Desafios do Enem em meio à pandemia

Desafios do período do vestibular foram multiplicados com as limitações do ensino remoto. Na foto, estudante assiste a videoaula de biologia – Foto: Matheus Affonso

Desafios do Enem em meio à pandemia

Estudantes contam com a ajuda de pré-vestibular comunitário como o Rede de Saberes

Maré de Notícias #130 – novembro de 2021

Por Gracilene Firmino

O acesso ao ensino superior ainda é privilégio de poucos. Seja por conta de um sistema escolar que oferece um ensino deficiente ou pela necessidade de ingressar cedo no mercado de trabalho para ajudar a família a pagar as contas, muitos jovens pobres e periféricos não conseguem realizar o sonho, muitas vezes nascido na infância, de conquistar o diploma universitário. Mas, mesmo diante das restrições de uma pandemia ainda em curso, esses estudantes escolhem seguir. 

Lucas Alves, de 17 anos, é um deles. Morador da Vila do João, ele vai encarar pela primeira vez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): “Quero cursar biologia. Provavelmente, para ser professor. Estudar em meio à pandemia foi difícil, com as aulas remotas e tudo o mais. Gosto de fazer anotações durante as aulas do pré-vestibular para me aprofundar depois.” Lucas acredita que sua preparação trará bons resultados. “Isso é algo que não consigo definir, mas acredito que terei um resultado minimamente positivo nas provas. Essa é a primeira vez que vou fazer o exame; se falhar, planejo fazer novamente”, diz. 

O rapaz, que também já pensou em ser matemático, conta que o pré-vestibular Rede de Saberes o ajudou bastante. “Por estar em casa, tenho que ter o triplo de motivação para conseguir o mesmo resultado que no presencial, por conta da diferença de foco, ambiente e energia. O curso preparatório ensinou conteúdos que não aprendi na escola. Gostei bastante”, conta. 

Natali dos Santos, também de 17 anos, vai participar do Enem pela primeira vez e, assim como Lucas, fez parte do Redes de Saberes. “O processo de estudos é mais difícil por ser online; nem sempre a conexão com a internet está boa”, conta. A jovem moradora da Nova Holanda fala sobre o sentimento de insegurança. “Nunca fiz o Enem e, apesar de estar fazendo o pré-vestibular no Redes, sinto que poderia estar mais preparada. A pandemia me afastou dos estudos, tive muitas incertezas”, relembra.

Rede de Saberes

O pré-vestibular Rede de Saberes, pioneiro na Redes da Maré, foi o primeiro projeto que a instituição desenvolveu e acumula mais de 20 anos de atuação no território. “O projeto tem como objetivo aumentar o nível de escolaridade dos moradores da Maré, oferecendo aulas de segunda a sexta no período da noite, para atender aos trabalhadores também. O pré também se preocupa com a formação social dos moradores do território. Então, desenvolvemos algumas ações para ampliação do pensamento crítico, voltado para questões sociais, econômicas e políticas, priorizando a diversidade e a defesa dos direitos humanos”, explica Luana Vieira da Silveira, assistente social e coordenadora do curso pré-vestibular da Redes. 

Luana Vieira da Silveira

Nascida na Maré e tendo passado parte da infância na Nova Holanda, Luana compartilha sua percepção sobre as necessidades dos estudantes da Maré. “Diferentemente dos outros anos, em 2021 contamos com uma parceria com a L’Oréal, que nos permitiu oferecer, além do Rede de Sabetes, um pré-vestibular voltado ao acesso das mulheres ao ensino superior. O que os alunos mais comentam sobre as dificuldades de prestar o Enem é sobre a preparação”, diz.

Segundo ela, o ensino remoto ainda é um grande desafio para alunos e instituições. “Estudar em casa implica ser interrompido por parentes ou ter problemas com a conexão de internet, e isso se traduz em insegurança em relação à prova. Há relatos também de crises de ansiedade e medo. Ano passado, as atividades já ocorreram de forma remota, o que trouxe experiência para este ano, mas ainda existem muitas dificuldades. Além dos problemas de acesso à internet, os alunos não têm o equipamento necessário ou mais confortável, como um notebook, para assistir às aulas. Esse tem sido nosso maior impasse: atingir os alunos de forma remota.”

Luana ainda aponta o abandono dos estudos como outra consequência cruel da pandemia: “A evasão escolar aumentou muito, e quando buscamos identificar a razão, vimos que ela é causada pela necessidade do jovem ingressar no mercado de trabalho, que também cresceu.” Ela ainda acrescenta que “a rotina de trabalho mudou. A adaptação às aulas online foi complicada. Atendemos um público diverso, sem restrição de faixa etária, e nem todos conseguiram se adaptar. Mas, mesmo diante dos problemas do ano passado, tivemos um bom número de aprovados. Foram 21 alunos que conseguiram acessar o ensino superior”, conta Luana. 

Para assistir às aulas do Rede de Saberes é preciso estar atendo ao prazo de matrículas. “As inscrições vão do fim de novembro, início de dezembro no máximo, até janeiro,  por meio de um link que disponibilizamos. Divulgamos nas redes sociais da Redes da Maré e também nas ruas e em escolas”, diz Laura. Para participar, basta ter concluído o ensino médio ou estar no último ano e ser morador da Maré. “Antes da pandemia, fazíamos uma entrevista com os interessados; agora, disponibilizamos um espaço na ficha de inscrição para o candidato falar sobre seu interesse em fazer parte do projeto. Avaliamos disponibilidade e interesse na seleção”, explica. 

Um caminho para o ensino superior

O Enem foi instituído em 1998 com o objetivo de avaliar o desempenho escolar dos estudantes. Em 2009, o exame mudou sua metodologia e passou a ser utilizado como mecanismo de acesso à educação superior. Desde o ano passado, devido à pandemia, o participante pode escolher entre fazer o exame impresso ou o Enem Digital, com provas aplicadas em computadores, em locais definidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). As notas do Enem podem ser usadas para acesso ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e ao Programa Universidade para Todos (ProUni). Elas também são aceitas em mais de 50 instituições portuguesas de educação superior. Os participantes do Enem ainda podem se candidatar ao financiamento estudantil oferecido por programas do governo, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). 

Qualquer pessoa que já concluiu o ensino médio ou está no último ano pode fazer as provas de acesso ao ensino superior, que são aplicadas em dois fins de semana. Este ano, o Enem será realizado nos dias 21 e 28 de novembro, com 180 questões objetivas e uma redação dissertativa-argumentativa .

Em 2021, o exame teve 3.109.762 inscrições, o menor número desde 2005 — uma queda de quase três milhões de candidatos, em comparação a 2020, principalmente entre alunos de escolas públicas (31%) e negros (52%). Depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar que o Ministério da Educação (MEC) mantivesse a isenção do pagamento da taxa de inscrição para quem faltou à edição do ano passado por conta da pandemia de covid-19, o número de candidatos aumentou em 9%, com 280.145 novos inscritos — estes farão as provas em 9 e 16 de janeiro de 2022, mesmo período que os adultos privados de liberdade e jovens cumprindo medida socioeducativa (Enem PPL).

Foto: Matheus Affonso

Se você encontrou um erro de ortografia, notifique-nos por favor, selecionando o texto e pressionar Ctrl + Enter.

mareonline

Artigos relacionados

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Obrigado!

Nossos editores são notificados.