Corpo-festa: cultura LGBTI+ como encantamento

Foto: Matheus Affonso

Corpo-festa: cultura LGBTI+ como encantamento

Por Jean Carlos Azuos, em 27/06/2022 às 07h.

Maré de Notícias Impresso – Edição #137

A Igreja diz: O corpo é uma culpa. 

A ciência diz: O corpo é uma máquina. 

A publicidade diz: O corpo é um negócio.

O corpo diz: Eu sou uma festa. 

Eduardo Galeano

Eu sei e faço coro à Jota Mombaça quando ela diz que “o mundo é ‘nosso’ trauma”, mas quero pensar e reverenciar aqui a produção de vida que temos para além — e apesar — do mundo. Elaborar uma retomada de consciência do corpo como ferramenta e mecanismo de sobrevivência que se propõe a erguer e projetar vida(s). Elencar por esta escrita as múltiplas existências que figuram e protagonizam sentidos, para que esta discussão se estenda e se perpetue por entre materialidades e visualidades dialogadas com as vastas dimensões dos corpos que celebram, vibram e exalam encantamentos.

Em perspectiva, não posso deixar de refletir nos corpos LGBTI+ de favelas e, a partir destes, mobilizo espelhamentos sensíveis, considerando as circunstâncias contemporâneas nas quais essas realidades existem e acontecem, de modo a ser resiliente. Pisamos no mesmo chão, e bem sei sobre as violências que exigem de nós poder de reinvenção e proteção, diante de um cenário extremamente opressor e violento no qual as problemáticas de ser/existir se colocam ainda mais latentes e nas mais delicadas e terríveis formas.

Eu poderia espelhar dados, narrativas assombrosas, contar as numerosas cenas de morte e medo, porque todas essas coisas são de extrema importância para as reivindicações políticas que assentam nossas presenças e sua manutenção no aqui e agora, no presente. Entretanto, tenho me inspirado e preciso falar sobre o brilho de cada uma delas, das que já foram, das que seguem conosco e das que nascem todos os dias.

A Noite das Estrelas, das elegantes e irreverentes irmãs Lino, deliciosamente e de forma precisa me convoca a ter este pensamento. Cada corte desse filme me encharca de lucidez e coragem sobre o tempo no qual operamos, nos laços e nas alianças que fazemos, na busca incessante e cansada dos nossos sinônimos de vida, que diariamente conjuramos e desenterramos por conta de memórias, ancestralidades, arquivos, orações, canto, dança e ritos. 

Pelo caminho vamos nos fortalecendo através de instituições como a Conexão G, representada pela fortaleza Gilmara Cunha e uma equipe que mobiliza e sinaliza intervenções contundentes no campo dos direitos humanos, camadas essenciais que se conjugam as celebrações que evocamos; a Casa Nem, referência em acolhida e políticas existenciais para pessoas travestis, pelas quais luta com empenho Indianarae; e a Casa Resistência e as pessoas que a tornam possível — um espaço novo, mas de extrema importância para pessoas lésbicas.

É possível também localizar projetos, subjetividades, artistas, ativistas, produtores e importantes movimentos que oxigenam e ampliam a cultura LGBTI+, dando horizonte aos desejos e formas às práticas, que se pretendem estabelecer novas relações com as territorialidades, os encontros e fomentar pautas que traduzem as diversidades que nos compõem e revestem.

As minhas vivências enquanto curador movem um campo adensado de costuras com os assuntos elencados nestas linhas, sendo possível dialogar e conarrar as situações e encaminhamentos por meio de um mergulho artístico, aguçado de percepções para essas interseções a partir de poéticas de artistas. Jota Mombaça, nome que abre caminho para esse texto, generosamente nos provoca a seguir em carta aberta endereçada quelas que  “vivem e vibram apesar do Brasil”.  

Conduzo então, as costuras por entre as profecias de Ventura Profana, porque “eu não vou morrer”, e nem nós. Confortando estrategicamente o corpo com os ensaios de confronto de Patfudyda e Davi Pontes, nas frases inquietantes de Agrippina R. Manhattan criando deslocamentos, ateando incêndios visuais junto às Irmãs Brasil, na evocação de futuros concretos e erguendo bandeiras com Guilhermina Augusti. São muitas as possibilidades, e elas só crescem.

Isto, para afirmar que não somos filhos e filhas da ilusão, e sequer sacudidas pelo vento. Projetaremos nesse tempo espiralar ficções (im)possíveis para o futuro que nos pertence, encorajadas por aquilo que se faz real em cada esquina, favela, cidade, festa, ball, sexo, bar, terreiro, igreja e além.

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