‘’Eu sou da Maré’’

Dona Mercedes Maria das Mercês – Foto: Matheus Affonso

‘’Eu sou da Maré’’

Ao longo dos últimos 12 anos, mudanças no território melhoraram a autoestima do morador na Maré

Por Edu Carvalho 

          Desde sua criação, o Maré de Notícias tem como missão ampliar o olhar do morador da Maré, para que ele seja visto como ser de “possibilidade”, e melhorar a autoestima do cidadão, penalizado muitas vezes pelo estigma da violência por conta de conflitos no território. Potencializando as vozes que ecoam nas 16 favelas, o processo de maior visibilidade de quem vive no conjunto de favelas ganhou mais força ao longo desse período, com a realização de atividades que impulsionaram a Maré para o mundo. 

         ‘’Quando eu era moleque na Maré, muita gente tinha medo de falar que morava nela, porque o estigma sobre favelado era e continua sendo muito forte. Hoje, o morador perdeu um pouco disso’’, avalia Edson Diniz, um dos fundadores do Maré de Notícias. Para Edson, um dos ganhos nesse processo de disputa de narrativas sobre a integração do território à cidade se dá pela chegada de uma geração de jovens que discute os problemas das comunidades e ressignifica o lugar da carência no debate. Algumas dessas pessoas fazem parte do contexto político, como a deputada estadual do PSOL Renata Souza e a vereadora Marielle Franco, esta última morta brutalmente em 2018.

Eliana Sousa, diretora-fundadora do Maré de Notícias e da Redes da Maré.

         Mas isso não basta. ‘’Os moradores da Maré veem algumas de suas demandas sendo atendidas graças à sociedade. Em 12 anos, aprofundamos o processo de mobilização comunitária que já existia desde a década de 1970; quanto às políticas públicas, porém, não avançamos. É nesse lugar, do acesso, que reconhecemos a efetivação dos direitos’’, explica Eliana Sousa, diretora-fundadora do Maré de Notícias e da Redes da Maré. Houve melhorias significativas na autoestima da população, mas ela precisa ser garantida também pelo acesso a direitos, como a educação no conjunto. A Maré tem 44 centros de Ensino Fundamental. ‘’Precisamos fazer com que funcione de forma sistemática, regular e com qualidade’’, diz Eliana. 

           Como o Estado não assume nem implementa políticas que possibilitem as transformações necessárias, a sociedade civil foi responsável pela maioria dos avanços no território. É o caso de eventos como a Marcha da Maré e, recentemente, o #VacinaMaré, mobilização organizada pela Redes da Maré com a ajuda da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Secretaria Municipal de Saúde para realizar a campanha que vacinou mais de 37 mil moradores. ‘’Todos os processos que envolvem uma mobilização de moradores — seja na Maré, na Rocinha ou no Alemão — são problemas de uma cidade que é desigual. Temos que lutar por uma igualdade de acesso aos direitos; são movimentos importantes para enfrentar as desigualdades’’, diz Eliana.

Shirley Rosendo, uma das articuladoras para a criação do Maré de Notícia

         Para Shirley Rosendo, uma das articuladoras para a criação do Maré de Notícias, “com o passar dos anos, reconhecemos que os problemas estruturais que temos aqui é um reflexo da ausência de políticas públicas permanentes, e não de responsabilidade dos moradores’’. Segundo ela, mudanças positivas ocorreram no campo da saúde, sobretudo nos últimos anos, como a criação de mais unidades de saúde e, a partir de 2020, da implementação de equipamentos e serviços que ajudaram a mitigar os impactos da pandemia do coronavírus. ‘’O fato é que, para isso, precisamos estar juntos. Os moradores precisam participar desse processo’’, afirma.

          Shirley avalia que, em relação à segurança pública, grande parte das mudanças começam pela forma como o Estado vê os moradores das favelas: “Acho que o primeiro exercício que precisa ser feito é: se o direito à segurança pública — entendido como direito à vida e ao patrimônio — é de todos os cidadãos, como garantir esse direito a todos? Hoje se entende e se pratica um ‘direito’ à segurança que mais viola do que garante.” 

Ela lembra que uma das vitórias alcançadas por articuladores da Maré e demais comunidades do Rio foi a Ação Civil Pública (a ADPF das Favelas), na qual o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a suspensão das operações policiais nos territórios no período da pandemia. 

          ‘’Temos sempre que olhar para o lado bom das coisas, não dá pra só ficar reclamando. Os moradores muitas vezes falam que aqui [Maré] tem isso, tem aquilo, que conseguimos coisas que as outras não conseguem. Isso acabou deixando todo mundo  mais otimista, esperançoso de que vai conseguir mudar essa realidade’’, diz Helena Edir, moradora da Maré. 

Informação pela garantia de melhorias 

Hélio Euclides, jornalista e cria do território

          Um dos moradores que mais conhece e vive o dia a dia nas ruas da Maré é o repórter Hélio Euclides, colaborador do Maré de Notícias desde a primeira edição. Morador da Praia de Ramos, o jornalista é cria do território e nele mora com a família. Reconhecido como o “Hélio do jornal”, tornou-se uma antena para as demandas mais urgentes do local. 

          “A presença da comunicação comunitária sempre foi primordial na Maré. Durante um tempo, o jornal O Cidadão fez um importante trabalho em relação a essas mudanças’’, conta. Além do Maré de Notícias, o Maré Vive, o polo de dados data_labe e o Observatório de Favelas ajudaram a reunir dados e construir um real e importante perfil do morador e suas atividades. ‘’Se todo território tivesse uma comunicação comunitária sólida, seria perfeito. Não é dar voz ao morador; isso ele já tem. O que precisamos fazer é potencializar, aumentar sua visibilidade. Somos nós que fazemos, muitas vezes, uma ponte com o poder público para trazer soluções’’, avalia. 

         Para isso, é preciso registrar, em tempo real, as demandas dos moradores. É o caso do saneamento básico, um dos problemas que mais interferem na vida da Maré e que ganha destaque na versão impressa e online do jornal. Para Mercedes das Mercês, moradora da Maré, ‘’cada dia piora mais, ao invés de melhorar’’. Ela reconhece que muitas coisas evoluíram, como as atividades voltadas para crianças e jovens das comunidades, à cargo de organizações como a Luta Pela Paz e Uerê. 

          ‘’Fora o problema do saneamento, não tenho do que reclamar. Eu falo que moro na Maré, eu gosto daqui. Temos tudo e me sinto muito mais segura aqui dentro’’, diz a moradora que, para os próximos anos, quer ver estampada na primeira página do jornal uma única notícia: ‘’O saneamento básico melhorou.’’ 

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Aline Fornel

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