“A nova variante do vírus não é a grande culpada pela crise atual”

“A nova variante do vírus não é a grande culpada pela crise atual”

Professora do Departamento de Imunologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luciana Costa defende que o Brasil precisa acelerar a vacinação e retomar as medidas de isolamento social.

Por Luciana Bento*, em 27/03/2021 às 8h

Ela pesquisa o vírus Sars-Cov-2 desde o seu surgimento e esclarece, em entrevista exclusiva para a edição 30 do boletim Conexão Saúde – De Olho no Corona, como a nova variante está agindo (ou não) no agravamento da pandemia no Brasil. 

O que se sabe a respeito da nova variante até agora? Ela é mais perigosa do que a antiga? Os sinais e sintomas da doença são os mesmos?

Luciana Costa: É importante falar que esta variante é esperada. Todo vírus varia mesmo, o processo de fazer novas cópias é sujeito ao erro, que é aleatório e natural. Se não trouxer prejuízo ou trouxer alguma vantagem ao vírus, o erro vai propagar na população conforme aumenta a transmissão do vírus.

No caso do novo coronavírus, até por conta da gravidade da pandemia e por termos tecnologia pra isso, estamos conseguindo ver este processo muito rapidamente, quase em tempo real. Mas a questão principal na verdade é: “estas variantes que surgem têm impacto na pandemia? Elas estão relacionadas à maior transmissão do vírus, gravidade da doença ou taxa de mortalidade?”. Isso é ainda é cedo pra dizer.

“Pode ser que tenha influência, isso não está descartado. Mas pelas características apresentadas, o agravamento da pandemia se deve muito mais a um manejo inadequado da situação do que do surgimento de variantes”

Professora do Departamento de Imunologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luciana Costa

Mas assistimos recentemente a um aumento significativo do número de casos e mortes por Covid-19. Não teria relação com o surgimento desta nova cepa?

LC: Estamos em uma nova fase da pandemia, com um número muito grande de casos e, justamente neste momento, foi divulgado o surgimento da nova variante. Então, a relação que se faz é “o agravamento é por causa disso”. Mas não podemos fazer esta afirmação. Como eu disse, ainda é cedo para esta conclusão. 

Então qual seria o motivo desta situação limite que vivemos? 

LC:O agravamento da pandemia no Brasil se relaciona com o afrouxamento das medidas de prevenção. Principalmente a partir de outubro, quando o número de casos foi diminuindo, houve uma flexibilização grande, uma ilusão de que o vírus tinha ido embora.  Mas a verdade é que ele continuou circulando. Pelas características do agravamento, avaliando como alguém que acompanha de perto desde o início, a crise se deve muito mais a um manejo inadequado da pandemia do que ao surgimento das variantes. Elas podem influenciar? Podem. Não descarto esta hipótese, mas é evidente que a forma como a situação foi conduzida não ajudou a conter a propagação do vírus.  

A tendência é ainda convivermos com este quadro por um tempo? 

LC: Estamos vivendo as consequências de uma flexibilização do isolamento social e da falta de cuidados. A situação crítica agora é por conta da sobrecarga do sistema de saúde, que entrou em colapso. Tem muita gente morrendo por falta de atendimento adequado, por falta de acesso ao tratamento, aos recursos hospitalares. Estão morrendo na fila. Muitas destas pessoas poderiam sobreviver se tivessem tido o atendimento devido. Falamos deste risco há um ano atrás, mas parece que este alerta não foi levado a sério, foi desacreditado. 

Quem contraiu a doença pode contrair de novo, certo? Há alguma relação com a nova variante? 

LC: Existem indivíduos assintomáticos ou que desenvolvem sintomas leves que permanecem com o vírus por um longo tempo no organismo. E eventualmente, em um teste, pode parecer que ele sumiu, mas na verdade o vírus nunca saiu do organismo. É o que os pesquisadores chamam de “persistência”. Mas há a possibilidade de reinfecção também: quando a memória de cura do sistema imune tem uma queda, a pessoa pode contrair de novo se for exposta ao vírus. E não precisa ser a nova variante, pode ser a mesma de antes. Mas isso varia de indivíduo para indivíduo. De todo modo, anticorpos de pessoas que foram infectadas com o vírus anterior neutralizam os novos variantes, não tem diferença. É mais uma dinâmica do sistema imune de cada pessoa e não do vírus propriamente dito. 

Então os cuidados preventivos e o tratamento de quem contraiu a doença a partir da nova variante continuam os mesmos? 

LC: Exatamente da mesma forma. E tem algo muito importante: a pessoa teve Covid e se curou ou mesmo a que foi vacinada precisa continuar tendo os mesmos cuidados. Ela pode se reinfectar, ainda que a chance seja menor ou que a doença se apresente de forma mais leve ou assintomática, e transmitir para outras pessoas. É uma proteção para pessoa e pra quem está à sua volta. Sobre a nova variante, a princípio pra pessoa que contrai a doença, não tem nada de diferente. É uma infecção por Sars-Cov-2: ela vai ter que se isolar, tomar medicamentos recomendados pelos médicos, se necessário, ficar em repouso, aguardar o mesmo tempo para recuperação… O quadro clínico e os sintomas são os mesmos. Existem estudos que apontam que coletivamente podem haver mais mortes a partir da contaminação pela nova variante, mas ainda são estudos, nada conclusivo. A nível individual, não há diferença. 

Então a vacina funciona para esta nova variante também?

LC:A princípio sim. Até agora o que os estudos mostram é que a resposta do indivíduo ao vírus é eficiente para neutralizar qualquer variante.

Alguma perspectiva de sairmos desta crise?

LC: Vejo duas saídas: uma é acelerar e ampliar a vacinação.  A outra é retomar as medidas de isolamento social, pelo menos até sairmos desta situação crítica. Não é uma atitude pra ser tomada amanhã ou depois. É agora. É o que pode nos ajudar a sair dessa. 

*Luciana Bento é jornalista e coordenadora de comunicação do projeto Conexão Saúde – De Olho na Covid, uma iniciativa que reúne vários parceiros no combate à pandemia na Maré e em Manguinhos (www.redesdamare.org.br/conexaosaude)

Em tempos difíceis, de colapso no sistema de saúde e elevado número de mortos no País, a professora Luciana Costa nos enviou uma foto com seu filho Pedro para ilustrar a entrevista: “é uma foto que gosto muito e que faz mais sentido pra mim, neste momento”. Atitude que nos lembra de priorizar o que há de mais importante em nossas vidas. Sempre

Daniele Moura

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