“A Clínica da Família precisa ser a referência em saúde no território”, diz coordenador de Atenção Primária em favelas

Thiago Wendel. Foto: Arquivo pessoal

“A Clínica da Família precisa ser a referência em saúde no território”, diz coordenador de Atenção Primária em favelas

Por Luciana Bento, Boletim Conexão Saúde – De Olho no Corona

Ano passado, quando trabalhava em um laboratório na Fiocruz, o enfermeiro e mestre em Saúde Coletiva e Políticas Públicas pela Uerj Thiago Wendel não imaginava que este ano estaria, em plena pandemia, à frente de uma das maiores áreas programáticas de saúde do município do Rio, a Coordenadoria de Atenção Primária da Área Programática 3.1 (CAP AP 3.1), que abarca Manguinhos e Maré entre outros bairros e favelas.

A área, que atende quase 1 milhão de habitantes – ou cerca de 1/6 da população do Rio, é especialmente cara a Thiago. Oriundo da Vila Cruzeiro, na Penha, ele se diz diariamente motivado em cuidar da saúde de moradores que, como ele, utilizam o SUS. “Sou usuário da Clínica da Família Felipe Cardoso, que é minha unidade de referência, e é muito gratificante poder fazer a diferença na vida das pessoas da região de onde eu vim”, confessa.

Nesta entrevista exclusiva para o boletim Conexão Saúde – De Olho no Corona, Thiago fala da situação das unidades básicas de saúde da Maré e de Manguinhos em meio à pandemia, das estratégias utilizadas para enfrentar este momento crítico e dos desafios que a CAP tem pela frente. “Quero melhorar os indicadores de saúde desta área”, diz.

Você assumiu a coordenação da CAP no início do ano, em plena pandemia. Em que situação você encontrou os equipamentos de saúde da Maré e o que tem sido feito para enfrentar este momento crítico no território?

Quando assumi, a falta de profissionais era gritante, absurda. Havia unidades da Maré funcionando sem médicos e outras que passavam mais tempo fechadas do que abertas. Isso sem falar das paredes mofadas e sujas, portas caídas, profissionais trabalhando sem uniforme, estruturas há anos sem qualquer reforma.

Tivemos que estabelecer prioridades e correr muito pra garantir um funcionamento mínimo decente e hoje podemos falar que a Maré tem o mesmo serviço de saúde de outros bairros da cidade, sem diferença nenhuma. Sem falar que reabrimos a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Manguinhos, que estava fechada em plena pandemia.

Com o aumento da procura das unidades de saúde para casos de Covid, estamos abrindo nos dias de semana a partir das 7 horas da manhã e aos sábados até as 17 horas, justamente pra evitar filas e aglomerações.

Também organizamos as unidades de saúde em duas frentes: uma de resposta rápida, para atendimento de pessoas com sintomas de síndrome gripal – cujos profissionais, pela possibilidade de contaminação com Covid, precisam usar todos os equipamentos de segurança (máscara especial, óculos, toca etc) – e outra para atendimento a outras doenças, que continuam com demanda alta.

A procura às clínicas da família aumentou muito, sobretudo em março e abril, com pessoas com sintomas de covid, que precisam ser tratadas e orientadas devidamente. Entenda bem: não estou falando de tratamento precoce, mas de tratar os sintomas da doença e dar os encaminhamentos adequados, para ele e pra família, para que o quadro não se agrave.

Este é um desafio grande no momento: a sobrecarga do sistema de saúde em todo o País. Como está a situação na Maré?

Pois é! As mulheres continuam engravidando e precisando de exame pré natal, temos pacientes com doenças que podem piorar rapidamente se não houver

acompanhamento e controle, como diabetes e tuberculose… A unidade não pode parar e um dos erros que acho que cometemos – até por desconhecimento da doença e da pandemia – foi parar tudo pra tratar os pacientes com Covid. Isso fez com que aumentassem as mortes evitáveis por doenças crônicas, por exemplo. É um dos nossos objetivos diminuir estes óbitos.

Neste momento, que problema você elenca como mais crítico no sistema de saúde da área que você coordena?

Quando assumimos, havia uma falta muito grande de profissionais de saúde e, como estamos em plena pandemia, não existem profissionais disponíveis. Estão todos precisando deles: rede pública e particular, hospitais, clínicas – e não foi diferente na rede de saúde da Prefeitura. Mas conseguimos fazer com que todas as unidades tenham profissionais: médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, farmacêuticos. Nada mais do que o essencial, mas por incrível que pareça a rede estava funcionando sem este básico.

E como estão os profissionais de saúde neste momento?

Não é fácil. Estamos com atendimento estendido, abrindo mais cedo, fechando mais tarde, atendendo muitas pessoas, é desafiador, os profissionais estão cansados, deixando a sua família em casa para cuidar de outras famílias, sem folga ou férias, trabalhando em meio à pandemia, em uma situação limite… Tenho certeza de que estas pessoas não estão trabalhando só pelo salário no final do mês, eles têm um missão e se dedicam a isso.

Em relação à vacinação, como está a situação na Maré?

Temos uma frente específica pra isso e já vacinamos nossos profissionais, que estão mais expostos, e estamos focados na vacinação dos idosos – inclusive os que estão nas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) – o que já diminui os riscos de internações e de óbitos em 80% até 90%.

Nosso próximo passo é detectar os idosos que não vacinaram e fazer uma busca ativa para imuniza-los. Contamos com a vacina enviada pelo Ministério da Saúde, que chega de forma gradativa, então as prioridades precisam ser respeitadas.

Entendemos que o aumento da cobertura vacinal é fundamental para combater o avanço da doença no território, mas ainda temos o desafio da desinformação. Muitas pessoas acham que a vacina da Astra Zeneca tem reação forte, por exemplo, e não querem ser vacinadas com ela. Outros não confiam na Coronavac, porque é fabricada na China. Outros acham que não precisam vacinar…

Precisamos encontrar estas pessoas, identifica-las e esclarece-las, tranquiliza-la sobre a vacina. Isso vai ajudar a acelerar este processo e a diminuir a gravidade da pandemia nestes territórios.

Edu Carvalho

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