Eu vou chamar o síndico

Sônia Ramos é síndica há cinco anos do Condomínio Padre Manoel da Nóbrega, ao lado da Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, na Baixa do Sapateiro – Foto: Matheus Affonso

Eu vou chamar o síndico

Amado ou odiado, o gestor do condomínio pode até mesmo trabalhar de graça pelo bem comum

Por Hélio Euclides

Quem já não cantou o clássico Tira essa escada daí/Essa escada é prá ficar/Aqui fora/Eu vou chamar o síndico/Tim Maia! Tim Maia!? O cantor e compositor foi eternizado na música de Jorge Benjor pelo apelido de “síndico” por ser ranzinza e sempre exigir que o som em seus shows fosse, no mínimo, perfeito (Tim Maia foi síndico do prédio onde morava, na Barra). O apelido carinhoso brinca com a relação de amor e ódio que todo mundo tem com o gestor e representante legal do condomínio, eleito por assembleia — para o bem ou para o mal.

Segundo a Associação Brasileira de Síndicos e Síndicos Profissionais (ABRASSP), há 68 milhões de pessoas que moram em condomínios no Brasil, administrados por 421 mil síndicos e síndicas; destes, 39.189 estão no estado do Rio de Janeiro. Alguns transformaram o serviço em profissão: são os síndicos profissionais, carreira ainda não regulamentada. Na Maré, os síndicos são moradores que desejam o melhor para o espaço comum, como nos conjuntos Pinheiros e Esperança e na Baixa do Sapateiro.

Quem sabe muito bem o que é ser síndica é Adélia Fernandes dos Santos, de 71 anos, que atua na metade do Bloco 106, no Conjunto Esperança. Ela ensina que é necessário ser compreensivo e ter disposição de trabalhar. “É fundamental que todos se respeitem. É preciso ter organização, o que elimina a bagunça. Mesmo que seja como uma firma onde tem que ter autoridade, precisamos ver o prédio todo como nossa própria casa, que sempre precisa de cuidados e limpeza. Ser síndico não é só cuidar do dinheiro de todos; deve-se mostrar para onde essa verba vai, fazer as obras necessárias e trazer novidades”, ensina. 

Para Adélia, o papel dela é fazer o melhor para o condomínio, usando de  cautela para não deixar as contas no vermelho (ela é contra a cota extra). No seu mandato, eliminou a lixeira interna, que atraía insetos, e no lugar dela fez um banheiro para swer usado durante as festas — todas, aliás, com regras para acontecer. “É preciso autorização e horário para o fim. Se alguém vai montar piscina no terreno do prédio é preciso autorização”, destaca. O condomínio, além das obras, contratou uma zeladora para a limpeza geral. 

Segundo associação, há 68 milhões de pessoas que moram em condomínios no Brasil, com 421 mil administradores – Foto: Matheus Affonso

A contribuição de cada morador é de R$ 60 mensais. Por conta do valor reduzido, não há inadimplência mas, se porventura ela acontecer, Adélia procura o morador para saber o  motivo. “Pode estar em situação de doença ou desemprego, então fazemos um acordo de parcelamento. Na pandemia, a associação de moradores ajudou com cestas básicas muitos dos que estavam em condição difícil; ela  é parceira dos síndicos”, diz.

Pedro Francisco, presidente da Associação de Moradores do Conjunto Esperança, confirma a colaboração: “Juntos construímos uma comunidade melhor a cada dia. São homens e mulheres que trabalham sem salários e sem reconhecimento por parte de muitos moradores, mas que abrem mão muitas vezes dos seus afazeres e de suas famílias para cuidar do bem coletivo.” 

Mas nem todos gostam do título de síndico pela responsabilidade que o cargo representa. É o caso de Jacy José da Silva, de 68 anos, morador do Conjunto Pinheiros. Ele prefere ser definido como um colaborador na organização do Bloco 17. São quatro anos de luta para deixar sempre o prédio limpinho, apesar de não haver uma pessoa contratada para fazer a faxina. “Esse serviço de liderança não é bom nem ruim. Tem que ter jogo de cintura, pois é muito aborrecimento, em especial com a criançada bagunceira”, diz. “O segredo é que somos unidos, a maioria coloca a mão na massa, não há verba para muita coisa. Quando um não pode fazer algo, o outro ajuda. É preciso chegar junto, pois é um cuidado coletivo.”

A taxa mensal de condomínio é de R$ 30 mas, apesar do pequeno valor,  Jacy diz que há moradores que não pagam: “Por esse motivo, só podemos fazer obras quando juntamos o valor necessário. Não agradamos a todos. Mas uma certeza é que o prédio é um dos melhores do conjunto.”

Prós e contras

Se administrar a metade de um prédio é difícil, imagine nove blocos com 112 apartamentos. Esse é o dia a dia de Sônia Ramos, de 64 anos, síndica há cinco anos do Condomínio Padre Manoel da Nóbrega, ao lado da Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, na Baixa do Sapateiro. “Dá dor de cabeça, mas não é ruim. Tem que saber conciliar, ter espírito de liderança e tratar a todos com igualdade. Isso é uma missão, pois não recebo nenhum pagamento”, conta. 

Sônia dá dicas para quem deseja ser síndico, como não deixar as contas atrasarem, realizar manutenção como pintura, cuidar dos espaços, ter pulso firme e autoridade: “Um exemplo é que não se pode colocar roupa para secar na janela, faz parte da regra do condomínio, para que o ambiente não fique feio. Outro problema é a inadimplência, pois é da taxa de condomínio que tiramos o salário do zelador e realizamos obras.” A família dela não gosta muito pela quantidade de trabalho que a síndica acumula, mas não há nada que afaste Sonia do cargo: ela é candidata a mais um ano de mandato. 

Para ajudá-la nessa missão, Jielho Santana, de 51 anos, é o administrador do condomínio há seis anos, depois de cumprir mandato como síndico por oito. “É uma parceria entre os dois cargos. Tem pepinos, mas é legal a convivência com as pessoas. É preciso responsabilidade, levar o cargo a sério, economizar para realizar as obras, pensar que o condomínio é uma empresa, ser flexível para acordos, pois a pessoa pode não estar passando por uma situação financeira boa, e não tratar os assuntos com mão de ferro, para não formar inimigos”, afirma. 

Na gestão dos dois foi contratada a pintura dos prédios, além da manutenção das benfeitorias. Ambos destacam que há dois anos não há a necessidade de cotas extras. “Percebo que o serviço da síndica e do administrador não é fácil; o trabalho deles é de muita importância para que não haja desorganização. Se não fossem eles, os moradores fariam de qualquer maneira, seria uma confusão geral. Tenho orgulho de viver aqui”, conclui Elma Avelino, moradora do local.

Leis e regras para ser síndico

A eleição do gestor dos condomínios hoje não está mais a cargo do que estipula o regimento interno de cada prédio: sua função é regulamentada pela Lei nº 10.406, de 2002, dentro do chamado Código Civil dos Condomínios, que descreve suas competências e os deveres:

“Art. 1.348. Compete ao síndico:

I – convocar a assembleia dos condôminos;

II – representar, ativa e passivamente, o condomínio, praticando, em juízo ou fora dele, os atos necessários à defesa dos interesses comuns;

III – dar imediato conhecimento à assembleia da existência de procedimento judicial ou administrativo, de interesse do condomínio;

IV – cumprir e fazer cumprir a convenção, o regimento interno e as determinações da assembleia;

V – diligenciar a conservação e a guarda das partes comuns e zelar pela prestação dos serviços que interessem aos possuidores;

VI – elaborar o orçamento da receita e da despesa relativa a cada ano;

VII – cobrar dos condôminos as suas contribuições, bem como impor e cobrar as multas devidas;

VIII – prestar contas à assembleia, anualmente e quando exigidas;

IX – realizar o seguro da edificação.”

Na Maré, síndicos geralmente são moradores que desejam o melhor para o espaço comum, como acontece no Conjunto Pinheiros – Foto: Matheus Affonso

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Hélio Euclides

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