Como a água do Rio Guandu acaba nas torneiras da Maré?

Como a água do Rio Guandu acaba nas torneiras da Maré?

É difícil entender como um rio que nasce no estado de São Paulo abastece mais de 9 milhões de pessoas no RJ? Não esquenta, a gente desenha pra você o caminho da água até sua casa.

Reportagem: Ruth Osório e Breno Souza
Arte:
Giulia Santos
Edição:
Fred Di Giacomo

Para o rio Guandu fornecer a água que abastece as casas do Complexo da Maré, o caminho é longo e interestadual. Nascendo nas serra paulistana, o rio Paraíba do Sul, junto com os rios Piraí e Vigário, foram transpostos para a Bacia do Ribeirão das Lajes pela Light como forma de aumentar a produção de energia para o Rio de Janeiro, em 1952. Essa obra aumentou em mais de 20 vezes a vazão do rio Guandu, que hoje é o principal manancial de abastecimento do estado do Rio de Janeiro. Nos seus 63 km de extensão, o rio Guandu corta 8 municípios: Piraí, Paracambi, Itaguaí, Seropédica, Japeri, Queimados, Nova Iguaçu e Rio de Janeiro, desembocando na baía de Sepetiba.

Água para 9 milhões
Esse sistema de abastecimento de água, chamado Sistema Guandu e inicialmente projetado para suprir a demanda de água do Rio até 1970, foi sendo ampliado com desafio de servir água potável para 9 milhões de pessoas. Hoje, segundo a Cedae, o rio Guandu abastece cerca de 85% da população da capital e de 70% da Baixada Fluminense.

Cocô na água? 
A ocupação das indústrias e casas na bacia do Guandu, associada a ausência de esgotamento sanitário, tornam suas águas bem diferentes, hoje: o manancial mais importante da Região Metropolitana do Rio de Janeiro se encontra poluído por esgotos domésticos e industriais, comprometendo a saúde de 9 milhões de pessoas. O incidente da geosmina, no início de 2020, representam bem esse contexto: milhares de pessoas, tendo sua saúde e renda comprometidas, compraram água mineral por meses, porque as águas do Guandu estavam contaminadas por esgoto sanitário.

Segunda cidade que mais consome água no BR
A Organização das Nações Unidas (ONU) define que a Segurança Hídrica está associada a disponibilidade e qualidade suficientes de água para o atendimento das necessidades humanas, como prioridade, econômicas e conservação dos ecossistemas aquáticos.

O contexto do Rio de Janeiro é de grande insegurança hídrica: não temos mais onde buscar água e não cuidamos bem dos nossos mananciais.  Essa realidade contrasta com os dados do SNIS 2018: o consumo médio per capita de água no Rio de Janeiro é de 328,22 l.hab/dia, mais da metade de média nacional ( 154,88 l.hab./dia), tornando o Rio a cidade de maior consumo de água do país.

Maior estação de tratamento
Após a captação de água do Rio Guandu, essa água é bombeada para a Estação de Tratamento do Guandu, em Nova Iguaçu. A ETA Guandu é a maior ETA do mundo, capaz de tratar 43m³ por segundo continuamente (CEDAE).

O processo de tratamento na ETA Guandu é o chamado convencional, que conta com os seguintes processos físico-químicos: coagulação química, floculação, decantação, filtração, desinfecção e correção de pH e fluoretação.

Quanto custa sua água?

O tratamento de água não é um processo simples e nem barato. Inclusive, de acordo com a Lei das Águas (9433/97), a água é um bem de todos. Isto é, não podemos pagar pela água em si, apenas pelo tratamento dela. Quanto mais poluído um corpo hídrico, mais produtos químicos são necessários para torná-lo potável, dentro dos padrões exigidos pelo Ministério da Saúde.

Mais poluição, mais custos

O Relatório Anual da CEDAE de 2019 mostra que, diariamente, são gastos 100 toneladas de sulfato de alumínio e cloreto férrico, 200 quilos de polieletrólito, 20 toneladas de cal virgem,15 toneladas de cloro gasoso e 7 toneladas de ácido fluorsilícico. Além disso, a ETA consome energia capaz de abastecer uma cidade de 600.000 habitantes para produzir essa água tratada.

Rede de Distribuição de Água
Após tratada, a água deixa a ETA através de dois subsistemas: o subsistema Marapicu e subsistema Lameirão.

O subsistema Lameirão é o responsável por atender toda a área do Complexo da Maré, que faz parte da região Leopoldina, assim como a Zona Oeste, uma parte da Zona Norte e Sul, Centro, Nilópolis e uma parte da Baixada Fluminense. Nessa subsistema, a água deixa a ETA através de um túnel subterrâneo até a elevatória do Lameirão, no bairro de Santíssimo, que segue até chegar no Reservatório dos Macacos, no Jardim Botânico.

Rede de Abastecimento de água na Maré
Em setembro de 1985 foi criado na CEDAE o Grupo Especial da Maré com fins de gerenciamento das obras de saneamento demandas pela Maré. No projeto estavam inclusos a execução de sistemas de drenagem pluvial, abastecimento de água, coleta de esgotos sanitários e urbanização geral da área. 

Apesar da construção do Núcleo Cedae na Maré, o diálogo dos moradores com a CEDAE não é fácil. Não temos acesso aos mapas da rede de abastecimento de água, informações sobre o funcionamento das elevatórias, total de água distribuída para Maré e nem sobre as necessidades de manutenção da rede. 

Maré seca
Apesar das obras de ampliação da ETA Guandu, muitas regiões que são abastecidas pelo Sistema Guandu/Lajes/Acari (os principais do estado) não tem acesso ao serviço pleno ou sequer possuem água canalizada em casa. 

Dados do Censo Maré (2019) mostram que cerca de 151 domicílios não têm acesso a rede de abastecimento. Além da gravidade do fato de que 453 moradores da Maré não têm acesso à água, esses dados não revelam, por exemplo, se os moradores da Maré têm água todos os dias saindo de suas torneiras. Ou seja, mais do que água canalizada em casa é preciso ter água todos os dias e com qualidade.

Lançamento do Esgoto
Depois que essa água é usada (e descartada) nas nossas casas, ela deveria ter um destino certo: ir direto para uma Estação de Tratamento de Efluente (ETE) na forma de esgoto doméstico. Na realidade, 0% do esgoto da Maré é tratado e os problemas com a rede de esgotamento sanitário – a estrutura que recolhe o esgoto das casas- são inúmeros, fazendo com que os moradores convivam diariamente com transbordamento de esgoto nas ruas e nos valões. 

Alegria de pobre
A ETE Alegria, construída ao lado da Maré, não atende nenhum morador do Complexo porque a rede de esgotamento sanitário da Maré não tem ligação com a ETE. Inclusive, quando a ETE foi construída, fazendo parte do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, as obras também incluíam a ligação com a Maré, o que não aconteceu. Dessa forma, o esgoto sai das casas da Maré, vai para os valões que seguem diretamente para a Baía de Guanabara.

400 toneladas de tranqueira por dia
O Diagnóstico do estado da Baía de Guanabara (2016) revela que 400 tonelada de matéria orgânicas são lançadas diariamente na Baía. Desse total, cerca de 20% têm origem de efluentes industriais ou das próprias estações de tratamento de esgoto. No final das contas, quem continua sofrendo com a política de precarização do saneamento básico são aqueles que já estão vulnerabilizados, já que a poluição das águas impede atividades econômicas dos moradores e também recreação, além de diminuir a qualidade das águas ainda potáveis, dificultando ainda mais o acesso. 

Esta é a terceira reportagem de uma série sobre o direito à água na Maré. Uma parceria entre o data_labe e o Maré de Notícias.

mareonline

Artigos relacionados

1 Comment

  • Essa reportagem devia estar nas mídias sociais para que sejam tomadas as providencias necessárias para que as autoridades assumam suas responsabilidades.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *