‘Vai se tratar, garota’: a revolução do TikTok

Geração TikTok: DJ da festa da irmã, Eloanne representa a criançada que tem facilidade para aprender as dancinhas e se diverte com o celular nas mãos | Foto: Matheus Affonso

‘Vai se tratar, garota’: a revolução do TikTok

Na indústria musical ou na forma de se relacionar, aplicativo chinês é tendência mundial, especialmente entre as crianças

Maré de Notícias #129 – outubro de 2021

Por Tamyres Matos

Olhos ávidos em uma face iluminada por um dispositivo com acesso à internet. Essa é a realidade diária de bilhões de pessoas pelo mundo. No caso das crianças, a situação não é diferente, e a maioria delas abre a mesma rede social diversas vezes ao dia: o TikTok. De acordo com a empresa de consultoria digital norte-americana Sensor Tower, o aplicativo chegou ao impressionante número de três bilhões de downloads globais. Com este anúncio de julho deste ano, a empresa chinesa é a primeira fora do universo do Facebook (controladora do WhatsApp, Messenger e Instagram) a alcançar tal marco.

Rastrear a quantidade de crianças e adolescentes entre os usuários não é uma tarefa simples, pois muitos deles se registram com idades acima do que realmente têm (o mínimo recomendado pela própria plataforma é 13 anos). Mas o fenômeno é inegável. Ao entrar na rede social, o usuário é exposto a vídeos com duração entre 15 e 60 segundos, alguns com dublagens – frequentemente com tons humorísticos -, outros com coreografias e challenges (desafios) que se espalham de forma extremamente rápida. Desta forma, o TikTok revolucionou a indústria musical e tem influenciado significativas mudanças culturais (inclusive no próprio Facebook, que investiu nos Reels com o mesmo formato).

O aniversário da pequena Eloah, de apenas 1 ano, na Nova Holanda, uma das favelas da Maré, é um bom demonstrativo dessa influência. O tema era “confeitaria”, mas a força propulsora definitivamente foi o TikTok. A playlist foi montada pela irmã da aniversariante, Eloanne, de 9 anos. A lista de músicas – na verdade, trechos de menos de um minuto – intercalava sucessos da rede social com destaques do arrocha e do piseiro. E o engajamento do público compensou.

“Todas as crianças são fanáticas por essas músicas e dancinhas. Elas sabem todas as coreografias mais famosas. Boa parte dos adultos também acompanhava os passos. Aqui em casa é assim: Eloah só sossega quando escuta TikTok e Eloanne a mesma coisa. Não tinha nem como colocar música da Xuxa porque elas nem sabem quem é. Não tem jeito, o TikTok é a inspiração no momento”, conta Roane Martins Lino, de 30 anos, mãe das meninas..

A partir do relato da Roane é possível concluir que a imersão no universo das telas, intensificada pelo período de pandemia, tem alterado a vivência destas crianças e adolescentes de diversas maneiras. Para Evelyn Eisenstein, premiada internacionalmente em medicina do adolescente e professora da pós-graduação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é importante enfatizar que as telas podem, sim, auxiliar na comunicação, mas isso não significa necessariamente uma melhora na sociabilidade. “Estas crianças têm etapas para seu desenvolvimento psicomotor e das suas habilidades e a tela proporciona, na verdade, uma dissonância cognitivo-afetiva: a criança sabe muito sobre as telas, mas tem dificuldade ao expressar as emoções. E estamos vendo todos os tipos de aumento dos comportamentos de risco em adolescentes que ficaram em casa, devido à pandemia, em frente às telas”, explica.

Alerta aceso

A utilização do TikTok pelos filhos mais velhos (ela também é mãe de Daniel Lucas, de 13 anos) não incomoda Roane, apesar de ela ressaltar que cresceu numa atmosfera muito diferente. Ela acredita que é a maneira que os filhos encontraram para se divertir sem precisar sair de casa. “Eu gosto e me inspiro muito em TikTok”, acrescenta Eloanne. No entanto, a mãe reforça que acompanha de perto as postagens e os acessos. 

“Estou sempre em cima, de olho. Eles não usam a rede sozinhos. Vejo no que estão mexendo, com quem estão conversando, até nos vídeos que assistem eu fico atenta para ver se tem um conteúdo inadequado para eles”, diz.

Não são poucos os motivos que reforçam a necessidade de atenção próxima dos pais com relação ao uso da rede social (da chinesa e de todas as outras). Em um caso extremo, Lucas Santos, de 16 anos, filho da cantora de forró Walkyria Santos, matou-se depois de publicar um vídeo no TikTok, em que aparecia em uma brincadeira popular: fingir que beijaria um amigo. Os comentários homofóbicos recebidos teriam sido o gatilho para o suicídio do adolescente.

“Os pais precisam acompanhar este uso bem de perto. Há diversos riscos aos quais estas crianças e adolescentes estão expostos, entre eles o contato com adultos estranhos que possam ter interesses sexuais, o cyberbullying (bullying virtual) e a sextorsão (ameaça de se divulgar imagens íntimas para forçar alguém a fazer algo). É preciso verificar se eles sabem lidar com convites inapropriados, se conhecem os riscos, se têm recursos para lidar com este tipo de situação. É essencial que eles tenham consciência das ferramentas para se prevenção e, quando o problema se tornar realidade, é imprescindível saber denunciar”, orienta Juliana Cunha, psicóloga e diretora da ONG de defesa dos direitos humanos na internet Safernet Brasil.

Em setembro, o próprio TikTok anunciou, após diversas críticas sofridas pela falta de regulação, o incremento no recurso chamado de “sincronização familiar”. A plataforma divulgou ter adicionado conselhos para os pais, desenvolvidos em colaboração com adolescentes e especialistas em segurança online de jovens. “As contas dos pais ou responsáveis atualmente vinculadas à conta do adolescente receberão uma notificação para que descubram mais sobre o apoio que os adolescentes gostariam de receber e suas sugestões sobre como abordar conversas sobre alfabetização digital e segurança”, diz o comunicado da empresa.

Juliana Cunha explica que, nos casos em que os pais não têm intimidade com as possibilidades das redes sociais, “é sempre bom buscar apoio de um profissional, de alguém que confia para conversar. Muitas vezes os pais podem acabar subestimando os sinais de alerta devido ao pensamento de que é ‘só uma fase’ e que vai passar logo, mas definitivamente não é bem assim. É preciso estar atento para que as coisas não saiam do controle”. A diretora da SaferNet Brasil reforça ainda que a idade mínima para entrar nas redes sociais deve ser respeitada.

Roane Martins Lino com a família na festa de aniversário na qual a playlist foi músicas do TikTok – Foto: Matheus Affonso

Mães, pais, responsáveis: é hora de intervir

Ao refletir sobre os riscos, Juliana reforça que a internet não é a única raiz dos males psicológicos para crianças e adolescentes, mas a exposição a conteúdos nocivos pode ser um gatilho para o sofrimento. Confira uma lista de comportamentos dos jovens usuários das redes sociais que indicam a necessidade de intervenção:

  • Mudanças bruscas de comportamento – uma criança muito expansiva que se recolhe excessivamente ou um adolescente carinhoso que se distancia da família;
  • Acesso à internet sem acompanhamento dos pais – a utilização às escondidas pode ser um sinal de que alguma situação inadequada está em curso;
  • Sintomas psicossomáticos – um jovem que passa a ter dor de cabeça frequentemente, insônia e outros distúrbios;
  • Queda repentina no rendimento escolar – a criança que nunca teve grandes problemas não consegue concluir as atividades;

A versão chinesa do TikTok, chamada Douyin, anunciou em setembro o lançamento de um modo específico para adolescentes, que limita a 40 minutos o tempo que menores de 14 anos podem usar o aplicativo. O app também não vai funcionar entre 22h e 6h e, segundo a empresa proprietária do TikTok e do Douyin, ByteDance, o objetivo é evitar que esta parcela mais jovem dos usuários fique viciada.

Evelyn, que também é coordenadora do Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital e trabalhou no desenvolvimento do Manual Saúde da Criança na Era Digital, ressalta uma palavra-chave quando se trata das telas: desconectar. “O melhor que os pais podem fazer é conviver, estimular o convívio afetivo fora das telas. Sair para passear, para dar uma caminhada. Compartilhar momentos em família, desenvolver o senso de cooperação, fazer exercícios. Tudo isso é essencial em qualquer idade, mas especialmente para seres em formação”, conclui.

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Tamyres Matos

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