Favela por Favela: com 41 anos de fundação, Vila do João esbanja mocidade e potência

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A história da Vila do João, é mais uma reportagem da série Favela por Favela que conta a trajetória dos territórios da Maré

Maré de Notícias #154 – novembro de 2023

A Vila do João nasceu em 1982, construída no terreno que pertencia ao Ministério da Aeronáutica e foi adquirido pelo extinto Banco Nacional de Habitação (BNH). O fim da década de 1970 tinha sido de muita ansiedade e insegurança para os moradores da Maré: o Projeto Rio era um plano de urbanização da cidade e que previa a erradicação das palafitas. Ninguém sabia ao certo quem seria removido para as casas erguidas pelo governo. 

Foi então que os moradores se mobilizaram e criaram a Comissão de Defesa das Favelas da Maré (Codefam) para lutar pelos seus direitos — inclusive o de ocupar as casas que seriam construídas pelo BNH seguindo as normas do Programa de Erradicação da Sub-habitação (Promorar). As primeiras 193 habitações foram inauguradas com direito a placa, que ficava na Rua da Cidadania (antiga Rua Três). Na continuidade, o governo federal construiu o conjunto habitacional com 1.400 casas coloridas. O nome era uma clara homenagem ao então Presidente da República, o general João Batista Figueiredo e também uma imposição da ditadura na época. 

Duas creches inauguradas na época foram batizadas de Tia Dulce e Tio Mário, uma alusão à primeira-dama, Dulce Figueiredo, e ao Ministro do Interior da época, Mário Andreazza.

Comércio e mobilidade

Hoje a Vila do João é formada por 18 ruas e 24 travessas. Valtemir Messias, conhecido como Índio, é o presidente da Associação da Vila do João (AMVJ), e exalta a favela. 

“Temos um comércio exuberante, sem falar nos ambulantes e em duas feiras, sendo uma de frutas e outra de roupas. Só de ponto de moto taxi são quatro, o que ajuda na mobilidade. O que falta na comunidade é um olhar maior do poder público”, diz. 

Ele lembra o projeto da Prefeitura do Rio Viver com Mais Verde, que em parceria com a AMVL aumentou o número de árvores nas ruas.

Cléia dos Santos, conhecida como Tia Cléia, tem 76 anos e mora na Rua Iluminada (antiga Rua Dezoito) há 41 anos. Antes, Cléia morou numa casa de palafita da Nova Holanda. 

“Quando chegamos, aqui tinha o apelido de “inferno colorido” porque as casas tinham muitas cores. Para a gente, o que impressionava era o quintal grande. Para murar, precisamos do material de construção do governo”, lembra. 

Tia Cléia diz que, “no início, não tinha nada, nem sequer uma padaria, mercado ou escola. Para não deixar as crianças sem estudo, a Prefeitura na época fez uma parceria com escolas particulares de Bonsucesso. Hoje temos até farmácia que entrega os remédios na porta”, orgulha-se.

Voluntária

Ela conta que o primeiro posto médico abriu na Rua Dez e depois, foi transferido para a Rua Éden (antiga Rua Dezessete), administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Desde que a Escola Municipal Professor Josué de Castro foi inaugurada, em 1985, Tia Clélia é voluntária, ajudando na conservação dos espaços.

 “Já são três gerações de alunos e fiz boas amizades. Não tem dinheiro que pague o prazer de ser voluntária na minha comunidade e na nossa escola. Muitas vezes os alunos vêm me buscar em casa. Amo a Vila do João, esse lugar é tudo de bom, em especial as pessoas”, diz.

O nosso passeio continua na próxima edição e chega à fundação do Conjunto Esperança, em 1982. Até lá!

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