O que pensam os moradores da Maré sobre o fechamento dos serviços no Rio?

Medidas restritivas durante ‘superferiado’ provoca incerteza na vida de quem mora no conjunto de favelas

Por Kelly San, em 24/03/2021 às 9h
Editado por Andressa Cabral Botelho

Na última terça-feira, 23, foi publicado no Diário Oficial um decreto que determina medidas  mais rígidas para conter o avanço da covid-19 na cidade do Rio, tomando como ação principal o lockdown, adotado recentemente em algumas cidades do país. No momento em que autoridades discutem o fechamento geral dos serviços não essenciais da cidade e do estado do Rio, a pergunta que se faz é: será que todos sabem o que é lockdown? Diante dessa questão, o Maré de Notícias foi às ruas da Nova Holanda, uma das dezesseis favelas do bairro, para saber a opinião de moradores a respeito deste termo em inglês muito comentado nos últimos dias. 

No contexto das favelas, esse termo ganha outra dimensão que deixam explícitos outros problemas para além do vírus covid-19, como a perda de renda e a segurança alimentar, temas recorrentes desde o início da pandemia. Embora haja preocupação com o crescente número de óbitos decorrentes do novo coronavírus, existe também um questionamento a respeito do fechamento sem medidas de assistências que garantam uma condição básica para ficar em casa. Em 2018, 10,3 milhões de pessoas encontravam-se em situação de insegurança alimentar, quando se tem incerteza no acesso à alimentação básica, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Com a pandemia, a questão da fome se agravou: em 76 favelas brasileiras, 68% das pessoas passaram pelo menos um dia sem conseguir comprar comida, de acordo com pesquisa feita pelo Data-Favela. Claudia Pitbull, de 50 anos, está receosa com as medidas, pois vive em situação de vulnerabilidade social: “se eu tivesse tudo o que preciso dentro da minha casa para me manter nesse período, meu arroz, meu feijão e ventilação, eu ficaria em casa”. Assim como Claudia, outros 23,3 milhões de brasileiros estavam em situação de vulnerabilidade social em 2019, de acordo com pesquisa realizada por Marcelo Neri, economista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Por outro lado, os números da pandemia também têm causado impacto: o 29º boletim Conexão Saúde – De Olho No Corona! mostra que desde janeiro os casos e mortes na Maré têm crescido: foram 141 no primeiro mês e 170 em fevereiro. Dentre as favelas que são contabilizadas no Painel Unificador Covid-19 nas Favelas do Rio, a Maré é a primeira em número de casos, com 3.155 pessoas infectadas. Assim como é difícil para muitos ficar em casa, estar na rua também é muito arriscado.

Fechamento gera incertezas

O impacto do lockdown para moradores de favelas e periferias precisa de um olhar mais cuidadoso para as inúmeras lacunas que se abrem. Alguns moradores se mostraram conscientes da necessidade das medidas adotadas pela Prefeitura da cidade do Rio, mas a preocupação com a garantia de itens básicos para se manterem se coloca como prioridade. Para Leandro Ocioly, de 45 anos, muitos dos serviços informais da Maré são de extrema importância para os profissionais, embora não sejam considerados essenciais: “Se a manicure deixar de fazer uma unha ela não vai ter o que comer”.

Muitos moradores ouvidos se queixam da diminuição do valor pago pelo Auxílio Emergencial, que voltará no mês de abril, e reclamam da burocracia e enxugamento da nova fase do programa. “Eu ganho por venda. Eu recebia o auxílio emergencial, mas aonde que esse valor pago pelo governo sustenta uma família? Eu preciso trabalhar”, conta Michele Gomes, de 36 anos, que trabalha no camelódromo no Centro do Rio. Além de diminuir a cota do valor pago, de R$600 para R$250, as novas regras do auxílio emergencial excluíram cerca de 11 milhões de beneficiários. “Eu nem sei se vou receber o auxílio emergencial. Foi difícil na primeira fase e quando a gente aprende a mexer [no aplicativo], eles mudam as regras”, lamenta Maria Cristina Olegário, de 60 anos.

Comerciantes e empreendedores estão preocupados com o fechamento do comércio, embora acreditem que essas medidas não funcionarão da mesma forma na favela. Entretanto, a preocupação com a compra de mercadorias para trabalhar é grande. É o caso da confeiteira Selenita Maurício da Silva, de 27 anos: “Não acho que o lockdown fará diferença na Maré e a minha preocupação com o comércio fechado é que eu vou ter que pagar mais caro pelos materiais dos meus doces.”

Quais as medidas tomadas?

Nas cidades do Rio e Niterói, as medidas começam a partir da próxima sexta-feira, 26 de março, e se estendem até o dia 04 de abril. Após a data, as medidas serão reavaliadas.

Estão proibidos: 
Todo o comércio e serviços não essenciais; 
Escolas, creches e universidades; 
Salões de bares, restaurantes e quiosques na orla; 
Boates, casas de festas e equipamentos culturais; 
Salões, espaços de estética e similares;
Banho de mar e a permanência na faixa de areia, sendo permitida apenas a prática de esportes individuais nas praias.

Estão permitidos: 
Farmácias;
Clínicas veterinárias e pet shops;
Unidades de saúde e consultórios médicos;
Feiras livres;
Bancos e loterias;
Lojas de materiais de construção; 
Serviços de entrega, drive thru e retirada em bares e restaurantes;
Templos religiosos (com restrições que ainda serão anunciadas);
Shoppings poderão abrir apenas para funcionamento de lojas de serviços essenciais.

Leia mais: ‘Vai ter multa!’: desrespeito à decreto de medidas restritivas pode terminar em prisão

Andressa Cabral Botelho

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