‘Meu filho foi alvo de racismo’

Jaciana Melquiades, historiadora e empresária da Era Uma Vez o Mundo, primeira loja física de bonecas pretas.

‘Meu filho foi alvo de racismo’

Como os adultos podem lutar para que as crianças não sejam vítimas de discriminação racial ou como agir quando situações do tipo já ocorreram

Maré de Notícias #128 – setembro de 2021

Por Amanda Pinheiro

A infância é o período essencialmente marcado pela inocência, e por isso o racismo imprime dele as marcas mais profundas – aquelas que serão levadas pelo indivíduo por toda a vida. Por as crianças viverem em uma fase cercada de descobertas, é importante levar em conta a maneira de abordar o tema com elas e entender qual o impacto que uma sociedade racista pode causar em suas vidas.

A empresária e historiadora Jaciana Melquiades, de 37 anos, da Era Uma Vez o Mundo, primeira loja física de bonecas pretas, afirma que o racismo na vida das crianças se reflete na autoestima, o que pode resultar em mudanças na aparência.

“Mesmo que as crianças não tenham essa ideia (do racismo) muito configurada na cabeça, a gente as vê com autoestima baixa, se comparando com colegas que elas percebem que têm tratamento melhor por não serem negras. Essa comparação faz com que os pequenos se sintam inadequados, peçam coisas que os façam ficar parecidos com aqueles que são bem tratados. Isso se reflete nos pedidos para alisar do cabelo ou comprar bonecos de personagens que não se parecem com eles, justamente para se sentirem incluídos e inseridos”, analisa. 

Para Jaciana, a representatividade está diretamente relacionada ao desenvolvimento da autoestima da criança. “Quando a gente não apresenta personagens que se pareçam com essa criança, ela começa a sofrer com baixa autoestima: fica muito tímida, quietinha e envergonhada. A gente sabe que esses comportamentos muitas vezes não têm a ver com a timidez natural da criança, e sim  com uma castração das possibilidades de ela ser como é”, explica. 

Um longo caminho

Durante muito tempo, poucas eram as pessoas negras em espaços de evidência, como mídia ou empresas. A conscientização de parte da população e a cobrança de ativistas do movimento negro resultaram em avanços, ainda que pequenos: mais personagens negros em novelas que não os habituais escravos ou serviçais, o reconhecimento e a valorização de artistas, além de uma reflexão mais ampla sobre representatividade. Esta impacta diretamente o indivíduo desde a infância, já que poucas crianças negras são vistas em posição de protagonismo.

No Brasil, segundo a pesquisa Cadê Nossa Boneca, realizada pela organização Avante – Educação e Mobilização Social, as negras representam apenas 6% do total de bonecas fabricadas. No entanto, quando finalmente chegam às prateleiras das lojas, cinco em cada sete custam mais que suas similares brancas.

“Esse talvez seja o campo em que menos se avançou. As discussões em torno da infância não levam em consideração que a criança é uma pessoa, é sujeito. Como as vozes que reivindicam representatividade são de pessoas adultas, o mercado que é voltado para a infância ainda não recebe uma pressão tão incisiva para que promova de fato uma mudança”, afirma Jaciana.

Para a historiadora, a discussão sobre representatividade progrediu sob alguns aspectos, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido, seja no combate à estereotipação dos personagens de pele preta, seja na conscientização da indústria de brinquedos e produtos infantis. 

“Vemos as crianças ainda sendo representadas como aquela que é adotada, sempre em situação de vulnerabilidade. A gente ainda tem muito por avançar. O caminho é pensar na criança como sujeito e a infância preta, como um espaço de potência e vivências diversas”, analisa.

Apesar de parecer pouco para muitas pessoas, o impacto na vida de uma criança negra que se vê representada é grande. Constantemente, ao abrir as redes sociais, personalidades como a jornalista Maju Coutinho ou a cantora Iza são vistas ao lado de crianças que as imitam, e isso se reflete nas brincadeiras. Para Jaciana, elas desenvolvem consciência muito mais rapidamente quando conseguem se ver em algo ou alguém.

“A criança começa a criar um universo de pessoas pretas potentes, bonitas, ‘gostáveis’ na própria cabeça, se inserindo nesse universo. Com isso, a autoestima muda, se fortalece. Quando a gente faz atividades em grupo, elas ficam até com uma postura diferente, potente”, conclui. 

Efeitos do racismo nas crianças:

  • Baixa autoestima;
  • Negação da própria imagem;
  • Sentimento de angústia e revolta;
  • Dificuldade de relacionamento;
  • Quenda o rendimento escolar.

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Amanda Pinheiro

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