Alternativas para brincar na pandemia

Luiz Felipe criando um papagaio de papel (Foto: Pâmela Carvalho)

Alternativas para brincar na pandemia

Na Nova Maré, crianças revelam criatividade para brincar e manter ciclos sociais

Por Pâmela Carvalho em 05/10/2020 às 10h30

Edição: Elena Wesley 
Fotos: Pâmela Carvalho e Douglas Lopes

Essa reportagem foi produzida com o apoio da Énois Laboratório de Jornalismo, por meio do projeto Jornalismo e Território.  

“A gente sente falta do banho de piscina!”. O desabafo de Luiz Felipe da Silva, de sete anos, exemplifica um dos efeitos da pandemia na Maré. A necessidade do isolamento social impediu que milhares de crianças e adolescentes usufruam plenamente de seu principal espaço de convívio: a rua. Sem poder brincar em grupo nem frequentar espaços de lazer e cultura como a Lona da Maré e a Vila Olímpica, os pequenos reinventam há mais de seis meses formas de garantir sua diversão em tempos tão difíceis.

Banho de piscina agitava Lona da Maré antes da pandemia. (Foto: Douglas Lopes)

A Vila Olímpica da Maré e a Lona Cultural Municipal Herbert Vianna são os únicos equipamentos públicos de lazer na favela. Na Lona, os banhos de piscina e mangueira refrescavam os dias quentes, e na Vila Olímpica, a piscina era utilizada para atividades como hidroginástica, natação e banho livre, aos finais de semana. Com a pandemia, tudo parou. 

A falta de incentivo público em espaços para lazer, esporte e cultura é um problema histórico e fez com que a população criasse suas próprias alternativas. As piscinas de plástico instaladas nas ruas são uma delas. A prática que reúne vizinhos de todas as idades já foi alvo de fake news pela imprensa tradicional, numa publicação que associava a aquisição das piscinas ao comércio ilegal de drogas. 

Enquanto os banhos de piscina são possíveis apenas de forma privada nas lajes, quintais ou ruas, crianças como Luiz Felipe criam outras opções de lazer. Junto à linha e ao papel, máscara e álcool em gel se tornaram indispensáveis para brincadeiras como “garrafão”, “pique-esconde” e soltar pipa. Jogos que não exigem muito contato também ganharam preferência. Adolescentes como Eduardo Melo dos Santos improvisam mesas de ping pong, com tábua e cabo de vassouras, para evitar o contato físico e seguir as medidas de proteção.

Eduardo e Pablo Caique jogando ping-pong. (Foto: Pâmela Carvalho)

“Eu queria voltar pra escola”

Não foi apenas o fechamento dos espaços culturais que prejudicou o lazer das crianças da Nova Maré. Eloá Cristina da Silva conta que uma de suas brincadeiras favoritas é criar formas e objetos com massa de modelar, porém a estudante de sete anos tem acesso ao material somente na escola. “Eu queria voltar pra escola pra ver meus amigos e poder brincar, mas ainda tem o Corona, né…”. Assim como todas as unidades da rede pública de educação do Rio, as 44 escolas da Maré estão fechadas desde o dia 16 de março.  

A Nova Maré, também conhecida como “Casinhas da Baixa”, é formada por um conjunto de cerca de 4,5 mil casas, arquitetado pelo Programa Morar Sem Risco, da Secretaria Municipal de Habitação. De acordo com o Censo Maré de 2013, crianças e jovens formam a maioria da população de aproximadamente 13 mil habitantes. A faixa etária de zero a 14 anos é responsável por 32,8% do total, e os moradores de 15 a 29 anos por 29,2%. O perfil aponta o quanto a Nova Maré deveria receber incentivos do poder público voltados à garantia de espaços e condições ideais para que crianças e jovens desenvolvam sua sociabilidade, redes de convívio e brincadeiras. O “brincar” é um direito de toda criança e jovem. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê o direito a “brincar, praticar esportes e divertir-se”. Mas, na Nova Maré, o que é assegurado por lei não é percebido pela população na prática.

Ilustração de Jamilly Vitória da Silva

“Agora a gente brinca em casa mesmo”

Em meio à suspensão de atividades dos escassos espaços de lazer disponíveis, restou à Jamilly Vitória, de oito anos, brincar mais em casa. Desenho, recursos audiovisuais como TV e vídeos no celular têm ajudado a divertir a quarentena. Mas conter os pequenos em casa não tem sido tarefa fácil. Enquanto Carlos Henrique da Silva, de quatro anos, experimenta um formato de corrida baseado em “pular do sofá para o chão”, sua mãe Hamana Gerônimo e sua tia Rhayane Silva se desdobram com a organização e manutenção da casa.

Frequentadora assídua da Lona da Maré, Luciana Chaves também adaptou suas principais atividades de lazer para o ambiente doméstico. A jovem de 21 anos tem revisitado brincadeiras com baralho e jogos que estimulam o raciocínio lógico. “O baralho é bom porque ajuda a pensar e a passar o tempo.”

Ilustração de Luciana Chaves, sobre suas principais atividades de lazer durante a pandemia.

“Meu squad no Free Fire é meu squad no futebol” 

Num período de poucos recursos, a criatividade fala ainda mais alto. Foi assim que Eduardo Melo dos Santos criou uma estratégia para estar perto dos amigos, ainda que à distância. Dudu, como é conhecido, recruta o mesmo grupo de amigos que costumava jogar futebol na rua onde moram ou na Vila Olímpica da Maré para jogar Free Fire, um jogo de ação e aventura muito consumido por essa faixa etária.

Moisés Miguel Silva e Kauã da Silva Santos, 16 anos, também recorrem ao celular. Ambos têm participado de partidas virtuais e consumido vídeos e tutoriais para se aperfeiçoarem nos jogos. Porém, a internet na Nova Maré não ajuda. Sinal fraco, pouca área de cobertura e pacotes de dados restritos diminuem as possibilidades de lazer virtual. Para driblar as dificuldades de conexão, os jovens dividem a internet, pedem a senha do Wi-fi de vizinhos, comércios locais e espaços de uso coletivo. 

Moisés e Kauã jogando Free Fire (Foto: Pâmela Carvalho)

Em seus estudos sobre brincadeiras afrobrasileiras tradicionais, o pesquisador e filósofo Renato Nogueira afirma que em aldeias indígenas, quilombos e outros povoados tradicionais no Brasil e no mundo, a brincadeira é vista como formadora do ser social. A identidade é construída pelo espaço coletivo, que alimenta o brincar e vice-versa. E é isso o que se percebe na favela, onde o provérbio hauçá, “para educar uma criança, todo o povo é preciso” é praticado no cotidiano. Na Nova Maré, as crianças e suas famílias têm se empenhado no processo de educar coletivamente através das brincadeiras, sobretudo em tempos adversos. Falta ao poder público se inspirar nesta inventividade e também buscar a garantia desse direito. 

Lona da Maré, um dos espaços de encontro e brincadeira para as crianças na Nova Maré, antes da pandemia. (Foto: Douglas Lopes)

mareonline

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