Dia do jornalista: o informar e o formar por meio das notícias

A jornalista e coordenadora do Maré de Notícias Dani Moura, durante a 14ª Edição do Congresso de Jornalismo Investigativo da ABRAJI. Foto: Alice Vergueiro.

Dia do jornalista: o informar e o formar por meio das notícias

Quais as dificuldades encaradas por jornalistas no Brasil desde a criação dos primeiros jornais até os dias de hoje

Por Andressa Cabral Botelho, em 07 de abril de 2021, às 14h50h
Editado por Edu Carvalho

Ser jornalista é encarar diariamente notícias boas e ruins e comunicar com qualidade e responsabilidade essas informações para milhares de pessoas. Ser jornalista em meio a uma pandemia é lutar contra notícias falsas, ataques, temer um vírus e resistir diariamente para que, ainda assim, milhares de pessoas tenham acesso a informações de qualidade. Neste dia 07 de abril, dia do jornalista, gostaríamos de ressaltar a importância de comunicar, mas principalmente, do nosso papel como responsáveis de fazer com que a informação correta e completa chegue ao nosso público, pois fazer jornalismo é escrever e contar histórias reais e cotidianas a quem se interessa por elas. 

Tendo em vista que a história é contada a partir da ótica vencedora – do colonizador, daquele que ocupou territórios, que venceu a guerra, que dizimou populações utilizando o progresso como justificativa – é necessário também apurar e contar os fatos a partir de um segundo, terceiro e quarto olhar. Afinal, se a história tem diversos lados, o/a/e jornalista tem como papel abordar todos os lados possíveis do mesmo fato, possibilitando, assim, que o seu público possa formar a sua opinião sobre o assunto. Entretanto, quem é jornalista tem lidado com alguns empecilhos para exercer a profissão.

Os últimos anos têm sido de extrema dificuldade para ser jornalista e frequentemente é possível ver durante os telejornais os jornalistas (e suas respectivas emissoras) sendo ofendidos, assim como tem ocorrido na internet. Em 2020, quando o jornalismo tornou-se uma atividade essencial no sentido de levar informação responsável e de qualidade sobre a covid-19, o Brasil registrou um aumento significativo nos casos de violência contra esses profissionais. Foram registrados 428 casos de ataques, incluindo duas mortes, representando um crescimento de 105,77% em relação a 2019, de acordo com o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2020, elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).

Este foi o ano mais violento para essa classe desde a década de 90, quando a entidade começou a registrar os casos. E quem liderou esses ataques foi o presidente Jair Bolsonaro, que foi responsável por 175 ataques, seguido por servidores públicos, políticos e internautas. “Eles ocorrem para descredibilizar a imprensa para que parte da população continue se informando nas bolhas bolsonaristas, lugares de propagação de informações falsas e ou fraudulentas”, destaca Maria José Braga, presidenta da FENAJ, membra do Comitê Executivo da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ).

A atitude do presidente, de certa forma, serve como incentivo para que outras pessoas ajam da mesma forma com jornalistas. Assim, cresceram também as agressões verbais/ataques virtuais, totalizando em 76 casos. Pode parecer pouco, mas é um crescimento de 280% em relação a 2019. Sem esquecer que muitos jornalistas não denunciam formalmente os ataques que sofrem no ambiente virtual, subnotificando os dados, de acordo com o levantamento.

Jornalismo no Brasil

O que ajuda a justificar essa referência no jornalismo que tem base no eixo Rio-São Paulo envolve também uma questão histórica. No Brasil, o jornalismo começa em 1808 com a vinda da família real portuguesa no país e com a necessidade de se criar uma estrutura administrativa, que incluía um jornal. Cria-se, primeiramente, a Imprensa Régia, órgão que passa a permitir a existência de uma imprensa no país. Meses depois, em 10 de setembro de 1808, surge o primeiro jornal oficial feito no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, que tinha um perfil semelhante ao do Diário Oficial, publicando mais informações sobre a estrutura governamental do que sobre acontecimentos do país. 

Com o tempo, principalmente a partir do século XX, vão surgindo meios de comunicação que falam de assuntos mais específicos para públicos mais específicos. Dentro da faculdade poderíamos chamar isso de jornalismo de nicho, mas é muito mais do que um nome; é uma necessidade comunicar para os seus. E apesar de termos acesso a essas informações, o jornalismo de nicho existe há décadas e destaca a importância de dar a visão de dentro para fora dessas realidades, comumente marginalizadas na mídia tradicional. 

O jornalismo comunitário também segue essa linha de raciocínio. Aborda em seus produtos midiáticos – seja por meio de texto, áudio ou vídeos – pautas e demandas locais. E através desses materiais, quem o faz apresenta uma visão desse território que comumente não é exposta nos veículos tradicionais, e que, de certa forma, ajuda a criar nos leitores/moradores um sentido de orgulho por pertencer àquele local. Com as mídias digitais, é possível que essa informação chegue ao seu público-alvo, os moradores daquela localidade, mas também amplia o raio que essa informação pode chegar, em outros territórios semelhantes e até mesmo nos veículos tradicionais, impactando na forma de se falar de certos locais. Um exemplo disso é como a cobertura jornalística de operações policiais na Maré, por parte do Maré de Notícias, muitas vezes ajudou a pautar grandes veículos da mídia, que puderam abordar também a visão do morador em relação à operação.

Equipe do Maré de Notícias falando sobre o Dia do Jornalista

Como pensar em jornalismo comunitário e não lembrar da canção “Zé do Caroço”, de Leci Brandão? A música retrata justamente a necessidade de comunicar que o policial aposentado José Mendes da Silva sentiu nos anos 70, em meio à ditadura militar. Popularmente conhecido como o Zé do Caroço no morro do Pau da Bandeira, em Vila Isabel, ele instalou um alto-falante no telhado de sua casa e fazia um serviço de comunicação comunitária, lendo notícias que pudessem impactar a favela e dando notas de falecimento. Graças à música, a história desse meio de comunicação tornou-se conhecida para além da favela, mas há muitas outras que ainda são desconhecidas. 

O jornalismo que não está nos livros

Algo que não é falado nas salas de aula, mas que é importante destacar, é a existência de uma imprensa negra brasileira que existe há, pelo menos, dois séculos, que reflete hoje em veículos como o Alma Preta, Site Mundo Negro e o AfroTV, por exemplo. Em levantamento feito em 2020, o Fórum Permanente pela Igualdade Racial (FOPIR) mapeou 65 mídias negras em todo o país na atualidade, com produção na luta contra o racismo e desigualdades no país. Entretanto, a atuação da imprensa negra tem registros anteriores até mesmo à abolição, mas ganham força no século XX.

Não apenas informar, mas esses jornais cumpriam o papel de formação de seus leitores, a partir do momento em que os textos exaltavam tradições e reforçavam a importância da coletividade e do letramento para o crescimento. Para o sociólogo e jornalista Clóvis Moura, esse tipo de jornalismo atua não apenas num papel informativo e formativo, mas servem para apontar desigualdades, tendo em vista a necessidade de se criar um veículo alternativo para abordar de questões específicas para o negro – um apontamento que também é válido para outros grupos de minorias. “Uma imprensa que tem circulação restrita e penetração limitada à comunidade a que se destina, irá exercer uma função social, política e catártica durante sua trajetória”, destaca o autor em 1983, no livro Imprensa Negra. Jornais como O Menelick (1915), O Clarim da Alvorada (1924), Quilombo (1948), Correio d’Ébano (1963), SINBA (1977), Revista Ébano (1980), Nizinga (1985) e muitos outros cumpriram papel importante nessa formação cultural, social e educacional através da informação. 

Edição do jornal paulista O Menelick

Mas antes desses, os negros utilizaram o jornalismo como uma ferramenta de resistência. Os Manuscritos da Revolta dos Búzios (1798) é considerado por historiadores como o primeiro jornal da imprensa negra e teve papel importante naquele período em Salvador, onde surgiu. Com caráter opinativo, o folhetim espalhava mensagens de liberdade e era uma convocação para que as pessoas se rebelassem contra a escravidão e pudessem emancipar a Bahia do restante do país. Além das mensagens, ele teve papel extremamente importante na articulação da Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates e Revolta dos Búzios. Por ainda não existir a Imprensa Régia, o jornal existia de forma ilegal, era manuscrito e feito em pouquíssimas tiragens. E devido o fato do público-alvo do jornal (os negros escravizados) ser, em grande maioria, analfabeta, a divulgação do jornal era feita em pontos estratégicos da cidade e lido em voz alta, para que a informação pudesse chegar em diversas pessoas.

Seja em 2021, 1915 ou em 1798, através do boca a boca, do jornal impresso entregue de porta em porta, rádio ou telejornal, a atuação do jornalista é potente e tem papel relevante na sociedade em que vivemos, sendo responsável principalmente por informar, mas também por formar pensamento crítico dos leitores. O Maré de Notícias parabeniza todos/as/es que exercem o jornalismo e têm como objetivo informar com compromisso e responsabilidade em tempos de crises e ataques ao nosso trabalho.

Andressa Cabral Botelho

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