Ê vila de gente

Foto © Douglas Lopes

Ê vila de gente

Por Sara Alves

Ê Vila da minha vida

Dos meus pesadelos e realidade

Realidade e sonhos 

De Cidade Fantasma eu te chamava

Tudo desconhecido. Ninguém me encantava

Sofri com a dor, mas não perdi as raízes da minha infância

Amigos que não vejo mais

Amigos que ficaram pra trás

Amigos que não esqueço jamais

Ê Favela Querida!

Nova Holanda é seu nome

Alegrias ao entardecer

Bola, peteca e muita correria

Isso sim é que é infância!

Medo do homem do saco

Pavor da mulher loura

Nunca vi o porco com cabeça de gente

Só sente quem viveu

Belas lembranças…

Cupins nas paredes

Êta tardes ensolaradas

Haja bacia com água pra sossegar tantos bichinhos

Quem bom! Faltou a luz ê, faltou a luz ê… 

Agora papai contará contos e causos

Êta criançada danada!

Cada história de arrepiá

Oh! Meu Deus! E os filmes nos Galpões?!

A Leão XIII é famosa

Até hoje sinto o cheiro de vampiro

E a mulher com meia cara de esqueleto?!

Não me lembro da Páscoa

Não me lembro de ovos de chocolate

É, mas de Festa Junina, hum…

Êta coisa boa: canjica, bolo e doces

Não esqueço da cadeia

Quem não paga pra sair, fica até o amanhecer!

Que pena, tenho que dormir

Criança não fica acordada à noite toda, mamãe dizia

Eu não sei quem inventou que a noite é pra dormir 

Ah! Meu Deus, por que não posso brincar à noite?

Seria tão bom!!

Vi estrelas pelas frestas do telhado

Vi chuva molhar o assoalho

Imagina! Tem rato e ratazana

Tinha tristeza com a morte

Ê coisa esquisita defunto na sala de casa

E os piques?

Pique-tá, pique-esconde,

pique-alto, pique-baixo… 

Haja pique

Ê Vila Querida, não sinta ciúmes, não!

Hoje, você é bela também

Meio louca, mas bela

Aprendi gostar de você

Agora, o Castelo Encantado até luz lilás tem!

Que lindoooo!!

Você nunca reparou? 

Pare e repare

Novos amigos eu fiz

Novos amigos perdi

O Amor aí conheci

Muitos não te conhecem e te consideram o inferno

Você hoje é enorme. Não é mais Inferno Colorido

Tardes lindas, céu com lua quebrada

Estrelas nunca faltam

Trabalhadores saem cedinho

Haja ônibus, kombis, vans, bicicletas e tudo mais para tantos lutadores

Ê Vida… Ê Vila…

Quem não te conhece, te julga

Têm “os meninos…”, você sabe…“os meninos”…

Mas onde não existem mais esses “meninos”? 

Aqueles…, aqueles… os “excluídos” ?!

Não posso falar. É perigoso! É melhor me calar 

Quem mora na favela não sabe de nada, não vê nada

e nada fala. Essa é a lei

Ê favela! Hoje você é Co-mu-ni-da-de?

Êta orgulho besta!

Dona Omissão você só vive na favela?

Fala Omissão! 

Pode falar que eu não conto pra ninguém

Em que canto você vive?

Pode deixar, eu não conto pra ninguém

Fale baixinho

Eu sabia, eu sabia!!

Você está em todos os cantos!

Mas deixa pra lá, porque eu só quero declarar as belezas que a Vila tem

e que muitos desconhecem também

Vila, você cresceu!

Êta coisa doida: é gente no meio dos carros, 

é carro no meio de gente!

Forró, pagode, festas, futebol e muito churrasco

Êta povo trabalhador, que inventa o que fazer pra sobreviver

E ainda tem gente que comenta que essa Gente não é valente

E ainda tem gente que diz que essa gente é vagabunda

Essa gente nada sabe sobre gente

Violência?! Lógico que tem. Mas onde, agora, não tem?

Vila, você cresceu!

E eu aprendi gostar de você com todos os seus defeitos

E sei que não sou a única

Muita Gente te admira, mesmo contrária à mídia você tem o seu valor

Vila, você é mais que do João

Hoje é dos Josés e das Marias e acorda todos os dias com o cantar dos pássaros, com o andar dos trabalhadores e também dos “vagabundos”

Quando ainda há estrelas que guiam a minha vida

A vida na Vila 

A Vila da gente.

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