Mais do que uma profissão

Foto: Matheus Affonso

Mais do que uma profissão

Serviço social é um ofício em defesa dos direitos da população

Por Hélio Euclides, Jorge Melo e Isabella Poppe (*) em 15/05/2022 às 07h

Uma carreira em serviço social compreende várias vertentes, que têm como objetivo a garantia de direitos e acolher a  todos, em especial a população em situação de vulnerabilidade. Quem escolhe essa profissão pode atuar no planejamento, na implementação, na coordenação e na avaliação de políticas e de projetos sociais. Esse profissional pode promover tanto o bem-estar físico como o psicológico e social, nas áreas da saúde e educação, em diversos locais. O Dia do Assistente Social é comemorado em 15 de maio, data que remete à regulamentação da categoria.

Trabalhar num território é marcante, para alguns profissionais. Este é o caso de Alessandra Guedes, que atualmente está na equipe de gestão de uma Unidade de Acolhimento de crianças e adolescentes do município do Rio, mas não esquece a Maré. 

Sua caminhada na Maré passou pelo Curso Preparatório para Segundo Segmento e Ensino Médio. Na Redes da Maré, esteve na coordenação da primeira fase do Programa Nenhum a Menos. “São quase 20 anos de Maré, uma grande escola, daquelas que nos ensinam no meio de tantos desafios e reflexões o que é de fato acreditar no potencial das pessoas”, diz. Ela ainda participou do Projeto Conectando e do Pré-Vestibular, ambos na coordenação. 

Aprovada em um concurso público da Prefeitura do Rio, ela escolheu a Maré para trabalhar, primeiro no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) Nelson Mandela, e depois na Rede de Proteção ao Educando e no Programa Interdisciplinar de Apoio às Escolas (Proinape). “Tudo que sempre fiz é realmente por acreditar no potencial desses espaços e nas pessoas. Sou realizada em ver tantas mudanças, tantas conquistas, tantos profissionais mareenses, com quem tanto aprendi e aprendo”, diz. Uma dessas profissionais foi Denise Rocha, que era diretora do CRAS Nelson Mandela e morreu vítima de covid-19 em 2020. 

Para Alessandra, a assistência social precisa intervir de forma crítica e qualificada, analisando as condições de vida de cada um e orientando pessoas ou grupos sobre como ter informações, acessar direitos e serviços para atender às suas necessidades sociais. “Apesar dessas diversas atribuições, falta a valorização. O último concurso da Prefeitura do Rio para assistente social foi em 2006”, reclama. 

O amor a uma vocação

A assistente social Carla Pereira, que faz parte do Programa Interdisciplinar de Apoio às Escolas (Proinape) da Secretaria Municipal de Educação do Rio, atua na Maré há 19 anos. Ela começou como estagiária de Alessandra. Depois, já formada, trabalhou na primeira fase (2004 a 2007) do Nenhum a Menos, programa da Redes da Maré que oferece oficinas no contraturno escolar para crianças e adolescentes na Lona da Maré.

“Sabia pouco da profissão, da possibilidade de poder atuar com diferentes públicos e queria trabalhar com algo que ajudasse as pessoas. Na universidade, aprendemos que a profissão não é só ajudar os outros, na verdade se refere a auxiliar no exercício de direito. É contribuir para assegurar o acesso das pessoas às diferentes políticas sociais.”

Carla Pereira, assistente social

Para Carla, inicialmente o território não foi uma escolha. Na época ela estava com dificuldade para conseguir estágio e o local mais próximo era na Maré: “Mas depois de conhecer a história do bairro e as pessoas, me encantei. Quando entrei para a Prefeitura, atuar na Maré foi uma escolha consciente.” Ela afirma que a profissão é muito importante, sobretudo nesse cenário de sucateamento dos serviços e destruição das políticas sociais.

Alessandra Alves assistente social da Luta Pela Paz | Foto: Gabi Lino

Sua colega de profissão Alessandra Alves atua na organização Luta Pela Paz, na Nova Holanda. Ela lembra que a escolha da carreira foi muito por acaso: a intenção era tentar uma vaga para nutrição ou enfermagem — 90% de seus familiares são dessa última área, então a decisão pendia para esse campo.

“Só que percebi que a enfermagem não tinha nada a ver comigo. Então decidi fazer o vestibular para assistente social. Do início ao meio da faculdade fui me identificando com a profissão. A minha foi uma escolha feliz. Até hoje me sinto agradecida, mesmo sabendo de todos os percalços que existem em relação ao trabalho. É o que amo fazer.”

Alessandra Alves, assistente social que atua na organização Luta Pela Paz

A carreira 

Quem escolhe o serviço social como profissão pode atuar no planejamento, na implementação, na coordenação e na avaliação de políticas e de projetos sociais. Esse profissional pode promover tanto o bem-estar físico como o psicológico e social nas áreas da saúde e educação, em diversos locais. O Dia do Assistente Social é comemorado em 15 de maio, data que remete à regulamentação da categoria.

A disciplina de serviço social surgiu no Brasil com as primeiras escolas, no fim da década de 1930, período que deu início ao processo de industrialização e urbanização. O profissional formado é requisitado para o atendimento à população ou para a formulação e a execução de programas que possam viabilizar o acesso aos direitos e às políticas sociais. Eles elaboram pareceres, estudos, avaliações, analisam documentos, coletam e pesquisam dados. Também atuam no planejamento, organização, administração dos programas e na assessoria de órgãos públicos, privados, organizações não governamentais e movimentos sociais.

Uma instituição de assistencialismo 

A Legião Brasileira de Assistência (LBA) foi a primeira grande instituição de assistência social do Brasil, criada pela então primeira-dama Darcy Vargas, em 1942, durante o Estado Novo. A esposa do presidente Getúlio Vargas estabeleceu uma relação entre assistência social e patriotismo, reunindo mulheres da sociedade e demais “brasileiros de boa vontade” para “amparar os soldados brasileiros e seus familiares” durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

A institucionalização da assistência ficou, por isso, marcada pelo gênero: assa experiência colaborou no processo de profissionalização, pois a própria carreira de assistente social atraiu mulheres. Segundo o Conselho Federal de Serviço Social, no Brasil, existem aproximadamente 200 mil assistentes sociais, sendo que 92% deste total é de mulheres.

A LBA foi o primeiro órgão estatal de abrangência nacional para o enfrentamento da pobreza. No entanto, foi posteriormente usada como propaganda pelos sucessivos governos. Em 1991, sob a gestão da primeira-dama Rosane Collor, a entidade foi alvo de denúncias sobre desvios de verbas. Sem a representatividade necessária, a LBA foi extinta no primeiro dia de governo de Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1995. 

(*)  Isabella Poppe é estudante universitária vinculado ao projeto de extensão Laboratório Conexão UFRJ, uma parceria entre o Maré de Notícias e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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Jorge Melo

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