De olho na mobilidade: como se movimentam os mareenses

Serviços de mototaxistas, como o localizado na Rua Principal, na Nova Holanda, são a solução para se locomover de forma mais ágil por diversos pontos do conjunto de favelas da Maré – Matheus Affonso

De olho na mobilidade: como se movimentam os mareenses

Em um ano, o que mudou na situação dos transportes na Maré e na cidade 

Maré de Notícias #128 – setembro de 2021

Por Ana Clara Alves e Tamyres Matos

Com mais de 800 ruas, travessas e becos espalhados por 16 comunidades, a Maré é margeada e cortada pela Avenida Brasil, mais importante via expressa da cidade do Rio de Janeiro. Por isso, falar em mobilidade urbana no maior conjunto de favelas do Rio é discutir como se move a cidade. Em março de 2020, o Maré de Notícias produziu uma série de reportagens sobre a “imobilidade urbana” na capital fluminense e na Maré. De lá para cá, poucas mudanças foram registradas. O assunto ganha destaque nesta edição pois, desde o início dos anos 2000, o 29 de setembro é o dia em que se dá maior atenção aos problemas e soluções no deslocamento das pessoas nos centros urbanos no Brasil. A inspiração para a escolha da data foi a criação do Dia Mundial Sem Carro em 1997, na França.

Uma pesquisa realizada pela plataforma israelense Moovit, divulgada no início deste ano, apontou o Rio de Janeiro como a cidade com os piores índices de mobilidade urbana do país. Apesar da recomendação para que a população se mantenha dentro de casa enquanto a pandemia não se encerra, por falta de opções esta não é a realidade da maioria dos habitantes dos territórios. Marcelo Lapa, de 20 anos, morador do Morro do Timbau, é uma dessas pessoas. 

“Comecei a usar o trem para ir trabalhar em março do ano passado. Quando tinha um problema, muitas vezes por causa de operações policiais, atrasavam todas as linhas. Aí ficava tudo muito lotado. Nesse tipo de situação, eu ia de ônibus”, relata Marcelo, que trabalha em um laboratório no Engenho de Dentro, também na zona norte da cidade.

Por conta desses problemas, ele precisou mudar sua rota e fazer baldeações. “Pego a van embaixo da estação NorteShopping e daí, um ônibus até o trabalho. Pra mim a viagem ficou muito mais rápida, porque o trem dava problema com muita frequência”, diz ele.

Marcelo conta que já teve surpresas desagradáveis também no que diz respeito ao gasto em seu trajeto de trem: “Já aconteceu de eu pagar duas passagens porque o problema no trem nem foi avisado: não tinha comunicação entre as estações. Não estava valendo a pena mais, pelo gasto e pela demora. Pegar van e ônibus está sendo mais prático”.

Um significativo pedaço da vida na condução

O estudo do Moovit apontou ainda que o carioca é quem mais gasta tempo dentro do transporte público no Brasil. Dentro da região metropolitana do Rio se gasta em média 67 minutos no transporte para chegar ao local de destino. Se o passageiro faz esse trajeto duas vezes por dia e cinco vezes por semana, durante um mês seriam gastas quase 50 horas em trânsito e, por ano, mais que 550 horas (ou 23 dias).

Além das queixas envolvendo o tempo desperdiçado, ainda existem as reclamações sobre as condições sanitárias do transporte e linhas extintas, reduzidas e sem climatização (desde 2012, existe a promessa de a cidade ter 100% da frota de ônibus equipada com ar condicionado).

Como consequência da “imobilidade urbana” (somados os riscos de contaminação pelo vírus da covid-19), mais de 30% dos passageiros buscaram reduzir o uso de transporte público durante a pandemia. O estudo analisou milhões de viagens realizadas em novembro de 2020, em 104 cidades de 28 países, ouvindo a opinião dos passageiros sobre a qualidade dos serviços no transporte público.

E a ciclovia, cadê?

Em março de 2021, houve um acidente na esquina da Rua Teixeira Ribeiro com a Rua Principal. Com dificuldades para trafegar por conta da chuva, um ciclista se chocou contra um motociclista. Felizmente, ninguém se machucou seriamente; infelizmente, acidentes como esses são recorrentes na Maré.

No fim de 2015, as ruas principais começaram a passar por obras para a criação da ciclovia. Ao todo, foram gastos R$ 5 milhões em uma obra que deveria resultar em 18 quilômetros de uma via especial para ciclistas. O projeto faria a ligação entre a Maré, a Cidade Universitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Bonsucesso. Do período de execução do projeto, restaram algumas placas, bicicletários nas passarelas e um pequeno pedaço de ciclovia, embaixo da Linha Amarela. 

Na edição 83 (dezembro de 2017), o Maré de Notícias abordou o tema quando avaliou a obra realizada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. “O resultado foi o pior possível, nunca funcionou”, sentencia Pedro Francisco dos Santos, presidente da Associação de Moradores do Conjunto Esperança. Ele acrescenta que o local necessita de um plano mais amplo de mobilidade urbana. “Nossas comunidades não têm nem espaço na calçada para o pedestre, imagina para as bicicletas. Falta ordenamento, um projeto de organização por parte do governo. Não temos mobilidade nenhuma”, criticou.

Para Felipe Barcelar, 23 anos, morador da Rubens Vaz, ainda há muito a se avançar quando se trata de incluir o ciclista no planejamento urbano da Maré. “A gente está em um território periférico e o respeito pela bicicleta e pelo ciclista ainda é muito pouco: desde carros parados sobre a ciclovia a comércio que toma conta da calçada para colocar mercadorias e muitas vezes ocupa até mesmo a rua com cones, ferros e cavaletes”, aponta.

Para o jovem, existe uma clara diferenciação quando se discutem assuntos como esse na Maré e em regiões mais abastadas da cidade. “A questão de circular dentro da Maré com bicicleta é uma parada forte, ainda tem esses obstáculos e interrupções. A Maré é muito grande, é essencial o uso dos espaços para melhor movimentação. Pensando sob uma perspectiva fora da Maré, a questão da ciclovia é uma parada mais para a zona sul da cidade. Porque lá é ‘a cidade’. As regiões do centro e da zona sul têm um desenvolvimento maior em mobilidade porque contam com espaço planejado e investimento”, analisa.

Durante o primeiro ano da pandemia do covid-19, a Casa Fluminense monitorou a oferta de ônibus do Rio. A segunda edição do relatório De olho no transporte mostrou que menos da metade da frota de ônibus disponível atendeu à população. Na primeira semana de março deste ano, somente 3.208 veículos foram para as ruas, ou seja, apenas 40,2% do que a lei obriga (o total mínimo correto seria dos 7.977 ônibus).

Sobre as questões apresentadas na matéria, tentamos contato com a Secretaria Municipal de Transportes e o Rio Ônibus, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta edição. O espaço continua aberto em nosso site para as respostas. De acordo com a SuperVia, a empresa está “sempre atenta às necessidades dos clientes e aprimorando o meio de se relacionar com os passageiros, como por exemplo a comunicação imediata em situações de alterações na circulação dos trens (via Twitter ou áudio nas estações)”.

Em nota, a concessionária afirma que, devido à pandemia, atualmente transporta, em média, 300 mil passageiros por dia. Antes disso, a média de clientes transportados era de 600 mil por dia. Ao listar investimentos dos últimos anos, a SuperVia relata reformas nas estações, troca de trilhos, instalação de novos dormentes e substituição de cabos da rede aérea. 

Ainda segundo a empresa, a liminar que impediu o aumento da tarifa (de R$ 5 para R$ 5,90) agrava a situação financeira da concessionária. “A SuperVia continua aguardando que o Poder Concedente busque alternativas urgentes para garantir o reequilíbrio econômico-financeiro da concessão. Até 2 de junho, a concessionária registrou uma perda financeira de mais de R$ 474 milhões, resultado da redução de mais de 102 milhões de embarques. Isso levou a concessionária a entrar em Recuperação Judicial no início de julho deste ano”, conclui a nota.

A circulação de bicicletas é intensa nas ruas das 16 favelas, mas não há ordenamento urbano para priorizar este meio de transporte – Foto: Elizângela Leite


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Tamyres Matos

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