Acidentes domésticos aumentam durante isolamento

Desde o início da quarentena, o número de acidentes domésticos aumentou. Mudança na rotina pode ajudar a evitá-los.

Maré de Notícias #112 – maio de 2020

Flávia Veloso

A casa tem ficado cheia por mais tempo, desde o início da quarentena, e é preciso ficar atento para evitar acidentes com crianças, idosos e, até mesmo, com os adultos. As crianças em tempo integral, em casa, e a rotina de afazeres domésticos com toda a família confinada chamaram a atenção de autoridades governamentais e em saúde para que as pessoas tomem cuidado no dia a dia.

Quedas, sufocamento e queimaduras são comuns e, ainda assim, são motivos de preocupação. As lesões provocadas podem ter consequências sérias, como fraturas, hemorragias, grandes áreas do corpo queimadas – o que pode levar ao óbito. Embora os mais jovens tenham melhor função motora e os acidentes domésticos não tenham consequências graves, precisam também tomar precauções. Dos atendimentos hospitalares realizados, 38% são feitos em pessoas que sofreram acidentes domésticos.

A recomendação atual da Rede Pública de Saúde é que a população só procure postos médicos, clínicas da família e hospitais em casos graves, para evitar o contágio do coronavírus. Quase 100% dos leitos no Rio de Janeiro já estão ocupados e muitas unidades de saúde só estão atendendo a casos suspeitos de COVID-19.

Cuidado onde pisa

Dos acidentes domésticos em idosos, os mais recorrentes são as quedas. Cerca de 30% dos indivíduos acima de 65 anos sofrem quedas; o número aumenta para 40% aos 80 anos e uma em cada 20 necessita de internação. As causas são, principalmente, fraqueza muscular, falta de equilíbrio e danos psicológicos, que são decorrentes do avanço da idade, doenças ou efeitos colaterais de medicamentos.

Além dos estudos que provam a eficácia da prática de exercícios físicos para prevenir quedas, o cuidado com a casa também é essencial para diminuir esse tipo de acidente. Deve-se evitar colocar tapetes e outros objetos no chão; deixar o ambiente iluminado; colocar corrimão em escadas e banheiros; certificar-se que os calçados sejam antiderrapantes e evitar subir em bancos, cadeiras, escadas e outros lugares que exigem maior equilíbrio.

Atenção às crianças

 “No dia 20 de abril, nosso pequeno artista caiu e mordeu a língua. Até aí, tudo bem, toda criança cai, né? Mas percebi que ele estava todo ensanguentado e com a mão na boca. Inicialmente, achei que era um dente quebrado, gengiva ou lábio que abriu, mas para a minha surpresa ele tinha rasgado a língua. Resolvi levar no hospital. Quando cheguei lá, fui informada que seria necessário dar ponto, pois a abertura tinha sido mais séria do que se imaginava…”, contou Fernanda dos Santos, moradora do Complexo do Alemão, sobre seu filho mais novo.

A maioria dos atendimentos em hospital, por acidentes domésticos, é feito em crianças e as consequências são a maior causa de óbito de indivíduos de 1 a 14 anos de idade. Segundo o Ministério da Saúde, os acidentes domésticos com crianças correspondem a cerca de 110 mil casos de hospitalização, por ano. A preocupação é crescente durante períodos de maior estadia em casa, como férias e, atualmente, o isolamento social, pois os acidentes domésticos com os pequenos aumentaram 25% nesse período.

Os médicos afirmam que o confinamento acaba aguçando a criatividade. As crianças podem ficar mais agitadas e brincar em lugares da casa antes inexplorados. A boa notícia é que 90% dos acidentes são evitáveis e a melhor maneira é ficar de olho na garotada.

No início do mês de abril, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) lançou a cartilha  “Prevenção aos acidentes domésticos e guia rápido de primeiros socorros”, que pode ser encontrada na internet, sobre como se pode evitar acidentes domésticos com crianças, as técnicas de primeiros socorros, dicas para saber quando é necessário levar o pequeno ao hospital e quem a família deve acionar para o socorro.

Acesse a cartilha “Prevenção aos acidentes domésticos e guia rápido de primeiros socorros” no site https://www.gov.br/mdh

Alternativas para distração

Mas como lidar com criança dentro de casa o dia inteiro? Após um mês e meio de um dos isolamentos mais rígidos do mundo, a Espanha resolveu permitir que crianças e adolescentes até 14 anos de idade saiam acompanhados de seus responsáveis, para brincar isolados por até uma hora e por não mais de um quilômetro longe de casa.

Enquanto as crianças brasileiras ainda não podem sair de casa (ainda que a realidade em muitos bairros e favelas seja de crianças nas ruas e brincando), as famílias precisam encontrar alternativas para tornar o dia a dia mais agradável e conscientizá-las sobre a importância de ficar em casa.

Fernanda tem dois filhos – o mais novo, de 1 ano e 10 meses, e o mais velho, de 6 anos. Ela conta que a rotina mudou por causa do isolamento e não tem sido fácil: “Tem sido complicado ter de adaptar a rotina 24 horas voltada para eles, mas criamos mais atividades e tentamos manter essa rotina.” A adaptação da rotina, principalmente pelo bem-estar das crianças, é o que indicam os especialistas.

“Um bom começo seria melhorar a escuta, ouvir os outros, fazer coisas juntos. É importante para a criança o convívio com os pais: brincar, ver filmes, jogar baralho, dominó… Envolver toda a família nas tarefas domésticas, para que a criança se perceba como parte fundamental desse coletivo, e ver seu pai participando dessas tarefas também é importante. A família também deve criar uma rotina: ter hora para acordar, comer, brincar e dormir. Isso cria uma sensação de segurança no ambiente”, disse Priscilla Monteiro, psicóloga formada pela PUC-RJ, coordenadora e psicoterapeuta no Espaço Casulo, na Baixa do Sapateiro.

A psicóloga também alerta sobre a importância de conversar com os filhos pequenos sobre o novo coronavírus: “Esconder as coisas não é uma forma de proteger, não é uma boa alternativa para o desenvolvimento da criança. Os pais podem adaptar a linguagem à idade dela, uma linguagem infantil. Dizer que existem ‘bichinhos’ chamados coronavírus, são muito pequenos, então só dá para ver com um aparelho, e se ele entrar nas pessoas, elas ficam doentes. Temos de tirar esse ‘bichinho’, e a forma de fazer isso é lavando as mãos e colocando a máscara, para ele não entrar na nossa respiração. Para a criança, é difícil ficar privada, não encontrar os amigos, comemorar o aniversário. É necessário explicar que isso é necessário no momento, que quanto mais ela se cuidar, mais ela vai se proteger, os amigos e a família. A criança se sente feliz de poder fazer alguma coisa para contribuir.”

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