Cultura como acolhimento e refúgio para um maternar digno e mais leve

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Cursos de música, culinária e artesanato, por exemplo, podem preparar as matriarcas para atuar na economia criativa

Edição #160 – Jornal Impresso do Maré de Notícias

Diversas iniciativas em cultura florescem nas favelas, muitas vezes essas iniciativas são impulsionadas pela criatividade e resiliência das mulheres e mães. Através de atividades como artesanato, artes visuais, fotografia, música, culinária, dança e teatro, elas encontram alternativas para gerar renda e sustentar as famílias.

O Censo Maré indica que as mulheres acima dos 15 anos são chefes de família em 44% dos lares do território. A cultura tem papel fundamental nesta economia. 

Doce cultura

O Datafolha através de uma pesquisa realizada em 2021 revelou que, 72% das mães que vivem nas favelas, não têm acesso a creche para os filhos, o que impacta diretamente nas condições de trabalho e, consequentemente, no sustento da família. De acordo com o IBGE, 36% das mães periféricas não possuem carteira de trabalho assinada.

Foi o caso Edith Alves, que por não poder trabalhar fora sendo mãe solo, teve desde sempre a responsabilidade total pelo cuidado e sustento dos filhos. Para suprir as necessidades da casa, ela realizava diversas tarefas domésticas, como lavar e passar roupa em troca de um “dinheirinho”, quando ainda vivia no sertão da Bahia. Foi lá que aprendeu, junto com o irmão, a fazer cocada e, quando chegou ao Rio de Janeiro, foi a culinária que abriu os caminhos.

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Moradora da Baixa do Sapateiro, dona Edith abriu um pequeno comércio, onde vende doces e deliciosas cocadas, sucesso há mais de 30 anos na Maré. A dica para um doce de sucesso, segundo Gizelda, a filha caçula, é não deixar ninguém tocar na panela de Dona Edith. Hoje, aos 80 anos, ela afirma: “tenho gratidão a Deus que esteve comigo o tempo todo”.

Educação cultural

A cultura abre portas para a educação e o mercado de trabalho. Às vezes isso acontece de forma autodidata, mas projetos educativos e oficinas profissionalizantes podem ajudar mães das favelas a desenvolver habilidades e conhecimentos, que as auxiliam a encontrar novas oportunidades de trabalho. Cursos de música, culinária e artesanato, por exemplo, podem preparar as matriarcas para atuar na economia criativa, um setor em constante crescimento.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2021, indica que 62% das mulheres que trabalham como cozinheiras são negras e pardas. Por isso, o investimento em programas de qualificação profissional para elas é fundamental para ampliar oportunidades de trabalho e aumentar a renda.

A Redes da Maré atua há mais de 13 anos com qualificação profissional com foco na gastronomia local e autonomia financeira das mulheres e mães cozinheiras. Através do curso e buffet Maré de Sabores, mais de 1.200 mulheres já foram qualificadas e mudaram suas vidas.

Empoderamento

A cultura também atua como um espaço de expressão e empoderamento para as mães mareenses. Através da arte, elas podem dar voz às suas experiências, denunciar desigualdades e defender seus direitos. Grupos de rap, teatro e dança, por exemplo, são plataformas importantes para a luta contra a violência doméstica, o racismo, o sexismo e incidem no fortalecimento emocional e psicológico de quem sofre este tipo de violência.

O coletivo Mulheres ao Vento, criado em 2016, por Andreza Jorge e Simonne Alves, é um projeto comunitário de dança antirracista cujo objetivo é a produçao artística e ativista das mulheres da Maré. Através das danças afro-brasileiras, busca-se o fortalecimento femino, baseado em uma relação de diálogo sobre direitos, vivências e empoderamento. Além disso, o coletivo também cria espetáculos anuais inéditos de dança.

Adriana Custódia, 36 anos, é mãe de três filhos e conta como é participar do projeto. “Na dança eu me sinto livre, eu tenho asas pra voar. O meu corpo e movimento me libertam de tudo aquilo onde eu estava presa. Esse é o significado da dança pra mim. Esse é o significado do coletivo ‘Mulheres ao Vento’: liberdade”.

Dados do Censo Maré mostram que 52% da população feminina acima de 10 anos já passou por pelo menos uma gravidez. Dentro desse contexto, a cultura surge como um poderoso instrumento para o sustento e a autonomia das mulheres, oferecendo um caminho de esperança, liberdade e transformação.

Adriana conta que a primeira gravidez, aos 18 anos, não foi fácil, mas que para ela “ser mãe é a coisa mais linda do mundo “.  Os desafios foram superados, principalmente,com o apoio da própria mãe e do marido, evidenciando que, mesmo sendo vistas como fonte inesgotável de carinho, as mães também precisam de cuidado.

Estudos de 2023 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que 25% das mães brasileiras sofrem de depressão pós-parto. Dentre as causas, estão fatores como baixa condição socioeconômica, gestações não planejadas, a mulher ter mais de dois filhos e antecedentes de transtornos mentais. Além disso, o perfil dessas mães indicam que a maioria são mulheres pardas e pretas.

Em recente pesquisa divulgada em dezembro de 2023, a Fundação Itaú e Datafolha descobriram que 54% dos brasileiros consideram  as atividades culturais como a melhor fonte de bem-estar, ocasionando principalmente a redução do estresse, da ansiedade e tristeza. Também apontam que ajuda a melhorar o relacionamento entre as pessoas. No caso da maternidade, a cultura ainda pode ser a chave para suavizar os desafios. 

Adriana reforça a importância da dança neste processo: “O projeto ‘Mulheres ao Vento’ me salvou da depressão, me salvou das crises de ansiedade. Quando eu estou dançando, eu me sinto livre, eu me sinto empoderada, eu me sinto forte”, conta.

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