A favela luta… e vence!

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Com 14 ouros, 4 pratas e 2 bronzes a equipe Maré Top Team desembarca na Maré em festa depois de disputar o campeonato mundial nos Emirados Árabes, em Abu Dhabi

por Gabriel Horsth

No mês da consciência negra, os moradores da Maré recebem um presente especial da juventude. 38 crianças, adolescentes e jovens chegaram a Abu Dhabi para representar o Brasil e a Maré em um dos maiores e mais importantes campeonatos de jiu-jitsu do mundo, Abu Dhabi World Professional Jiu-Jitsu Championship 2022. O mundial foi criado pela Federação de Jiu-Jitsu dos Emirados Árabes Unidos, que desde 2012 vem contribuindo para uma forte geração de atletas. Em sua 14ª edição a disputa foi realizada na Jiu-Jitsu Arena Zayed Sports City, de 11 a 19 de novembro. Os atletas do Maré Top Team fizeram história se tornando uma das equipes mais bem sucedidas do torneio (4º lugar no ranking mundial), garantindo 20 medalhas para Maré.

O destaque do campeonato ficou a cargo dos atletas mirins, Pedro Felipe Horsth, de 9 anos, e Rhyane Camylle, de 10 anos, que emocionaram o público presente na abertura do evento garantindo o pódio para o Brasil. “Lá a gente parecia famoso, todo mundo tirava foto. Voltar para meu lugar com o ouro é uma sensação que não sei explicar”, comenta Pedrinho que afirmou que a segunda luta não foi nada fácil. 

Para chegar a Abu Dhabi, uma das cidades mais caras do mundo, não foi tarefa fácil. Os atletas se mobilizaram através de rifas, vendas de bolos, pipocas, trufas, realização de sorteios, parcerias com estabelecimentos locais da favela e o empenho massivo de amigos e familiares. “É importante falar do Dudu que deu uma camisa da Tropa do Hulk (equipe de baile funk das antigas) e todos os meninos do Moto Táxi da Principal (Nova Holanda – NH) compraram a rifa da camisa. A DN Burgueria aqui da NH foi a primeira parceria que o Pedrinho teve na vida”, conta entusiasmada a avó do atleta, Leda Horsth (49), que se uniu a outras mães para realizar o sonho dos jovens. 

A Maré se mobilizou para arrecadação, tarefa nada fácil tendo em vista a crise econômica em que se encontra o país. Ainda assim, a luta valeu a pena, a juventude venceu nos Emirados Árabes e triunfou como campeã!  A equipe de treinadores que compõe a academia acredita no esporte como ferramenta de transformação e faz questão de agradecer a parceria da Mubadala e da Electric Films.

Campeões: da Maré para o mundo

Os 20 medalhistas da academia no Abu Dhabi World Professional Jiu-Jitsu Championship 2022, foram: Ana Rodrigues (11 anos, ouro); Caio Yarlen (15 anos, ouro); Cristiano Salustino (11 anos, prata); Erick Alexandre (13 anos, ouro); Gabriel Mussum (11 anos, ouro); Giovanna Carneiro (17 anos, prata); Jhennypher Marques (14 anos, bronze); Julia Freires (12 anos, ouro); Kauane Lima (15 anos, ouro); Kauê Henrique (13 anos, bronze); Lara Dias (14 anos, ouro); Pedro Felipe Barros (9 anos, ouro); Pyetro Emanuel (14 anos, ouro); Rebeca Medeiros (12 anos, prata); Rhyane Camylle (10 anos, ouro); Samuel Bahia (12 anos, prata); Sofia Azevedo (12 anos, ouro); Theodora Rangel (8 anos, ouro); Wallace Silva (15 anos, ouro), Yasmin Andrade (12 anos, ouro). 

Tímido nos bastidores, mas feroz no tatame  

Aos 6 anos de idade, Pedrinho foi matriculado pela avó, Leda, na academia de luta através de estímulos do primo, Guilherme. Hoje com 9 anos, ele coleciona 28 medalhas, incluindo ouro em Abu Dhabi. Não é a primeira vez que o garoto disputa um campeonato internacional. Em 2021, Pedro ganhou medalha de ouro no AJP Tour Guarapari International Pro na categoria kids, em Espírito Santo. A criança prodígio tem o primo recordista como inspiração, e apesar de tímido e acanhado, no tatame de Abu Dhabi finalizou rapidamente o atleta Sanzhar Aldabek, do Cazaquistão, e ganhou de 9 x 0 de Sonny Belcher, da Inglaterra.

O atleta foi criado pelos avós paternos e conseguiu realizar o sonho da avó de conhecer outro país. “Foi a primeira vez que viajei de avião, sempre quis conhecer outra cultura e nunca achei que isso ia acontecer comigo, que vou completar 50 anos de vida já”, disse emocionada a auxiliar de serviços gerais Leda. O garoto se orgulha da vitória dupla e afirma de forma convicta que a medalha é dela. No momento, ele outros atletas se empenham em mais uma mobilização coletiva para participação de outro mundial. O resultado nos Emirados Árabes serviu como classificatória para o Pan Kids IBJJF Jiu-Jitsu Championship 2023, nos EUA, e Pedro está animado: “eu quero estar lá, a próxima medalha será da minha tia e do meu tio”. 

Foto: Matheus Affonso | Com apenas 9 anos Pedro coleciona 28 medalhas, incluindo ouro em Abu Dhabi

Não subiu no pódio, mas levou a mãe as estrelas

“Eu não consegui fazer meu jogo como o mestre me preparou. Eu entrei bem na luta, consegui uma queda, mas deixei meu braço escapar”, lamenta Guilherme Vieira (17). Além dele, outros 18 atletas da Maré Top Team não ganharam medalha no torneio. Guilherme não desanima, afirma que a experiência de 9 dias foi incrível e ficará para sempre na memória dele e de sua mãe. Foi a primeira vez que ela conseguiu acompanhar o filho em uma luta fora do país, ele é um dos principais recordistas da academia, com 78 medalhas ao total, incluindo ouro no Pan Kids nos EUA em 2020. O mestre assume que entre os melhores do mundo, um único erro é fatal, mas isso não resume a história de nenhum atleta. Com tanta expectativa sobre sua vitória, Guilherme não trouxe o ouro para casa, mas sua mãe viu as estrelas de perto. “É um misto de emoção e gratidão, foi mágico”, conta a gerente de loja Jessica Vieira, de 32 anos.

Foto: Matheus Affonso | Guilherme Vieira e a mãe Jéssica Vieira

Vitória de muitas mãos

Levar 38 atletas, 6 treinadores e 13 mães e pais para Abu Dhabi foi possível graças a centenas de parcerias e incentivos. Uma verdadeira teia de solidariedade. Cada família fez seu corre. Quando perguntada sobre sua profissão, a dona de casa e empreendedora Juliana Oliveira, de 37 anos, respondeu rapidamente “jiu-jitsu” em tom de brincadeira, fazendo alusão ao esforço diário que ela faz para manter o filho na rotina regrada que um atleta precisa. Ela mobilizou contatos na Secretaria Estadual de Esporte e Lazer do RJ, que garantiu apoio para 9 atletas. Eles conseguiram emplacar 7 ouros ao total, incluindo o seu filho Pyetro Emanuel (14), que desfilou cheio de orgulho com a medalha durante a chegada calorosa na Maré. Juliana fala que ganhar em Abu Dhabi abre janelas para profissionalização dos atletas e lamenta não ter ajuda contínua do Governo, se referindo ao fato do jiu-jitsu não se tratar de um esporte olímpico. “É preciso visibilidade para atrair patrocinadores que estejam dispostos a investir no futuro do Pyetro no esporte”, afirma ela. 

Gabriel Mussum, teve sua história contada na televisão, através da Rede Globo, e trouxe o ouro para casa, uma importante resposta ao todo esforço de sua mãe Cíntia Ribeiro da Costa.

Julia Freires de 12 anos, conhecida como Ronaldinha, também foi ouro, sua mãe Adriana Freires da Rocha afirma que a maior dificuldade foi financeira, sinalizando sobre a garantia completa e necessária para que a filha pudesse competir com estrutura. Com 34 anos, ela conta que foi encontrando pessoas que acreditavam junto com ela e a filha para que o sonho virasse realidade. “Lutar fora do país era algo que nem imaginava ser possível, ainda mais levando a bandeira de um lugar que ao olhar da sociedade é tão discriminado, me sinto honrada em trazer o ouro, é gratificante”, conta Ronaldinha, uma das mais novas da equipe já considerada uma clack no tatame. 

Bolsa Atleta: um desafio histórico

Desde 2005 existe o Bolsa Atleta, que é um dos maiores programas de patrocínio individual de atletas no mundo, mas o jiu-jitsu não é contemplado como um dos esportes pelo programa do governo. São muitos os fatores que impedem que isso aconteça. Não ser um esporte olímpico e não ter uma federação mundial é um desses fatores – o que exigiria que o jiu-jitsu fosse praticado em 75 países e 4 continentes por homens, e no caso das mulheres, 40 países e 3 continentes. E quem avalia tudo isso é o Comitê Olímpico Internacional, que considera que o BJJ (Brazilian Jiu Jitsu, ou Jiu Jitsu Brasileiro) uma categoria derivada do judô moderno, e o comitê proíbe esportes ditos como derivados.

Mestres e atletas lutam por anos para a internacionalização. Outro importante fator são as regras: vale ou não kimono? vale ou não leg lock? As mudanças constantes em diversos campeonatos (inclusive em Abu Dhabi),  impedem uma conexão global do esporte. Enquanto isso, os atletas migram para a Luta Livre (esporte olímpico), buscando outras fontes de incentivo e ampliando os domínios das artes marciais. No mundo, o esporte brasileiro só cresce, talvez, em um futuro não tão distante, essa juventude possa viver do jiu-jitsu, um sonho coletivo.

Por outro lado, a Secretaria Estadual de Esporte e Lazer do RJ se colocou disponível para receber solicitações de apoio aos atletas. Dentro do possível, o secretário diz estar procurando ajudar da melhor maneira que pode. “As favelas do Rio de Janeiro são um celeiro de esportistas e o Jiu-Jitsu tem surgido como uma modalidade com um grande número de adeptos em todas as faixas etárias (…) E para nós é motivo de muito orgulho saber que atletas do nosso Estado estão representando o esporte fluminense da melhor maneira possível”, diz o secretário Alessandro Carracena, que parabenizou os atletas pelo grande desempenho na competição, afirmando que esse é um fato que ficará guardado na memória para sempre. 

Jiu-jitsu e favela: arte marcial brasileira

Com tantas trajetórias potentes, a gente se pergunta como o jiu-jitsu chegou nas favelas? Uma das grandes teorias que circulam afirma que o jiu-jitsu nasceu na Índia, depois migrou para China até se popularizar no Japão. No Brasil, chegou em 1914 através do Conde Koma, mestre de judô japonês. Não há muitas evidências sobre como o esporte se popularizou nas favelas do Brasil, mas a própria técnica pode nos dar pistas. O jiu-jitsu se baseia no combate e autodefesa em torno de um conceito simples: um lutador menor e mais fraco pode se defender contra oponentes mais fortes e mais pesados usando o princípio da alavanca e distribuição de peso. Isso te faz lembrar de algo? Ser favelado e negro! Se deparar constantemente com a violência da polícia, enfrentar o racismo cotidiano e estrutural, um jogo de poder injusto e desproporcional, desigualdade: falta de oportunidades. Essa é a realidade. Com um oponente tão forte e presente em nossas vidas, aprender a se defender é uma alternativa prudente, e o jiu-jitsu, assim como outras artes marciais, concede com maestria essa possibilidade. A arte do equilíbrio. Salve a capoeira, outra expressão da cultura do Brasil, uma mistura de arte marcial, cultura popular, música, esporte e dança, criada por descendentes de escravizados africanos, assim como a favela, se caracterizando por movimentos ágeis e golpes complexos, assim como o jiu-jitsu. 

O jiu-jítsu promove cidadania e liberdade através do estímulo ao equilíbrio em uma sociedade armada pelo ódio. A luta ultrapassa o tatame e os níveis de faixa dos atletas. Das faixas de menor prestígio (branca e cinza) até aquelas de maior credibilidade (preta e vermelha), neste esporte lutar não tem a ver com brigar. Autocontrole é a chave para chegar ao pódio, o lutador que finaliza seu adversário não o destrói, ao executar um golpe perfeito o oponente escapa batendo 3 vezes no tatame. Fim de luta! Vence também aquele que reconhece a perda. Venceu em Abu Dhabi a Maré, a juventude e a negritude em toda sua potência através de 38 trajetórias. Orgulho para o Brasil, orgulho para o mundo. Viva a Maré! Viva o jiu-jítsu!

Maré Top Team

A academia localizada na Maré e criada em 2015 tem como o objetivo difundir o jiu-jitsu e sua filosofia para crianças, adolescentes e jovens das 16 favelas do conjunto. Atualmente fica localizada no São Cristóvão Futebol e Regatas – Sede Náutica (Av. Brg. Trompowski, 21044 – Maré). Funcionando de segunda à sexta, com treinos a partir das 19h, às matrículas (gratuitas!) podem ser feitas pessoalmente antes ou depois dos treinos.

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