A Falsa Abolição no Brasil: reflexões sobre um contexto pós-libertação

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Flavinha Cândido(*)

A escravização no Brasil era uma realidade profundamente enraizada na sociedade, com raízes que remontam ao período colonial. O tráfico negreiro trouxe milhões de africanos para o Brasil ao longo dos séculos, alimentando uma demanda insaciável por mão de obra escravocrata. Mesmo após a proibição do tráfico em 1850, a escravidão persistiu, alimentada pelo comércio interno de cativos e pela exploração brutal nas plantações e nas casas grandes.

Após séculos de luta e resistência, o Brasil finalmente viu o fim formal da instituição da escravização com a assinatura da Lei Áurea em 1888. No entanto, é imprescindível compreender que a abolição não foi o ponto final da história, mas sim o início de uma nova era marcada por desafios e injustiças que perduram até os dias de hoje.

Ao contrário do que é contado em alguns livros de história do Brasil, antes mesmo da promulgação da Lei Áurea, os escravizados lutaram incansavelmente por sua liberdade, resistindo de diversas maneiras às opressões do sistema escravagista. Um exemplo marcante dessa resistência foi a Revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, liderada por escravos muçulmanos de origem africana que se levantaram contra seus senhores em busca de liberdade e justiça. Além disso, temos a Revolta de Carrancas, em 1833, em Minas Gerais, e a Revolta dos Alfaiates, em 1798, na Bahia, que demonstram a constante luta dos escravizados e dos marginalizados por seus direitos e por uma sociedade mais justa. Desde fugas individuais até revoltas coletivas, os escravizados demonstraram inúmeras vezes sua insatisfação com a condição que a sociedade branca colonizadora impunha. 

O movimento abolicionista ganhou força na segunda metade do século XIX, impulsionado por diversos atores sociais, incluindo intelectuais, ativistas e, sobretudo, pela resistência dos próprios povos negros escravizados. Enquanto os intelectuais e ativistas desempenhavam um papel importante na conscientização e na organização de campanhas pelo fim da escravização do povo negro, foi a resistência cotidiana dos escravizados que verdadeiramente impulsionou o movimento abolicionista.

No entanto, a abolição não trouxe consigo a verdadeira emancipação. A Lei Áurea, promulgada em 13 de maio de 1888, foi um ato simbólico que não se traduziu em mudanças significativas na vida dos “libertos”. Sem acesso à terra, à educação e ao trabalho digno, os ex-escravizados enfrentaram enormes desafios para reconstruir suas vidas em um país que continuava a ser marcado pelo racismo e pela desigualdade.

A falta de políticas de integração econômica e social deixou o povo negro à mercê de um sistema que continuava a explorá-los e marginalizá-los. A migração para as cidades em busca de trabalho e melhores condições de vida tornou-se uma realidade para muitos, mas também foi acompanhada pela repressão e pela violência por parte das autoridades e dos grandes proprietários, algo que se perpetua nos dias de hoje.

A abolição da escravatura no Brasil, frequentemente celebrada, não significou o fim das injustiças, mas o início de uma luta contínua e árdua por igualdade e justiça. É crucial reconhecer que essa falsa abolição deixou um legado de desigualdade e exclusão racial que ainda marca profundamente nossa sociedade. A representatividade negra em posições de destaque é escassa, refletindo a persistência de barreiras estruturais que limitam o acesso de pessoas negras a oportunidades equitativas em diversas áreas, como trabalho, educação, moradia e lazer. Políticas públicas reparatórias, como as cotas raciais, representam um passo importante, mas são apenas o início de um caminho longo e necessário para desmantelar o racismo institucionalizado. Para construir um Brasil verdadeiramente antirracista, é essencial criar espaços inclusivos que promovam igualdade real, garantindo que todas as pessoas negras possam viver com dignidade e ter suas contribuições valorizadas em todos os aspectos da vida nacional.

*Flavinha Cândido é moradora da Maré e colunista no Maré de Notícias, formada em Letras pela UERJ, Pós-graduada em Letramento Racial e Idealizadora da Página no Instagram Racial Favelado

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