Agências bancárias ainda distantes da Maré

Apesar de a periferia movimentar quase R$ 120 bilhões por ano, nas favelas não há agências bancárias; a solução é usar as lotéricas, como na Maré – Foto: Matheus Affonso

Agências bancárias ainda distantes da Maré

Loterias são a solução para transações financeiras na favela

Por Hélio Euclides

Em Bonsucesso existem duas agências bancárias do Bradesco, três do Santander, duas da Caixa Econômica Federal (CEF) e cinco do Itaú, sem contar a localizada na Avenida Brasil. Contudo, na Maré os únicos bancos que existem são os das praças. Para ajudar os moradores, há alguns caixas eletrônicos do Banco 24 Horas;  em setembro, foi inaugurada a segunda agência lotérica.

Segundo dados da pesquisa Economia das Favelas — Renda e Consumo nas Favelas Brasileiras, realizada pelos institutos Data Favela e Locomotiva para a Comunidade Door, moradores de favelas movimentam R$ 119,8 bilhões por ano, mais que 20 estados do país. Mesmo com tal volume de dinheiro, as agências bancárias não estão presentes nas favelas; se estão, encerram as atividades. Foi o que ocorreu em 2017 na Rocinha, quando as agências da CEF e do Itaú fecharam as portas. No Complexo do Alemão, os moradores ficaram sem o ponto de atendimento do Bradesco, onde funcionavam os caixas eletrônicos.

Na Maré, apenas o Banco 24 Horas disponibiliza máquinas em seis pontos do comércio local. São dois na Praia de Ramos, um na Vila dos Pinheiros, um no Morro do Timbau e dois na Avenida Brasil, na proximidade da Nova Holanda. Até o mês de setembro, apenas a Loteria Alvorada, localizada na Rua Teixeira Ribeiro, aceitava o pagamento de contas, o que causava longas filas. A Sorte da Vila é a segunda lotérica da Maré, localizada na Vila do João. “Ter uma agência lotérica perto de casa é show de bola. É algo que já deveria ter acontecido há muito tempo. A loteria vem suprir a falta de um banco, disponibilizando alguns serviços bancários”, diz Edicarlos Cesar, morador da Vila do João.

O local da loteria fica onde se encontrava um posto policial desativado. Valtemir Messias, conhecido como Índio, presidente da Associação de Moradores da Vila do João, explica que foi realizado um comodato com o governo do Estado. “A pessoa não precisa ir até Bonsucesso para resolver questões financeiras. Estamos lutando desde 2017 para conseguir essa facilidade, em especial para o idoso, que não vai precisar se locomover para fora da sua comunidade. Em breve, teremos também a entrada do Banco 24 horas na Vila do João. São melhorias que revertem em empregos e opções de serviços”, diz. 

Como moradores muitas vezes não têm para onde correr, é comum que filas enormes se formem nas casas lotéricas do conjunto de favelas – Foto: Matheus Affonso

Idosos x tecnologia

O problema é que poucos idosos se aventuram a usar os caixas eletrônicos. Claudete da Silva Barbosa, moradora da Nova Holanda, diz que sua mãe, de 73 anos, é um deles, resistente ao equipamento. “É uma dificuldade para o idoso lidar com a tecnologia como a dos caixas eletrônicos. Minha mãe não tem leitura, o que é uma barreira. O que facilitaria é se ela tivesse conhecimento de números. Eu e minha irmã é que resolvemos essas questões financeiras, como pensão e pagamento de contas. Hoje é muito bom a facilidade dos aplicativos de banco”, diz. 

O relato dela retrata o analfabetismo digital — quando uma pessoa não sabe como funcionam smartphones, computadores e internet. “Minha mãe tinha um celular, mas de três anos para cá percebemos o distanciamento do aparelho. Agora ela só usa o telefone fixo. A tecnologia ajuda muito, mas alguns idosos não sabem lidar. No caixa eletrônico eles pedem ajuda, mas tem pessoas mal-intencionadas, o que traz preocupação”, conta Claudete. Ela pede que os bancos olhem com mais atenção para os idosos: “Na maior parte das vezes eles têm dificuldades em lidar com os computadores. É preciso mais profissionais para esse segmento de clientes. Que eles atendam bem e com paciência. Todos nós vamos ser idosos um dia.”

O artigo O Indivíduo Idoso e o Caixa Eletrônico, dos pesquisadores Milena Viana, Lívia Flávia e André Leonardo, da Universidade Federal do Maranhão, mostrou que os processos bancários incorporaram novas tecnologias, como os caixas eletrônicos, que se traduziram em mais agilidade e rapidez nos processos, mas deixando de fora os usuários idosos. O estudo mostra que 75% dos clientes gostariam que fossem criados caixas eletrônicos especiais para a clientela mais velha, já que a maioria se sente nervosa ao acessar o autoatendimento, pedindo a ajuda de funcionários da agência. 

Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4132/20, que obriga as agências bancárias de todo o Brasil a disponibilizar caixas eletrônicos com sistema de identificação de clientes que não seja somente a biometria. O objetivo é facilitar a vida principalmente de correntistas idosos, já que a perda das impressões digitais é uma das consequências do envelhecimento.

No conjunto de favelas da Maré, apenas o Banco 24 Horas disponibiliza máquinas em seis pontos do comércio local – Foto: Matheus Affonso

Bancos avaliam sucesso nas transações virtuais

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que a decisão de abrir ou fechar um posto de atendimento é tomada por cada banco, com base na respectiva estratégia de negócio. De acordo com a última edição da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, o número de agências em operação no Brasil tem se mantido estável ao longo dos últimos anos. Na comparação entre 2019 e 2020, último dado disponível do levantamento, o número de postos de atendimento variou de 38,2 mil para 38,1 mil.

A Febraban alegou que os bancos estão adequando suas estruturas à nova realidade do mercado, na qual a utilização dos canais digitais de atendimento vem ganhando espaço em detrimento dos canais físicos e presenciais. Em 2020, das 103,5 bilhões de transações dentro do setor bancário, 67% foram realizadas por meio do celular ou da internet, demonstrando o elevado grau de digitalização dos usuários (as agências bancárias foram responsáveis por apenas 3% das transações em 2020)..

Segundo a entidade, praticamente todas as operações bancárias hoje (como pagamento de contas e transferência de valores) podem ser feitas de forma eletrônica.

 O subcoordenador do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, Thiago Basilio, disse que são dois os maiores problemas em relação aos bancos: fraudes bancárias e tratamento ao indivíduo. No primeiro caso são vítimas que, na maioria das vezes, foram enganadas por pessoas que se dizem funcionários dos bancos em frente a caixas eletrônicos:  “A pandemia dificultou a entrada das pessoas nas agências, mas o idoso se necessário precisa ter esse acesso. Se desejar utilizar o caixa eletrônico precisa ter a certeza que a pessoa que se disponibiliza a ajudá-lo é mesmo funcionário do banco.”.

Sobre a segunda ocorrência, ele explica que o idoso não deve aceitar empréstimos por meio de caixas eletrônicos, aplicativos e telefone. “A Lei 14.181/21 protege o consumidor, com a indicação de que todo empréstimo necessita de pelo menos dois dias de reflexão. O ideal é que o consumidor tenha a chance de avaliar as propostas de outras instituições financeiras. Quando o idoso faz o empréstimo na boca do caixa, não tem a chance de tirar dúvidas e, principalmente, saber a taxa de juros. Os bancos oferecem facilidades mas, ao mesmo tempo, reduziram os cuidados. Todos precisam ter atenção também com propagandas enganosas, como o oferecimento de empréstimos a negativados”, orienta. Basílio aconselha os que se sintam vítimas a procurarem o Serviço de Proteção ao Consumidor/Procon (http://www.procon.rj.gov.br/) ou a Defensoria Pública (https://defensoria.rj.def.br).

São dois caixas 24 horas na Praia de Ramos, um na Vila dos Pinheiros, um no Morro do Timbau e dois na Avenida Brasil – Foto: Matheus Affonso

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Hélio Euclides

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