‘Estudar é um ato político’

A professora e escritora Adriana Kairos dedica sua vida a tornar a educação e a literatura acessíveis a quem vem da classe trabalhadora, da favela e da periferia – Foto: Matheus Affonso

‘Estudar é um ato político’

Cria da Maré, escritora Adriana Kairos dedica sua vida à educação e à literatura

Maré de Notícias #129 – outubro de 2021

Por Gracilene Firmino

O acesso à educação deveria ser garantido a todos – está na Declaração Universal dos Direitos Humanos. A busca pela efetividade desse direito se tornou a missão da professora e escritora Adriana Kairos, de 45 anos. Nascida e criada no conjunto de favelas da Maré, ela dedica sua vida a tornar a educação e a literatura acessíveis a quem vem da classe trabalhadora, da favela e da periferia. Filha de nordestinos, seus pais (pai polidor de mármores, mãe dona de casa), apesar de analfabetos, sabiam o valor da educação e incentivaram seus estudos. Desde cedo, Adriana tomou gosto pelo conhecimento.

Segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em julho de 2020, o Brasil ainda registra 11 milhões de analfabetos. Para Adriana, essa questão vai além da falta de estudos: envolve também muito preconceito. 

“Existe a questão social, a falta de escolas e de professores, mas observei que outros, como eu, tinham problemas com o aprendizado – queriam aprender mas não conseguiam. As pessoas tendem a achar que crianças não o fazem porque não querem e não é bem assim. Às vezes, vai além da dificuldade de aprender: são distúrbios que precisam ser descobertos, tratados e acompanhados. Esse indivíduo, seja criança, jovem ou adulto, precisa de uma atenção diferenciada e especial. Eu sei disso porque também precisei de ajuda”, conta a professora. 

Inclusão e educação 

Assim que ingressou no curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, Adriana percebeu que podia fazer mais pelo lugar de onde vinha e fundou um Clube de Reforço Escolar, em 2012. “As dificuldades dos filhos dos trabalhadores eram as mesmas que eu tinha com a idade deles. Comecei a observar o sistema educacional da cidade, que sempre foi muito ruim. A partir disso, junto com outras companheiras, pensei sobre esses problemas e organizei todo um projeto de educação. Assim, nasceu o Clube do Reforço Escolar. Minhas colegas, uma pedagoga e uma estudante de letras como eu, acabaram seguindo outros caminhos. Acharam o projeto muito utópico da minha parte. Mas, na minha opinião, todo educador é um pouco utópico”, diz.

Porém, para Adriana, o lugar ideal existe. “Acredito muito no que estou fazendo. O AKairos Curso Preparatório oferece mensalidades a preços populares, e ali eu trabalho com uma equipe multidisciplinar: tenho o apoio de psicólogo, fonoaudiólogo, e eu mesma estou fazendo uma pós-graduação em psicopedagogia, porque compreendo as dificuldades e os desafios da educação no nosso território”, explica.

Segundo ela, “quando falo isso me refiro a qualquer espaço de periferia. Várias coisas podem dificultar o caminhar por meio dos estudos e a inserção desse sujeito nesse meio. Porque daqui a algum tempo, ele estará no mercado de trabalho, e precisa de algumas coisas, esse trilhar precisa de ferramentas para que ele possa ter garantido seus direitos. Não apenas no mercado de trabalho, como também na vida. Poder ter acesso à educação faz toda a diferença. Estudar é um ato político”, conclui.

Kairos: o momento certo

Kairos é uma palavra de origem grega, que significa “momento certo” ou “oportuno”, e se refere à antiga noção que os gregos tinham do tempo, a partir do deus grego de mesmo nome. Kairos era filho de Cronos; ao contrário de seu pai, ele expressava uma ideia considerada metafórica do tempo. Para Kairos o tempo era não-linear, ou seja, não se pode determinar ou medir. Kairos seria o período ideal para a realização de uma coisa específica. Mesmo sem saber na época, Adriana escolheu um sobrenome que viria a combinar e fazer sentido diante de toda sua trajetória. Foi mãe aos 17, terminou o ensino médio aos 30, ingressou na universidade aos 32 anos e atualmente cursa sua pós-graduação. Para ela, o tempo não é linear. Adriana escreve desde os dez anos e, além de seu trabalho com diversos escritores na Alepa, já publicou seis livros. Por isso, seu próximo projeto é o Curso Eu Escritor – Da Escrita, a Preparação de Originais e a Publicação, para ensinar o “caminho das pedras” a entusiastas e escritores iniciantes. O projeto, que começaria em agosto deste ano, foi adiado para janeiro de 2022 devido a um agravamento na retinopatia diabética de Adriana, que causou uma perda acentuada de sua visão. “Acho que vai ser muito legal. Será o mês de férias da maioria. Ainda não tenho data de início, mas com certeza ele será ministrado no primeiro mês de 2022”. É o Kairos novamente. Tudo no momento certo.

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