve muito carinho pelas árvores do local.  E não é à toa, o projeto original paisagístico da Vila Olímpica foi feito pelo paisagista Burle Marx. “O ex-diretor do espaço, José Fantine, me incentivou a continuar o paisagismo, então, começamos a pegar mudas com moradores e também compramos algumas. A Maré, devido às construções habitacionais, foi perdendo o seu verde. Hoje temos, como grande referência na Maré, a Vila Olímpica e o Parque Ecológico, na Vila dos Pinheiros”, afirma Pablo. 

Outros moradores preservam o verde dentro de suas casas. Marineide Felix, conhecida como Dona Neide, tem cerca de 20 vasos na frente da casa onde mora  na Baixa do Sapateiro, uma das 16 favelas da Maré. “Gosto de plantas desde minha infância, esse amor foi passado de meus pais para os filhos. Com a pandemia, tive mais tempo para cuidar das plantas, o que foi bom. Se tivesse espaço, teria mais vasos, pois cuidar da natureza traz um bem-estar para todos, não nos deixa deprimida, contribui com a diminuição da poluição e causa mais sombra nas ruas”,revela a entusiasmada dona de casa.

Há doze anos, Raimunda Sousa, comerciante da Nova Holanda, outra favela da Maré, ganha a vida vendendo plantas, mas confessa que sua maior conquista foi acabar com o lixo na porta de sua loja. “Comecei a plantar tudo que eu tinha em casa. Depois outras pessoas começaram a querer plantas, então comecei a vender. As pessoas ainda não dão tanta importância à natureza, por isso gostaria de poder ensinar às pessoas a gostar e cuidar das plantas”, comenta a comerciante que, apesar de sempre ter gostado da natureza, foi após uma depressão que o amor se revelou com mais força.

Pablo Oliveira em momento de cuidado das plantas da Vila Olímpica, cujo projeto paisagístico é de Burle Marx – Foto: Elisângela Leite

Dicas para um cuidado com as plantas:

Para cuidar das plantas é preciso ter um solo saudável, com reposição de matéria orgânica, reintroduzindo nutrientes através de adubo ou composto. Cobrir o solo com uma camada de matéria morta, como grama seca ou folha seca ou ainda serragem protege e mantém a umidade. Outra dica é regar sempre em horário em que o sol não esteja forte, somadas a podas periódicas. As plantas precisam de adaptação às condições do clima e à iluminação. Há plantas que requerem mais luz e outras que preferem meia sombra.

O biólogo Jorge Tonnera Junior lembra que a reposição de matéria orgânica no solo pode ser feita através de fertilizantes, produzidos dentro de casa, por meio da compostagem de talos, folhas ou cascas de frutas, legumes, casca de ovos e borra de café. A maioria das plantas precisa receber água todo dia. Mas não é bom encharcar a terra. É preferível regar a terra, nem toda planta suporta que suas folhas sejam molhadas. “É preciso sensibilidade e atenção para perceber como as plantas respondem”, conta. O biólogo informa que as próprias folhas mostram como a planta está: se saudável, se necessita de água, nutrientes ou se não está tolerando o clima ou a luz. 

Veja algumas dicas específicas:

  • Cebolinha, onze horas e coroa-de-cristo: são plantas que gostam muito de sol, ou seja, não vão sobreviver em ambiente com pouca. 
  • Tomateiro: embora goste de sol, aceita meia sombra. 
  • Tomilho: uma planta que bebe bem água e não aguenta alguns dias sem água na terra. 
  • Coentro: atraem joaninhas e essas se alimentam de pragas, como pulgões que adoecem couve e brócolis.

Árvores morrem por podas

Sérgio Ricardo, ambientalista e coordenador do Movimento Baía Viva, afirma que, em média, recebe três reclamações semanais de podas assassinas –  cortes que são feitos sem estudo prévio, podendo causar a morte das árvores. “Acredito que o déficit de arborização seja de 21 milhões de árvores, por ter em média a perda de 200 mil unidades por ano. Deixamos de ter uma cidade de sustentabilidade. Com mais concreto, passamos a perceber uma cidade mais quente, com ilhas de calor. É preciso amenizar as condições climáticas com arborização”, diz ele. Acrescenta que a poda assassina virou um padrão de política pública por parte da Comlurb, mas que a Light também faz as podas indevidas. 

A insegurança também agrava a situação, pois, para que as ruas não fiquem  escuras, é feita a poda como uma solução equivocada. Para o ambientalista, o que não faltam são equívocos dos governos na questão ambiental.  “O Plano Diretor de Arborização Urbana é maravilhoso, mas não saiu do papel. Aqui na cidade do Rio de Janeiro, estamos passando pela farra do boi, com a construção do autódromo, que vai causar a devastação de uma  Floresta, que é a  do Camboatá”. 

A assessoria de Imprensa da Light informou que apenas realiza a poda dos galhos que estão em contato com a rede elétrica da empresa. E que os demais serviços de podas de árvores, remoção de árvore ou poda completa são de responsabilidade da Prefeitura do Rio. 

A Fundação Parques e Jardins diz que está trabalhando em conjunto com a Comlurb para fazer o inventário arbóreo da cidade, que tem em torno de um milhão de árvores. Confirmou que a cidade ideal teria todas as vias totalmente arborizadas, porém isso não demanda somente plantio, mas também infraestrutura urbana. Sobre a Maré, informou que no momento não tem nenhum projeto específico para o território.

Florestas viram cinzas após incêndios 

Na comparação com o ano passado, a quantidade de incêndios nas florestas brasileiras  subiu 10% em 2020. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) registrou, na Amazônia, até o meio de setembro, 8% a mais de incêndio do que o mesmo período de 2019. A área desmatada na Amazônia pelo do fogo foi de 1.359km² em agosto. O número é o segundo maior para o mês dos últimos cinco anos.

O fim do Fundo da Amazônia e a proibição do trabalho do Ibama podem ter influenciado este aumento. O ambientalista acredita que, com a  dificuldade de o IBAMA em trabalhar e sem a sua fiscalização, ficou mais fácil para grileiros e fazendeiros promoverem queimadas criminosas, para usar terras, antes, protegidas no agronegócio: “O Governo Federal não tem uma política ambiental e de bioeconomia. O que está acontecendo na Amazônia influencia o Sudeste, com relação ao regime de chuva e impacto no reabastecimento de água. O medo é a Amazônia passar por um estado de savanização, se transformando num cerrado”. 

Apesar da alta nos registros de incêndios florestais, a previsão é de que os principais órgãos federais, que cuidam dos biomas do país, tenham menos orçamento em 2021. De acordo com o Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa), para o ano que vem, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) podem ter um corte de R$ 126,1 milhões nas suas verbas.

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