Maré de Iniciativas: Lab Semente amplia mapeamento de ações territoriais

Reunião de apresentação dos projetos desenvolvidos no Lab Semente e fechamento do ciclo da formação

Maré de Iniciativas: Lab Semente amplia mapeamento de ações territoriais

Por Maykon Sardinha e Jéssica Pires, em 13/02/2022 às 08h. 

Em 2021, a Redes da Maré, em parceria com o Itaú Social, uma frente de desenvolvimento social do Itaú, promoveu uma ação de incentivo e apoio a iniciativas tocadas pela juventude no Conjunto de Favelas da Maré. O objetivo dessa união de forças foi desenvolver e fortalecer as atividades desses jovens.  Foram selecionadas 5 iniciativas, que participaram durante seis meses de um processo de formação e mentoria e receberam um apoio financeiro para implantação das propostas criadas no laboratório. O Lab Semente também contou com um processo de mapeamento das iniciativas do território. O objetivo foi identificar quem são e como elas funcionam.

Mapeamento e diagnóstico das iniciativas

Se por um lado a fragilidade do Estado em promover e assegurar direitos se torna cada vez mais latente, especialmente em favelas, por outro, movimentos sociais ganham cada vez mais importância e relevância devido a sua atuação em atividades de interesse público. Muitas são as configurações desses movimentos: coletivos, organizações, grupos, projetos etc.  A fim de abarcar essa diversidade de propostas de atuação, nomeamos como iniciativas esses movimentos presentes na Maré.

O mapeamento consistiu em identificar essas iniciativas, principalmente aquelas que possuem poucos recursos financeiros, deixando de lado as grandes organizações. A partir de uma rede articulada entre as iniciativas que se inscreveram na chamada pública do Lab Semente e de indicações da rede de parceiros locais, foram mapeadas 56 iniciativas presentes nas 16 favelas da Maré.

Aliado ao mapeamento, foi realizada uma coleta de dados em forma de questionário, para a produção de um diagnóstico, que tinha como objetivo caracterizar a estrutura interna das iniciativas da Maré no que se refere ao seu modo de organização, práticas de mobilização, gestão e recursos humanos, equipamentos, trabalho em rede e relação com instituições públicas.  O questionário foi aplicado com os representantes das iniciativas e contou com 33 perguntas. Das 56 iniciativas identificadas no território, 26 responderam ao questionário.

“Nossa participação no Lab foi muito produtiva. Aprendemos a estruturar o nosso projeto, escrever de fato todas as etapas. Nesse percurso, refletimos sobre nossos objetivos enquanto coletivo e definimos ações para alcançá-lo. O Lab foi uma iniciativa que nos deu confiança para seguir com o Leituras na Favela e inclusive tentarmos alguns editais. Estamos muito felizes porque recentemente ganhamos o edital do Cultura nas Redes 2, o que só demonstra a importância do nosso projeto. Então vem muita coisa boa por aí”, compartilham Camila Mendes e Anderson Oliveira, jovens educadores idealizadores do “Leituras na Favela”, projeto de incentivo à leitura literária que ocorre por meio de oficinas de leituras, contação de histórias e ciclos de leitura.

Entre os dados coletados durante esse processo chamamos atenção para o fato de 69% dos grupos não serem formalizados, o que pode revelar dificuldades nesse processo. 77% dos grupos afirmam que articulam com outras iniciativas, o que evidencia a capacidade natural de mobilização dos coletivos na Maré, porém o mesmo número não conta com apoio financeiro de qualquer tipo.

Território e a importância das iniciativas na consolidação dos direitos

O Conjunto de Favelas da Maré é formado por 16 favelas distribuídas ao longo de 3 importantes vias de circulação na cidade do Rio de Janeiro: a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela. O conjunto é unido pela Baía de Guanabara, em sua margem direita, e pelo histórico de lutas na garantia de direitos. 

Segundo o Censo Maré, realizado em 2013, esse território é composto por uma população de 139.073 habitantes. Desse total, 27% são de jovens entre 15 e 29 anos, representando,  uma grande parcela da população local. 

Na Maré, os jovens são, historicamente, os responsáveis pela criação de movimentos que se articulam para a implantação de equipamentos públicos que atendam as necessidades básicas. Esses movimentos foram responsáveis pela implantação de 50 escolas e 8 unidades de saúde, por exemplo.

“Pensar qualquer processo de mobilização e lutas coletivas é um desafio, principalmente em contextos em que as pessoas precisam fazer tantas coisas para sobreviver. Mas uma coisa que vem me chamando atenção é o quanto os jovens vêm se articulando e se mobilizando através dos coletivos. E o quanto a internet vem facilitando esse processo. O whatsapp e outras mídias são ferramentas da que possibilitam o diálogo com a juventude e de engajamento desse público em lutas que ultrapassam o campo individual e vão para um campo coletivo”, chama atenção Lidiane Malanquini, assistente social, coordenadora do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré e uma das mentoras do Lab Semente.

Na medida em que os direitos básicos não são assegurados pelo Estado, de forma equânime para todos os cidadãos, os movimentos de base, em especial os movimentos de favela, representam a força motriz para a implementação e garantia desses direitos. 

Historicamente os movimentos sociais são os responsáveis pelos tensionamentos que promovem justiça social. Haja vista os movimentos por direitos civis e políticos durante a ditadura militar, que culminou com a elaboração da Constituição Cidadã de 1988.

Apesar dos avanços promovidos por esses movimentos, a consolidação dos direitos é um processo que requer continuamente o engajamento da sociedade para a sua efetivação. As iniciativas presentes hoje no Conjunto de Favelas da Maré, dão um sinal de que a juventude está atenta às problemáticas sociais e estão, ainda que sem apoio, visibilizando e criando estratégias de resolução desses problemas. 

“Como é mais do que sabido, a juventude favelada e de territórios populares, e principalmente a população jovem negra é a que tem o direito à vida mais violentado, além de inúmeros outros direitos que lhes são negados ou para os quais o acesso é precário. No entanto, nesse ambiente, a população de um modo geral, mas especialmente a juventude, de uma forma muito vibrante e plural, não se acomoda, inventa e reinventa uma cultura diversa que expressa o que o prof. Jorge Barboza chama de “estéticas de atitude” que implicam uma reivindicação de reconhecimento, visibilidade e direitos, entendendo as favelas como “territórios populares de invenção da cultura urbana”. Isso também é fazer política e disputar à cidade”, conclui Daniela Ferreira, gestora cultural, diretora adjunta e coordenadora de projetos especiais do Instituto d’O Passo e mentora do Lab Semente.  

“Mas não podemos romantizar essa energia da juventude. Para mim foi muito tocante acompanhar o processo e ver muitas vezes as distâncias entre os desejos e as possibilidades de escolhas reais. Daí a importância de projetos como o Lab Semente para dar apoio e ferramentas para que essa juventude possa seguir assumindo o seu lugar de protagonismo, sabendo que não estão só nessa luta”, complementa e finaliza Daniela.

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Edu Carvalho

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