Apreensão e animação marcam retorno às aulas presenciais na Maré

Professora Simone Werneck durante atividade em sala de aula na Escola Municipal Professor Paulo Freire, na Vila dos Pinheiros | Foto: Arquivo pessoal

Apreensão e animação marcam retorno às aulas presenciais na Maré

Escolas municipais do Rio tiveram seu retorno às atividades presenciais na última segunda e mareenses relatam a experiência do recomeço após quase 2 anos

Por Hélio Euclides e Tamyres Matos, em 10/02/2022 às 10h

O frio na barriga característico do primeiro dia de aula, o reencontro com os amigos após o período de férias… tudo isso intensificado por um afastamento de quase dois anos e ainda protegido por máscaras. Crianças e adolescentes das 46 escolas municipais do conjunto de favelas da Maré vivem essa reconexão com o aprendizado fora das telas desde a última segunda-feira (7).

Professora da Escola Municipal Professor Paulo Freire, na Vila dos Pinheiros, Simone Werneck compartilha suas observações sobre os primeiros dias e a reação dos jovens alunos. “As crianças sempre voltam animadas, saudosas e com muita energia. Estou com duas turmas de primeiro ano e percebo no olhar deles a alegria de estar no espaço escolar e a vontade de aprender”, conta.

No entanto, as preocupações com a pandemia de covid-19 ainda não estão no retrovisor. A situação epidemiológica do Rio de Janeiro ainda demanda atenção e a adesão à imunização infantil ainda evolui a passos lentos. De acordo com a Secretaria de Saúde do Rio, apenas 39% das crianças entre oito e onze anos de idade haviam sido vacinadas contra a covid no Rio até o início do mês de fevereiro. A taxa representaria a adesão é a mais baixa da história da capital fluminense a uma campanha de vacinação infantil.

“Ficamos com medo com o retorno presencial, pois quando estão perto da gente (as crianças) passam álcool na mão e usam máscara. Agora longe, como vai ser? A escola precisa oferecer o mínimo: água, sabão e ventilação. Fico com o coração apertado, mas fazendo a minha parte, que é enviar a garrafinha de água, máscaras, álcool e recomendando o distanciamento, no momento sem abraços aos amiguinhos”, afirma, apreensiva, Raimunda Sousa, mãe de Izabella, de 10 anos e Alice, de 8 anos, ambas alunas na escola Paulo Freire.

A professora Simone tem as mesmas preocupações que Raimunda: “Ainda tenho muito medo, pois a escola não tem ventilação adequada, não há quantitativo suficiente de funcionários de limpeza, além do número elevado de alunos em sala de aula. Porém entendo a necessidade de volta e acredito que aos poucos vamos nos adequando a esse novo momento de volta”, diz.

Pedro, de 6 anos, estuda na Escola Municipal Primário Osmar Paiva Camelo, no Campus Maré I, na Nova Holanda. A mãe do pequeno, Karla Rodrigues, acredita que o retorno ocorre no momento certo | Foto: Arquivo pessoal

Apesar da apreensão, a Prefeitura do Rio tem buscado tranquilizar pais e alunos para a segurança da decisão tomada nesse momento. Segundo o secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha, o planejamento permitiu que o retorno às aulas no formato presencial ocorresse da forma mais preparada possível. 

“Nesses últimos meses tivemos muitas intervenções e melhorias nas infraestruturas das nossas escolas, com mais de R$ 150 milhões investidos, para que as unidades estivessem prontas. Temos também o nosso protocolo sanitário aprovado pelo comitê científico, o que dá segurança necessária para o ensino presencial. A gente deixa claro que a escola deve ser a última a ser impactada em qualquer circunstância e preservada o máximo possível. Lugar de criança é na escola. A escola é insubstituível, pois tem um papel importantíssimo na aprendizagem, na alimentação das nossas crianças, no acolhimento socioemocional e na convivência social. Criança precisa de criança e o melhor lugar para elas interagirem é nas nossas escolas”, declara.

Perrengues do ensino remoto e importância da vacinação

Além de aprofundar as desigualdades socioeconômicas, a educação a distância prejudica a socialização e a saúde emocional dos jovens. Por exemplo, uma pesquisa realizada pela Redes da Maré com o apoio do Fundo Malala apontou que 3 em cada 4 alunos não têm computador em casa para acompanhar o ensino remoto. Além disso, há muitas reclamações sobre a qualidade do sinal de Internet que chega às casas.

“O período remoto foi muito difícil, mas necessário, perante ao momento pandêmico. Houve muita dificuldade de acesso das crianças às aulas devido à exclusão tecnológica, aos poucos fomos nos adaptando a outra realidade bem distinta ao que estávamos acostumados. E o momento de retomada ainda foi mais difícil pois ficamos um longo período distantes e havia muitas medidas novas para adaptar. Foi um aprendizado para os alunos e para os professores, reaprendemos a nos comportar de uma maneira mais formal, mais polida, mas ainda assim, amorosa”, conta Simone.

Avanço da vacinação infantil contra a covid-19 é primordial para a segurança das crianças e adolescentes | Fabio Motta / Divulgação/ Prefeitura do Rio

Em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora do grupo de trabalho da Fiocruz para produzir recomendações sobre a prevenção da covid-19 no ambiente escolar, a pneumologista Patrícia Canto afirma que a vacinação é uma das principais ferramentas para tornar o ambiente escolar mais seguro. Segundo a especialista, as pessoas imunizadas, mesmo quando contaminadas, tendem a ter menores cargas virais para a transmissão da doença. 

“É importante que a gente faça campanhas para que os pais levem os filhos para que possam ser vacinados e é importante que os pais sejam vacinados, porque essa também é uma forma de proteção das crianças”, diz.

A mareense Karla Rodrigues celebra que o retorno das aulas se tornou possível graças ao avanço da vacinação. “O início do ano letivo presencial me parece adequado nesse momento. E uma consequência da campanha mundial de vacinação. É uma tentativa para voltar à normalidade que a vacinação foi acelerada para nos atender. Penso que é esse o caminho”, opina.

Hora de voltar para a escola

A evasão escolar tem preocupado as organizações sociais e as autoridades de educação. Segundo o estudo Cenário da Exclusão Escolar no Brasil – um Alerta sobre os Impactos da Pandemia da Covid-19 na Educação, em 2020, 5,1 milhões de crianças e adolescentes perderam o vínculo escolar. Os motivos podem ser muitos, desde a necessidade de trabalho, para que os jovens consigam ajudar a família, quanto por medo de reprovação, por não se sentirem capacitados ou até mesmo por não terem quem leve uma criança pequena para as aulas.  

Nesse cenário, de recuperação após o avanço da vacinação, foi lançada a campanha “Bora pra Escola!”, pelo Centro de Referências em Educação Integral. O objetivo é mobilizar estudantes que abandonaram a escola durante a pandemia a voltarem para a escola. Mais de 30 organizações sociais de todo o Brasil se uniram nessa mobilização.

Confira 10 dicas da Secretaria de Estado de Saúde para o retorno às aulas

1 – Higienize os materiais que vão e voltam à escola;

2 – Não envie brinquedos neste momento. Certifique-se de que seu filho leve para a escola apenas o essencial;

3 – Envie máscaras extras que ofereçam a devida proteção para que possam ser trocadas quando necessário ao longo do dia;

4 – Inclua frasco de álcool em gel nos itens pessoais;

5 – Oriente para que forre a pia com papel toalha na hora de escovar os dentes;

6 – Oriente seus filhos a não emprestar itens pessoais, como copos, material escolar nem tubos de pasta de dente;

7 – Lembre seu filho de se sentar afastado do colega quando fizer as refeições;

8 – Verifique a temperatura dos estudantes antes da ida à escola. Caso o resultado seja mais de 37,5°C, deve-se procurar serviço médico e a escola deve ser comunicada;

9 – Também não devem ir à escola estudantes, responsáveis e servidores que apresentarem ao menos dois sintomas gripais, como obstrução nasal, diarreia, calafrios, dor de garganta, dor de cabeça, tosse, coriza e alterações no paladar e olfato;

10 – Beijos e abraços ainda precisam ser evitados, mas podemos criar um jeito novo de cumprimentar nossos amigos: que tal um ‘soquinho’ ou ‘bate cotovelo’?

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Tamyres Matos

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