Conheça a história do mineiro que foi um dos primeiros distribuidores do Maré de Notícias

Foto: Matheus Affonso.

Conheça a história do mineiro que foi um dos primeiros distribuidores do Maré de Notícias

Daniele Moura

Lucas Frederico Brandão nasceu em Diamantina, cidade do interior de Minas, passou por São Paulo e, desde 2017, vive na Maré. Foi um dos primeiros frequentadores do Espaço Normal, projeto da Redes da Maré referência no atendimento de pessoas em situação de rua e usuários de crack e outras drogas pelo viés da redução de danos. Com um jeito integrador e brincalhão, Lucas logo chamou a atenção não só da equipe de plantão, mas também dos frequentadores do local, com uma postura de liderança nos processos e dinâmicas que se produziam ali. Uma das primeiras ações de maneira espontânea que se envolveu foi com a produção da comida compartilhada com os frequentadores do Espaço a partir de doações. Lucas se tornou uma figura carimbada na cozinha. “Minha vida foi totalmente transformada, cheguei sem perspectiva, desacreditado, todo enrolado cheio de problema, bem desorientado. Não foi fácil, muita gente lutou pra que eu ficasse frequentando o Espaço”, desabafa.

Com uma postura pró ativa, integradora e coletiva, logo começou a participar de outras atividades oferecidas como a “Roda dos Normais” – uma conversa semanal  da equipe com os usuários para uma troca sobre a convivência – o que acabou o levando a ser um mobilizador no chamado para novos pessoas a frequentarem o local. 

No Espaço Normal, a convivência é pautada pelo cuidado,  autonomia e diálogo, e Lucas, de maneira orgânica, começou a  se relacionar com a equipe e com  os usuários a partir desses pontos que a convivência estabelece. “A gente se sente numa família, se sente acolhido, abraçado, compreendido”, afirma o rapaz

O primeiro contato de Brandão  com o jornal foi como assistente de design, em 2018. “Na época do estágio no jornal eu tive uma redução maior de danos, fazia uso de crack e hoje não faço mais”, comenta Lucas reforçando a importância da metodologia usada no trabalho do Espaço Normal. 

No início de 2019, Lucas começou a trabalhar como distribuidor do jornal, num projeto chamado Entre Bicos, que gera renda para os frequentadores do espaço. “O jornal foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, eu era um perdido. É um dinheiro digno, devolve valores, o jornal acredita nas pessoas que eram invisíveis. Para mim esse trabalho é muito mais que distribuir. Eu não saio na rua apenas para distribuir o jornal, ele representa muito para minha vida, tem um significado muito grande, não é um simples jornal, não é apenas percorrer ruas e vielas, e levar a realidade do  território para pessoas que não tem noção do que se passa na frente delas. Conheci muitas pessoas, me sinto orgulhoso de poder andar nas 16 favelas, me sinto cria, e conheço a Maré melhor que muitos mareenses.”

Carismático, ele acabou se tornando um elo forte entre o que se ouve nas ruas da Maré e o que se conversa na redação do Jornal para pautar novas matérias. “O que a grande mídia  produz é completamente distorcido do que de fato acontece aqui dentro. Eu penso que os moradores deveriam dar muita importância  a isso que é entregue a eles, eles devem enxergar  valor  nesse jornal. Através do jornal foi construída muita coisa, foi mudada muita coisa, e desconstruído valores que a gente trouxe. A gente tinha um problema com um síndico que nunca deixava a gente entrar no prédio e aí teve uma matéria sobre síndico e depois que ele leu a gente pode entrar e entregar o jornal para os moradores do prédio.

Junto com Lucas na distribuição estão Valdemir Gomes da Cunha Júnior, Jonathan Ribeiro Da Cruz, Cristiane dos Santos, Vagner Moreira Pires, Ricardo Heleno Mendes Cruz, Antônia Valéria Lins e Silva, Pedro de Oliveira, Yasmim Emmanuel Duarte,  Thuany Vieira Nascimento e Lenny Aquino. “O jornal é uma redução de danos muito grande pra muita gente, é lindo acompanhar a evolução dos meus colegas, eu convivia com muitos na rua e hoje vê-los trabalhando, mudando a vida é demais. A pena que isso é feito pela ONG e não pelo governo”, finaliza com a crítica construtiva que lhe é característica.

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Daniele Moura

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