Uma vida dedicada à Maré

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Seu Amaro atuou em muitas frentes para levar melhorias ao bairro

Maré de Notícias #100

Hélio Euclides

O Conjunto habitacional Nova Maré foi inaugurado pela Prefeitura em 1996, com o fim de assentar moradores removidos de palafitas. Segundo o Censo Maré de 2013, a Nova Maré conta com 3.215 habitantes e 944 domicílios. Tem como marco a presença da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, a instituição Uerê e a Vila Olímpica da Maré. Essa última, administrada desde sua criação por Amaro Domingues, de 86 anos, nascido no interior do município de Campos. Ele recebeu a medalha Pedro Ernesto e teve sua vida contada em dois livros. Seu Amaro, como é conhecido na Maré, fala da sua trajetória e luta pela favela.

MN:Como foi sua vinda para a Maré?

AD:Morei em diversas localidades, mas em 1962 fui removido de Benfica para a Nova Holanda. Quando cheguei à favela, só tinha até a Rua Cinco, o resto era mangue. Aconteceram muitas remoções naquela época, como Manguinhos, Esqueleto e Praia do Pinto. As pessoas vieram para cá e as necessidades apareceram, como a falta d’água. Então tinha de buscar água com o uso de um barril que era chamado de rola. Aqui também não tinha luz, era usado um gerador. Uma vez acabou o óleo no meio do jogo da Seleção brasileira, na Copa de 1962. Depois a luz ficou centralizada em cabines.

Como começou sua luta na Maré?

A educação era péssima, então como eu fazia parte do Sindicato dos Rodoviários consegui 600 vagas para as crianças da Maré na escola dos funcionários da CTC (Companhia de Transportes Coletivos). Em 1998, uma das reclamações era que ninguém dava emprego para quem falasse que era morador da Maré. Então, consegui por oito anos uma parceria de limpeza com o Hospital do Fundão (Universitário Clementino Fraga Filho), para colocar moradores por meio da cooperativa que presidia a Coopjovem Maré, cuja sede era na Nova Maré.

E o trabalho na Vila Olímpica?

Fundamos a Unimar (União das Associação de Moradores do Bairro da Maré). Um dia, numa reunião com 12 representantes, apresentamos ao engenheiro Edgar Amaral a criação da Vila Olímpica. No dia 23 de abril de 1995, cheguei em Brasília para apresentar o projeto. Não tinha dinheiro e me senti um plebeu favelado, com um book debaixo do braço. Consegui falar com o Ministro dos Esportes, Pelé, e deixar o material com o seu assessor. Depois veio a briga para a construção, já que achavam uma área perigosa. Foi a primeira vila olímpica da Prefeitura. Para completar o tripé, reivindicamos uma creche (Espaço de Desenvolvimento Infantil Professor Moacyr de Góes) e a escola técnica. Muita luta, pena que tem gente que deseja aparecer, mas não ligo, o importante é funcionar.

Como é a ligação com a Nova Maré?

A Nova Maré nasce da remoção das palafitas da Praia de Ramos e Roquete Pinto. Colaborei para a criação da associação de moradores, que teve como primeira presidente a amiga Clarinha (Maria Clara Rodrigues da Silva). Estou presente desde a fundação, me sinto bem perto desse povo. É onde passo a maior parte do dia, na Vila Olímpica. Queria fazer mais coisas, mas tenho meus limites.

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Do Conjunto de Favelas da Maré à conferência da 19a reunião de cúpula do G20, a trajetória de Kaya Bee, moradora da Nova Holanda é um exemplo inspirador na luta por um futuro mais justo e sustentável. Aos 27 anos, mãe, ativista climática e estudante de jornalismo, ela carrega a força e a resiliência de quem enfrenta os desafios da vida na favela com a determinação de transformar a realidade para os mareenses.