Jovens e adultos são os que mais devem temer à covid-19, segundo Fiocruz

Moradores da Maré durante colagem de lambe lambe com dados do boletim. Foto: Matheus Affonso

Jovens e adultos são os que mais devem temer à covid-19, segundo Fiocruz

Na Maré, assim como na cidade e estado do Rio, a maioria dos casos encontra-se na faixa de 20 a 59 anos; pessoas nessas faixas etárias ainda terão que esperar para serem vacinadas

Por Andressa Cabral Botelho, em 22/04/2021 às 19h15

Leandro Marques era um homem saudável, morador de Campo Grande, na Zona Oeste, e estava a três meses de completar 39 anos quando descobriu que estava com covid-19, em setembro do ano passado, quando o número de casos e mortes começava a diminuir. As notícias do seu estado de saúde chegavam pelo grupo da família, onde informaram das duas internações e pediram orações pela sua saúde, mas cerca de 15 dias após testar positivo, ele faleceu. Nos primeiros meses da pandemia, essa história poderia ser uma exceção. Hoje, parece ser uma regra. Dados recentes apontam para um crescimento vertiginoso dos casos entre os mais jovens, que são os últimos da fila da imunização.

Embora a covid-19 ainda apresente letalidade significativa para a população a partir dos 60 anos, as faixas etárias que apresentam os maiores números de casos pela doença compreendem pessoas de 30 a 59 anos. Na cidade do Rio, Leandro encaixava-se justamente na faixa etária que mais tem casos confirmados da doença: 50.275 pessoas entre as 248.600 tinham de 30 a 39 anos até a noite dessa quarta-feira (21). Juntando as três faixas, pessoas de 30 a 59 anos representam 56% dos casos na cidade, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES).

Quanto à juventude, engana-se que por eles serem mais novos que correm menos riscos. Embora os casos sejam mais expressivos entre pessoas de 30 a 69 anos, até o momento a cidade registrou 29.769 casos e 219 mortes confirmadas, totalizando em 12% dos casos do Rio. E mesmo que o número de mortes de jovens seja bastante inferior se comparado a outras faixas etárias (6.001 pessoas entre 70 e 79 anos morreram – é a faixa etária que mais pessoas morreram), ainda é importante não se descuidar.

Entre janeiro e março, o número de mortes aumentou 419% na faixa etária dos 40 a 49 anos e 353% entre pessoas de 30 a 39 anos, segundo Boletim Observatório da Covid-19, da Fiocruz. Caso não haja medidas restritivas para tentar minimizar a circulação do vírus na cidade, como consequência desse aumento pode-se esperar o aumento da fila de leitos de UTI e a impossibilidade de se realizar transferências para outros municípios. O estado, como um todo, tem uma taxa de ocupação de leitos em 87,1%, mas há municípios, como Itaguaí, que tem 100% de ocupação dos leitos de covid-19.

Maré segue a regra da cidade

Assim como no Rio, moradores da Maré que tem de 30 a 59 anos devem ficar atentos aos números, tendo em vista que representam 45,9% da população, segundo o Censo Maré de 2019. Dos 2.140 casos positivos no bairro, 1.163 são de pessoas que estão na faixa etária mencionada. De acordo com dados do boletim Conexão Saúde – De Olho na Covid, pessoas entre 40 e 49 anos são as mais afetadas (22,3%), seguidas por aqueles na faixa etária entre 30 e 39 anos (17,5%), seguidos por quem está entre 50 e 59 anos (14,4%). Num total, as três faixas etárias representam 54,3% dos casos da Maré. Os mais jovens, na faixa de 20 a 29 anos (18,8% da população do conjunto de favelas), também são um número expressivo de casos: foram 310 testes positivos em pessoas dessa idade desde que o programa de testagens começou na Maré, em agosto.

Paulo Barros (33) ficou por meses isolado por medo e por não aparecer nenhum trabalho de audiovisual. Desde janeiro, ele tem saído algumas vezes para fazer alguns freelas fotografando ou filmando em áreas abertas e criou um hábito: dias após fazer os trabalhos, o fotógrafo agendava uma testagem pelo aplicativo da Dados do Bem. Em um desses testes, no final de março, descobriu que contraiu covid-19, porém estava assintomático. Avisou aos familiares – ele mora com a mãe de 59 anos e a avó de 92, que já recebeu a primeira dose da vacina AstraZeneca – e às pessoas com que teve contato durante o trabalho para que também fizessem o teste, mas todos deram negativo. Ficou cerca de 15 dias em quarentena e após esse tempo, fez um novo teste para saber se poderia voltas às atividades.

Ele é um entre as 250 pessoas que testaram positivo na Maré entre 23 de março e 05 de abril, período em que o bairro apresentou um crescimento nos números de novos casos. Neste intervalo de 15 dias, houve um aumento de 89% de casos em relação às duas primeiras semanas de março. No decorrer do mês passado, Paulo percebeu um movimento grande de pessoas nas ruas próximas à sua casa, na Baixa do Sapateiro. Em um mesmo dia, foram três festas com cerca de 30 pessoas cada.

Resultado do superferiado e vacinação

Acompanhando os últimos boletins Conexão Saúde: De Olho na Covid, é possível perceber desde fevereiro, um aumento de novos casos confirmados na Maré, chegando em um pico na semana de 23 de março a 05 de abril, registrando 250 novos casos. A última análise, que compreende dos dias 06 a 19 de abril, aponta para uma queda de 24% no registro de novos casos – foram 152 novos casos nos últimos 15 dias. A análise foi feita justamente nas duas semanas seguintes do superferiado da cidade do Rio, expondo que, pelo menos na Maré, houve uma diminuição da circulação do vírus, que se reflete na redução de números de novos casos.

Dessa forma, o ideal é seguir respeitando as medidas de restrição para que os casos possam reduzir gradativamente, assim como seguir com o uso da máscara e respeitando o distanciamento social sempre que possível enquanto a vacina não está acessível a todos.

A partir do dia 26 de abril, pessoas abaixo dos 60 anos que tem comorbidades começam a ser vacinadas. Entretanto, para muitos ainda há uma longa espera até a chegada da imunização. O site Quando vou ser vacinado? faz uma estimativa de quando as pessoas serão imunizadas, utilizando como base o calendário de vacinação do estado de cada pessoa. Para quem está próximo da terceira idade, mas não possui nenhuma comorbidade, o momento é de espera, já que a vacinação que começa nesta segunda-feira ainda não irá beneficiá-lo. De acordo com o site, uma pessoa de 56 anos receberá a primeira dose do imunizante daqui a quatro meses.

Já aqueles que estão de saída da juventude e entrando na vida adulta, aguardar a vacinação é praticamente uma gestação. Para quem completa 30 anos em 2021, a expectativa de ser imunizado é daqui a 10 meses. 

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Andressa Cabral Botelho

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