Festival de Outono de Paris homenageia a Maré

Um dos destaques da exposição Viva Maré foi o diálogo com o público francês por meio de oficinas de arte com materiais diversos – Foto: Sammi Landweer

Festival de Outono de Paris homenageia a Maré

Exposição e espetáculo de dança mostram ao mundo 20 anos de parceria entre a Redes da Maré e a coreógrafa Lia Rodrigues

Parceiras há quase duas décadas, a Redes da Maré e a coreógrafa Lia Rodrigues celebraram a colaboração mútua levando um pouco das 16 favelas da Maré para Paris. A companhia de dança, que funciona no Centro de Artes da Maré, estreou seu novo espetáculo Encantado em dois dos principais palcos de dança da capital francesa (o Théâtre National de Chaillot e o centro cultural Centquatre-Paris) com a aclamação de público e crítica.  

Ao mesmo tempo, a exposição Viva Maré – Lia Rodrigues e Redes da Maré apresentou as 16 favelas que compõem os territórios e as ações da Redes da Maré, também no Centquatre-Paris, por meio de uma experiência multissensorial. A mostra também dá destaque aos projetos emblemáticos dos cinco eixos de trabalhos da entidade, incluindo a campanha A Maré diz NÃO ao Coronavírus. “Foi uma experiência singular para o público francês poder entender como a Redes reagiu imediatamente à crise sanitária com ações, ao mesmo tempo em que acontecia a criação de Encantado. Contextualizar isso tudo foi muito importante, porque abriu novos entendimentos sobre o trabalho da Redes e também sobre a obra da Lia Rodrigues”, diz Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da entidade.

A programação foi o ponto alto e final da homenagem prestada pelo tradicional Festival Outono de Paris ao trabalho da coreógrafa brasileira, que, por sua vez, decidiu que a festa deveria incluir amigos e parceiros, com destaque especial para a Redes da Maré. “A Maré é parte importante do meu trabalho, tendo me transformado como pessoa, como artista e como cidadã. Ali encontrei pessoas e projetos que me fazem ter vontade de existir. Tudo que a Redes da Maré faz tem excelência e mostra a potência da favela. Por isso, a importância de divulgar seus projetos e ações para muito além do Rio de Janeiro”, diz Lia Rodrigues. 

Outra parte importante da exposição Viva Maré foi o diálogo com o público francês por meio de oficinas de arte — azulejos, som e móbiles — especialmente ministradas por artistas mareenses. Tendo como tema-disparador a pergunta O que me faz ter vontade de existir?, as oficinas de arte propuseram um encontro artístico e territorial entre os moradores da Maré e o público do Centquatre. 

Numa outra sala, com curadoria de Geisa Lino, foi possível vivenciar um baile da Nova Holanda (foi oferecida uma aula de hip-hop em vídeo com o professor Renato Cruz, da Escola Livre de Dança na Maré) através de uma playlist repleta do melhor funk, especialmente criada pelo DJ Renan Valle, e das imagens captadas pelo fotógrafo Douglas Lopes. Antes de entrar na sala, o visitante, através de texto de apresentação escrito por Pâmela Carvalho, era introduzido na magia dos bailes do território. A exposição Viva Maré teve curadoria da jornalista e pesquisadora Adriana Pavlova e da arquiteta e artista Laura Taves, que também assina projeto de exposição junto com o artista plástico João Rivera. Já o projeto sonoro teve concepção de Rodrigo Maré e Rafael Rocha. 

Encantado é a sétima obra concebida pela companhia de Lia Rodrigues na favela da Maré. O sonho agora é que tanto o espetáculo como a mostra Viva Maré cheguem ao Centro de Artes da Maré este ano.

MN: Que ideia de encantamento disparou a nova obra? 

Lia Rodrigues: Sempre começo uma criação com livros; as leituras me movem. Um deles foi o Torto arado, de Itamar Vieira Júnior, que fala de um “encantado”, e depois, outros livros, como Une ecologie décoloniale [Uma ecologia descolonial] de Malcom Ferdinand, e Vivre avec le trouble [Convivendo com a desordem], de Donna Haraway.  Pensamos em criar seres humanos e não humanos e colocá-los em relação. Colecionamos imagens e fomos trabalhando com elas. Uma é a de um morador de rua embrulhado num cobertor; dela surgiu a ideia de trabalharmos com cobertores e de como eles poderiam ajudar a criar esse território. Começamos com apenas um cobertor e hoje, são 140 em cena.

MN: Dos 11 bailarinos na formação atual da companhia, cinco são moradores da Maré. O que a presença deles trouxe para a dança?

Lia Rodrigues: Cada artista com quem trabalho impacta minha maneira de ver o mundo e de coreografar. Cada um traz um universo de ideias, pensamentos, modos de se mover, de ver o mundo, de estar na vida. É muito enriquecedor e, ao mesmo tempo, complexo estarmos juntos e encontrarmos um caminho comum.

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mareonline

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