Você sabe o que é racismo ambiental? Entenda a relação com o território da Maré

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A saúde da população negra é atingida fortemente pelas alterações no clima

Maré de Notícias #125 – junho de 2021

Laerte Breno e Mariane Rodrigues, colaboradores da Campanha Climão da Redes da Maré

A favela é feita de gente que luta para sobreviver, e que não mede esforços para garantir o pão na mesa e o dinheiro do aluguel no fim do mês. Na Maré, há 140 mil habitantes, cada um com a sua história, seus sonhos e dificuldades. É tanta gente que o descarte de lixo cresce em ritmo acelerado. Em um minuto, a caçamba de lixo está vazia; no outro, está tão cheia que não vemos a hora de o caminhão da Comlurb passar. Mas, antes que isso aconteça, um batalhão de trabalhadores, espalhados pelo Brasil e atuantes também na favela da Maré, desempenha um papel fundamental não só para o meio ambiente como na garantia para si do arroz e feijão do  dia a dia: os catadores de materiais recicláveis

Em todo o país, são quase 400 mil catadores de materiais recicláveis, sendo que 51,5% se autodeclaram pardos e 14,6%, pretos. Dona Lucinda, mulher negra moradora da Maré, é uma catadora que, de segunda a domingo, roda as favelas da Vila do João, Pinheiro e Salsa e Merengue à procura de materiais. Mais  tarde, eles serão trocados no ferro-velho pelo sustento dela e de sua família.

A catadora vê o seu trabalho como digno e igual a qualquer outro. Segundo ela, na favela faltam investimentos. “Meu trabalho é importante. A floresta amazônica está sendo queimada todo dia, e eu acho que estou ajudando o meio ambiente. Triste é saber que aqui não tem investimento e nem espaço direito para as crianças brincarem”.  

O que dona Lucinda narra é justamente o que chamamos de racismo ambiental. O termo foi cunhado em 1981 por Benjamin Franklin Chavis Jr, líder negro do movimento pelos direitos civis americano, e diz respeito ao descaso ambiental com que são tratadas comunidades de minorias étnicas, forçadas a se estabelecer em locais próximos a resíduos tóxicos e submetidas à moradia sob condições insalubres ou perigosas. Essas populações são ainda excluídas das tomadas de decisão, mediação e criação de quaisquer políticas públicas socioambientais. 

Além da marginalização, da estigmatização e do racismo, essas comunidades também são aquelas que registram maiores índices de poluição e degradação do solo, falta de saneamento básico e acesso inadequado à alimentação de qualidade. Esse quadro, já vulnerável, se agrava em momentos de crise global, como a pandemia da covid-19. Como efeito desse sistema, há uma naturalização dessa realidade.

Aterro de Gramacho

Um exemplo é o do hoje desativado Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, criado em 1976 em Duque de Caxias para receber os resíduos dos municípios do chamado Grande Rio. O projeto nasceu com inúmeros problemas estruturais, que poderiam ter sido evitados se a população e os órgãos de proteção ao meio ambiente tivessem sido consultados previamente. Instalado onde antes existia um manguezal, o aterro afetou drasticamente não só a saúde das águas da Baía de Guanabara, como também a da população de Duque de Caxias, diminuindo a qualidade de vida das comunidades do entorno ao expô-las à poluição do ar, à proliferação de vetores de doenças e ao solo contaminado. Mesmo fechado desde 2012, o aterro de Jardim Gramacho continua impactando a vida daquelas pessoas, que ainda convivem com doenças por conta dos rios poluídos, permanecendo sem assistência do poder público.

O aterro metropolitano em Jardim Gramacho, apesar de desativado, ainda recebe lixo – Foto: D’arcy Norman

O impacto na Maré

O território da Maré é maior do que 96% dos municípios do país, e continua crescendo. Não apenas o lixo é um problema, causando obstrução dos bueiros e ameaçando a saúde da população: a péssima qualidade do ar, causada pela poluição que vem das três principais vias do município que cercam a Maré, e temperaturas mais altas do que no centro da cidade contribuem para causar e agravar doenças respiratórias graves.

Dados do censo populacional da Maré de 2019 apontam que mais da metade da população da região é autodeclarada preta ou parda. Assim como outras favelas, os quilombos, os territórios indígenas e os ribeirinhos estão mais vulneráveis ao e racismo ambiental porque faltam práticas governamentais de combate às desigualdades sociais.
Pela necessidade de sustentar a casa, Dona Lucinda, autodeclarada negra,  teve seus planos de vida interrompidos, sendo vítima da desigualdade social do país. “O meu trabalho é importante. Mas, quando eu era nova, queria ser bailarina, amava dançar… Só que tem horas que a necessidade fala mais alto”.  Sua necessidade também a expõe a riscos, na medida em que enfrenta longos períodos trabalhando sob o sol, sem equipamentos de segurança que a protejam do solo e de resíduos contaminados a que é exposta diariamente.

Nos olhares atentos de Lucinda, ela reconhece o descaso do poder público, sentindo na pele os fracos investimentos socioambientais na favela da Maré, “Aqui é muito quente. O sol já no início da manhã é bem forte. Quando chove alaga tudo, é lixo pra todo lado. É uma situação muito difícil”. Segundo ela, somente depender do Estado não é uma solução para o problema: a participação ativa de todos na comunidade é importante. “Tem morador que precisa ter mais cuidado quando jogar o lixo fora. Tem que descartar nos locais indicados e dentro da caçamba, para evitar alagamentos e o valão não subir”.

Além da crescente degradação ambiental, a pandemia agravou ainda mais a saúde da população negra e mostrou como a desigualdade funciona para esse grupo. Dados do Instituto Pólis de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais, coletados entre 1º de março e 31 de julho em São Paulo, revelam que, se as condições de vida e as idades entre brancos e negros/pardos fossem iguais, a taxa de mortalidade de pretos e pardos resultaria em 4.091 óbitos no período e não, 5.312 mortes, como ocorreu (29,85% a mais do esperado). Entre pessoas brancas, esperava-se 11.110 óbitos, mas foram registradas 9.616 mortes (13,4% a menos). O Sistema Único de Saúde (SUS) também mostra essa disparidade: a cada cinco brasileiros que dependem unicamente da saúde pública, quatro são negros. 

Dona Lucinda admite que a situação não é fácil, mas se vê esperançosa se começarmos a partir de agora: “A vida nunca foi fácil, é muito trabalho, mas um dia há de melhorar, nem que seja um pouquinho”.

O despejo irregular de esgoto à céu aberto traz inúmeras doenças à população, como diarréia, hepatite A, verminoses e outras – Foto: Matheus Affonso

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