Estamos chegando no jogo, lutando para ganhar

Há um ano, a Casa Preta promovia a roda de conversa com Maria Vitória e Helena Edir - Foto: Douglas Lopes

Maré de Notícias #117 – outubro de 2020

Por Joelma Sousa em 10/10/20 às 10h05

Mulher, preta, favelada, cria da favela da Maré, formada pela Escola de Serviço Social – Universidade Federal do Rio de Janeiro, pós-graduanda na Escola Sérgio Arouca – FioCruz ENSP.

Durante todo o período de escravismo em nosso país, que se inicia no Século XVI, o escravo negro foi aquele trabalhador presente em todos os ofícios, por mais diversificados que eles fossem. Sua força de trabalho era distribuída em todos os setores de atividade. Isso nos mostra que, durante toda sua existência, a sociedade escravocrata atuou como mecanismo equilibrador e impulsionador do trabalho negro escravo. No final do século XIX, a sociedade brasileira passou por uma reestruturação, adotando o trabalho livre como forma fundamental de atividade. Esse foi um período marcado por um movimento de construção da ideia de inferioridade do negro e da sua incompatibilidade para assumir o trabalho assalariado. 

O racismo estrutural é uma característica histórica do nosso país, que afeta as relações de trabalho, desde à contratação até os conflitos judiciais. A iniciativa da Empresa Magazine Luiza, juntamente com o ID_BR – Instituto de identidades do Brasil, de criarem uma  seleção exclusiva para negros nos cargos de liderança abre possibilidades para a ascensão dessas pessoas no mercado de trabalho, algo importante e fundamental para reparar historicamente as enormes perdas. Pessoas que sempre estiveram à margem dos processos seletivos podem, a partir de experiências, como a do Magazine Luíza, ocupar vagas que sempre foram destinadas ao trabalhador branco, como modelo de qualificação, larga experiência e com a velha e “boa aparência”. Porém, infelizmente, a iniciativa gerou uma enorme repercussão. E não foi boa. 

As ações afirmativas nos espaços de trabalho consistem em políticas voltadas para a aceleração de oportunidades, cujo projeto pioneiro realizou-se nos Estados Unidos, em 1964. Esse é um processo conhecido no Brasil pós-escravidão, que  implementou a entrada de imigrantes, ofertando políticas de distribuição de terras, aberturas de escolas, pagamentos de passagens etc. O que diferencia é o preconceito de cor, pois as políticas afirmativas eram baseadas na origem dos indivíduos, acreditando-se na existência de uma raça superior, a chamada eugenia, ainda presente no Brasil e fomentada pelo atual Estado brasileiro. Talvez, seja por isso, a indignação de muitos com a iniciativa do Magazine Luiza, vez que o racismo sempre existiu. Segundo estudiosos, o racismo é a essência do capitalismo, pois, quando se fala em emprego para os negros, toma-se por referência o subemprego,  a precarização, o  desemprego e a desigualdade salarial. Dados do IBGE revelam que 76% dos negros brasileiros têm a renda mais baixa do país. 

A sociedade em que vivemos é marcada por um sistema de opressão da população negra, edificado na dinâmica da escravidão. Temos vivido num mundo e num sistema que não é feito para nós, pretos, que não nos deixam ganhar. O que nos resta é a luta pela sobrevivência, e, em muitos casos, a morte. Além do desemprego e do subemprego, o racismo tem-nos esmagado e assassinado nossos corpos todos os dias, horas, minutos e segundos. O sociólogo Clóvis Moura já nos chamava a atenção sobre a herança da escravidão, cuja herança não está no corpo negro, mas sim, na consciência da classe dominante, criadora de valores discriminatórios, para impossibilitar o negro de ascender seja no nível econômico, social, cultural ou existencial. Clóvis reclamava, também, a emergência de uma consciência negra crítica.

Resistir para avançar

Temos lutado pela garantia dos nossos direitos dia após dia, tivemos grandes avanços com a conquista das ações afirmativas nas Universidades públicas, na primeira década dos anos 2000. Espaços, antes, reservados para os brancos considerados gênios, agora, ocupados por nós, pretos, pardos e indígenas. Estamos proporcionando um crescimento teórico e metodológico nesses espaços, pois as discussões ficaram muito mais acessíveis, com estudos que trazem dados sobre a importância da nossa inserção nas Universidades, e avançado para discussões acerca dos espaços de trabalhos e de lideranças. 

A Casa Preta da Maré propõe implantar discussões sobre as questões raciais e suas intersecções, com questões de gênero e de outros temas, no território da Maré. Assim, pode-se desenvolver ações culturais e de cunho formativo que proporcionem mudanças políticas e sociais para homens e mulheres negras, de forma a contribuir para eliminar a forte combinação existente entre gênero, raça e pobreza na sociedade brasileira. Não apenas na Maré, mas em diversos territórios, é extremamente importante promover debates que fomentam pensamento crítico e recuperação de memória. Afinal, somos geniais e brilhantes!

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