‘Engenharia apoteótica’: desafios da Educação na Maré por quem vive a luta

‘Engenharia apoteótica’: desafios da Educação na Maré por quem vive a luta

No Dia da Educação, 28 de abril, professores, alunos e mareenses em geral se reuniram para o lançamento da pesquisa sobre o impacto da pandemia na formação e na saúde de estudantes e docentes

Por Tamyres Matos, em 05/05/2022 às 11h. Editada por Daniele Moura.

Durante o lançamento do estudo “Covid-19 e o acesso à Educação nas 16 favelas da Maré: impactos nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio”, três palavras se destacaram em meio às falas: experiência, construção e esperança. O impacto da pandemia na Educação da Maré é inegável e a pesquisa, cujos resultados já foram divulgados pelo Maré de Notícias, organizou esse diagnóstico. Agora, professores e diretores relatam suas vivências do período pandêmico e reforçam que a hora é de “arregaçar as mangas” para que a Educação continue representando a esperança de dias melhores diante dos inumeráveis desafios. A pesquisa é fruto da parceria entre a Redes da Maré e o Instituto Unibanco.

Cristina Oliveira, diretora Escola Municipal Osmar Paiva Camelo, ressalta a imensa dose de sofrimento que o trabalho durante a pandemia gerou para os profissionais da Educação, assim como também para pais e alunos. E chama atenção para a etapa de reconstrução vivida. Segundo ela, há crianças no 3º e no 4º ano do Ensino Fundamental que nem chegaram a ser alfabetizadas por conta das lacunas do período de pandemia. “Paulo Freire – Patrono da educação brasileira – fala sobre a importância da esperança, mas não é aquela de quem espera sentado. Trata-se de se levantar, construir, esperançar. Juntar-se com outros para fazer de outro modo. Então, que a gente seja capaz de fazer uma escola diferente da que tínhamos em 2019 e que a gente construa uma escola mais justa socialmente, porque na Maré nós temos crianças potentes, nós temos estudantes criativos, temos estudantes inteligentes que são capazes de ser o que quiserem. É necessário apenas que a gente tenha uma educação de qualidade.”

De acordo com o eixo de Educação da Redes da Maré, cerca de 20 mil estudantes estão matriculados nas 50 escolas públicas do conjunto. No entanto, ainda há deficiências específicas que precisam ser endereçadas pelos representantes do poder público, afinal de contas, fala-se de uma população de mais de 140 mil pessoas. Segundo a instituição, um dos exemplos destas deficiências é o baixo número de escolas para alunos que chegam ao sexto ano do ensino fundamental, o que pode colaborar para o aumento da evasão escolar nesta fase.

Presente ao evento do último dia 28, o estudante Vitor Soares, de 18 anos, destacou alguns pontos da vivência dos seus últimos dois anos de ensino médio sob as restrições da pandemia de covid-19. “Estudo à noite, então a maioria dos meus amigos são pessoas mais velhas, que têm que trabalhar. Alguns tiveram que largar a escola por ter que ajudar a família em tempo integral. E quando o presencial voltou, eu percebi que não ia ser a mesma coisa. Por exemplo, uma professora tinha perdido o marido dela (para a covid) e também não estava em condições de voltar a dar aula para gente. Mas foi legal porque houve uma mobilização, eles (os professores) nos procuraram para auxiliar na preparação para o Enem. Houve também relatos de alunos que ficaram muito desesperados, foi muito difícil”, relembrou.

Os problemas de insegurança alimentar entre os alunos também foram citados por todos os professores. “Em 2020, nós começamos a apoiar as famílias que passavam necessidades com 30 cestas básicas. Em 2021, pulou para 300 cestas a serem distribuídas. Foi uma engenharia apoteótica para conseguirmos fornecer um kit alimentação equivalente na época a R$ 120. Toda equipe se mobilizou”, relatou Sérgio Barbosa, diretor adjunto do Colégio Estadual Professor João Borges de Moraes, na Rua Teixeira Ribeiro.

A partir deste encontro, o Eixo de Educação da Redes da Maré decidiu criar um fórum que vai acompanhar a evolução da situação nas escolas nas 16 favelas do bairro, além de propor soluções e cobrar as mudanças necessárias dos representantes da Prefeitura e do Governo do Estado.

Alta taxa de analfabetismo funcional

Metade (50%) dos alunos do Colégio João Borges de Moraes é composta por analfabetos funcionais – pessoas que reconhecem letras e números, mas não entendem textos simples -. O dado impactante foi apresentado por Sérgio Barbosa em referência a uma pesquisa realizada internamente pela escola. Além disso, a avaliação diagnóstica apontou que, destes, 30% são completamente analfabetos – apesar de já terem encerrado a fase de alfabetização. “Temos ainda 30% dos nossos alunos estão em depressão e 80% das nossas alunas nunca foram ao ginecologista. São as respostas dos estudantes a nossa pesquisa. Que proposta político-pedagógica podemos realizar a partir do momento em que o estado vem com uma proposta conteudista e temos que seguir o currículo com 50% de analfabetos funcionais? Ou seja, se a gente seguir o programa do estado, vamos reprovar quase 70% dos alunos.”

Além desta dificuldade, o docente aponta que graves problemas estruturais inviabilizam a atuação no espaço físico que deveria estar sendo utilizado. “Nossa escola está interditada por conta de risco de incêndio, estamos funcionando graças às parcerias que temos com a Redes da Maré, que fornece duas salas para a gente dar aula à tarde, o (Instituto) Vida Real, que oferece uma sala para a gente dar aula pela manhã, a Associação de Moradores da Nova Holanda, que fornece uma sala para a gente dar aula pela manhã, a (ONG) Luta pela Paz, que oferece uma sala para a gente dar aula na parte da manhã, e a clínica da família que fica ao lado do nosso escola, que oferece espaço para gente dar aula pela manhã”, descreveu o diretor.

Público no Centro de Artes no dia da apresentação da pesquisa. Foto Douglas Lopes

Dados da pesquisa

Confira abaixo alguns dos dados mais relevantes da pesquisa realizada entre março de 2021 e setembro do mesmo ano. No primeiro momento do estudo, foram 89 entrevistas aprofundadas, em 18 escolas públicas da Maré. Em seguida, foram aplicados 832 questionários, sendo 630 entre alunos do 6º ao 9º anos do Ensino Fundamental II e dos 1º,2º, 3º anos do Ensino Médio; 101 entre responsáveis; e 101 entre profissionais de educação. Nessa fase, a pesquisa concentrou-se em 13 escolas públicas da Maré (nove municipais e quatro estaduais), incluindo estabelecimentos de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e um de Ensino Técnico.

Três em cada quatro alunos contam que aprenderam pouco (48%) ou nada (26%), somando 74% do total. Mais da metade deles  − 57% − afirmou que sua vontade de estudar na pandemia diminuiu (33%) ou caiu muito (24%).Motivos apresentados:

  • Dificuldade de adaptação ao ensino remoto (35%)
  • Problemas de aprendizagem (28%)
  • Em relação à saúde mental, 41% dos estudantes afirmaram terem sido afetados – 257 crianças e adolescentes enfrentaram algum tipo de sofrimento psíquico.

38% dos estudantes não acompanharam as atividades remotas. Os motivos mais citados por ordem foram:

  • Não ter entendido o que era pedido;
  • Falta de internet
  • Ausência de um dispositivo eletrônico

De acordo com 87% dos profissionais de Educação, menos da metade dos alunos aderiu às atividades remotas.

70% dos profissionais de educação disseram que sua motivação para trabalhar durante a pandemia diminuiu. Da mesma forma, 72% relataram o agravamento de problemas de saúde mental e emocional. Quase todos os respondentes (95%) pediram ajuda a colegas ou pesquisaram na internet para atuar remotamente.

Acesse o estudo completo aqui.

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Tamyres Matos

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