A união delas faz a força

Frente da soberania alimentar: produção de quentinhas diárias no projeto Maré de Sabores – Foto: Douglas Lopes

A união delas faz a força

Conheça a atuação de alguns coletivos de mulheres presentes no território mareense

Maré de Notícias #122 – março de 2021

Por Thaís Cavalcante e Andressa Cabral Botelho

O mar de gente espalhado pelas 16 favelas da Maré mostra uma característica marcante no território: o número de mulheres é maior que o de homens. Elas são quase 71 mil, enquanto eles somam 68 mil, segundo levantamento do Censo Maré de 2019. Acompanhando essa maioria, os coletivos formados e liderados por mulheres se destacam não apenas pela luta histórica na conquista de direitos, como também pelo protagonismo na ocupação de espaços, iniciativas e produção de narrativas sobre o território. Mostram que, seja na temática racial, cultural, artesanal ou feminista, a busca pela união e empoderamento dessas mulheres é a mesma.

Quem cria narrativas como forma de fortalecer a população através da comunicação é a Amarévê, coletivo feminino produtor de conteúdo tocado por dez mulheres negras. Uma delas é a gestora criativa Karina Donaria, moradora do Parque União. Ela garante que esse trabalho vai além da produção: é uma narrativa afetiva com uma potência muito forte, porque conecta jovens mulheres a partir de seu lugar de vivência. “É o caminho pra gente se juntar e enfrentar questões que fazem parte da vida da mulher, como o machismo. Temos mania de dizer que somos uma grande família”, conta. O produtor de conteúdo e dançarino Raphael Vicente também pode ser visto nos conteúdos produzidos pelo coletivo. Ele é o único homem que participa eventualmente.

“Somos como o ato de criação permanente que nos acolhe, nos expande, uma constituição bem brasileira trabalhando com arte, teatro, política, memória, educação, saúde mental, cultura alimentar, ancestralidade, comunicação comunitária, direitos humanos”

Natasha Corbelino, idealizadora do projeto Coletivona

Tão importante quanto informar é debater. Para levantar temas relacionados a gênero, luta e raça, a Casa Preta da Maré Itinerante ocupa espaços como a Lona Cultural Herbert Vianna e o Centro de Artes da Maré, trazendo em suas produções grandes personalidades locais e de outros territórios periféricos. Já o projeto Mulheres Ceramistas da Maré, da Vila do João, estimula mulheres da terceira idade que vivem em vulnerabilidade social à aprendizagem artesanal da cerâmica negra, promovendo a partir do trabalho a prática do autocuidado e o empreendedorismo. Durante a pandemia, o coletivo criou um curso online para ensinar, gratuitamente, a fazer uma peça em argila.

Quem atua diretamente para a promoção de acolhimento e fortalecimento de práticas de autonomia, saúde e colaboração para mulheres pretas e faveladas é o Espaço Casulo. Entre serviços e cuidados, ele oferece a Roda de Gestantes da Maré, que apoia mulheres durante seu período de gestação. 

Outro coletivo necessário dentro da favela é a Coletivona, grupo de mulheres da cultura e de múltiplas formações que realiza encontros, oficinas online e outras ações para o empoderamento e fortalecimento feminino, com reuniões no Museu da Maré. A artista Natasha Corbelino, idealizadora do projeto, chegou até a Maré a partir de Gizele Martins, jornalista e moradora do território que também integra o grupo. 

Natasha admite que o coletivo surgiu do seu desejo por um movimento que fizesse as mulheres se conectarem mais. “O recorte de gênero aconteceu para potencializar o modo como nós, mulheres, estamos no mundo. Recortar para agirmos sem corte, inteiras em nossas potências, em nossos movimentos para que encontros e conversas aconteçam com multiplicidade e direitos respeitados”. Ela completa, ainda, que o grupo tem a cultura como motor: “Somos como o ato de criação permanente que nos acolhe, nos expande, uma constituição bem brasileira trabalhando com arte, teatro, política, memória, educação, saúde mental, cultura alimentar, ancestralidade, comunicação comunitária, direitos humanos”.

Maria Evangelista e Glória da Conceição são apresentadoras da Oficina de Cerâmica Negra online.

Protagonismo e geração de renda

Com o passar dos anos, é possível notar o processo de crescimento das mulheres enquanto geradoras de renda, e o território reflete essa realidade: dos 3.182 empreendimentos do bairro, 42,8% são geridos por elas, de acordo com o Censo de Empreendimentos da Maré, desenvolvido em 2014 pela Redes da Maré. Enxergando toda essa potência a partir do trabalho das moradoras, a Casa das Mulheres da Maré desenvolve uma série de ações voltadas tanto  para a geração de renda, como também para o bem-estar das envolvidas. A iniciativa existe desde 2016 dentro de uma casa no Parque União, gerida, frequentada e pensada para as mulheres mareenses melhorarem sua qualidade de vida, através do atendimento psicológico e sociojurídico, apoio ao enfrentamento de violências e oportunidade para a qualificação profissional. “Incentivar o empreendedorismo e a independência dessas mulheres nos faz mostrar a garra e o potencial que elas têm. É importante que elas saibam que são independentes e capazes de conquistar tudo aquilo que almejam”, observa Myllene Santos, assistente de coordenação da Casa das Mulheres da Maré.

Duas são as motivações para que pessoas comecem a empreender: oportunidade (59,4%) e necessidade (39,9%), segundo a Global Entrepreneurship Monitor/GEM Brasil 2017. Em meio à pandemia, os trabalhadores viram a sua renda diminuir e perceberam a necessidade de empreender. A Casa das Mulheres também precisou se adaptar para apoiar a Maré e oferecer geração de renda tanto às mulheres que fazem parte do programa como para outras que moram nas 16 favelas do conjunto. Com a segurança alimentar do território em risco, surgiu uma nova forma de atuação, em especial para o bufê Maré de Sabores, que atuou em uma das frentes da campanha Maré Diz NÃO ao Coronavírus

As mulheres que já faziam parte do projeto foram convidadas a produzir quentinhas para pessoas em situação de rua da cena de crack da região. Em média, foram entregues 350 refeições por dia durante nove meses. Assim, o projeto deu suporte à população local e também permitiu que essas mulheres não perdessem a sua renda nesse período.

O bufê reabriu em dezembro para o público, mas de forma ainda adaptada, por conta da pandemia. São oferecidos dois cardápios, um fixo e um sazonal, entregues em domicílio, e que podem ser acessados pelo Instagram @maredesabores.

mareonline

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