Visibilidade trans e travesti é sobre respeito à vida

Mensagem durante a 1ª Mostra de Cultura e Cidadania LGBT de Favelas, em 2017, reforça que amar é um direito que vale a todas as pessoas – Foto: Elisângela Leite

Visibilidade trans e travesti é sobre respeito à vida

Em um país com preocupantes índices de violência transfóbica, normalizar corpos e vivências diversas é uma luta diária, urgente e de todos

Por Tamyres Matos, em 18/01/2022 às 07h. Editado por Edu Carvalho

A discussão sobre a transexualidade ganhou o mundo nos últimos anos. Seja em novelas da Globo – personagem Ivan em “A força do querer” – ou em séries de sucesso da Netflix, a vivência transgênero entrou para a pauta de debates e para a agenda cultural. Mas isso está longe de ser suficiente. Neste mês da visibilidade trans, é importante ressaltar que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis do mundo e que a marginalização desta parcela da população contribui diretamente para isto.

Para Indianarae Siqueira, transvestigênere* presidente do grupo Transrevolução e fundadora e coordenadora do espaço de acolhimento CasaNem, o tópico mais urgente deste momento (ainda) de pandemia é a sobrevivência da comunidade trans frente ao cenário de degradação social. “A experiência de abandono nós já temos desde a epidemia de Aids. Nós conhecemos bem o distanciamento social e físico da sociedade hétero-cis-normativa. Aliás, é o que a gente mais sabe fazer. E isso acontece por conta da nossa segurança física mesmo, além da situação com o vírus. Acredito que o mais importante nesse momento é mostrar que temos direito à cidade, a ocupar diferentes espaços. É essencial que as pessoas nos vejam como cidadãs de fato participando da vivência nos mais diversos lugares”, acredita.

Indianarae Siqueira, transvestigênere* presidente do grupo Transrevolução e fundadora e coordenadora do espaço de acolhimento CasaNem.

Gilmara Cunha, que recebeu, em 2015, uma Medalha Tiradentes pelo seu trabalho no grupo Conexão G, tem o pensamento alinhado com o de Indianarae. Cria da Maré, a estudante de psicologia chama a atenção para um dado marcante: a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anos, o que representa metade da média nacional. “Isso é inadmissível. É preciso que se efetive, com urgência, o direito à vida. Corpos trans ainda são invisibilizados e marginalizados dentro e fora da favela. Mas para corpos favelados e especialmente corpos pretos, a violência é maior. Quando tratamos de população trans preta e favelada, fica ainda mais difícil acionar os mecanismos formais de proteção contra violência, com a presença do estado só como braço armado”, relata.

Gilmara Cunha, ativista LGBTQUIA+ da Maré. Arquivo Pessoal

Gilmara e Indianarae são figuras reconhecidas por seu importante trabalho, ambas seguem na luta com 37 e 50 anos de idade, respectivamente. A paranaense Indianarae – que também se identifica como Indianare e vive no Rio desde 1996 – teve sua vida contada em um filme exibido no Festival de Cannes, em 2019. Aos 27 anos, a acompanhante Ludmylla, mais conhecida como Mylla, ressalta o quão vital é falar sobre os corpos trans para que suas existências não sejam vistas como algo à parte da sociedade. “Isso (o mês da visibilidade trans) significa muito pra gente. Precisamos que as pessoas vejam que somos exatamente como elas: seres humanos de luz e merecemos brilhar como todas as outras pessoas”, afirma.

Mylla, moradora da Maré. Foto: Matheus Affonso.

Avanços e combate à marginalização

Pela primeira vez na história uma atriz trans foi premiada pelo seu trabalho com o Globo de Ouro (uma das mais importantes honrarias do universo cultural). Aos 31 anos, MJ Rodriguez recebeu no dia 10 de janeiro o prêmio de Melhor Atriz pela série “Pose”, da Netflix, e declarou que tinha o sonho de mudar a mente dos outros com amor. “O amor vence. Para meus jovens bebês LGBTQIA, estamos aqui! A porta está aberta. Agora, alcancem as estrelas”, celebrou.

É um consenso na comunidade trans de que houve melhoras ao longo dos anos. “Nós, que integramos a luta desde os anos 90, sabemos: não podíamos sair de casa durante o dia sem que a polícia nos levasse para a delegacia. Tinha que ter muita passabilidade (possibilidade de ser reconhecida como uma mulher cisgênero, ou seja, com aquelas que se identificam com o gênero de nascimento) ou não ser conhecida pela polícia porque você podia ser presa por vadiagem, sem motivo nenhum. Hoje ainda continua existindo a violência, mas as coisas mudaram”, explica Indianarae. Esse cenário é retratado no seriado “Pose”, em sua leitura estadunidense.

Então quais foram esses avanços? Com muita luta, as pessoas trans passaram a ter seu direito ao nome social reconhecido; foi aprovada a mudança de nome no registro civil sem necessidade de cirurgia; o processo transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS) está garantido; o direito à doação de sangue; retirada da classificação da transexualidade como transtorno mental (somente em 2018) e a criminalização da transfobia. Mas a jornada está apenas começando.

Para Gilmara, as pessoas cis precisam fazer diversos questionamentos para que continuemos avançando. “Quantas amigas trans você tem? Quantas pessoas trans estavam na sua ceia de Natal? Com quantas pessoas trans você já namorou? Com quantas pessoas trans você já trocou uma ideia à luz do dia? O primeiro passo é desmarginalizar essas vivências. Tem muito desconhecimento sobre a população trans e o desconhecimento é a base do preconceito. Pessoas cis precisam se abrir pra conhecer sobre essas vivências e as principais demandas pra se juntar na luta”, aponta a ativista.

A mareense aponta que, para que a violência extrema, como os casos de assassinato, aconteça, é preciso que muitos outros tipos de agressão sejam aceitos.

“Pessoas cis devem se responsabilizar por reverter essa situação, não foram as pessoas trans que criaram a transfobia. Contrate pessoas trans para trabalhos, convide pessoas trans pras comemorações, defenda-as em situações de violência, questione as ‘piadas’ transfóbicas nos seus grupos, declare seu apoio à causa, esteja aberta para acolhimento.”

Gilmara Cunha, que recebeu, em 2015, uma Medalha Tiradentes pelo seu trabalho no grupo Conexão G.

Indianarae reforça que, por mais que as pessoas cis precisam “reconhecer seus privilégios, seu lugar e debater as questões das pessoas trans, falar dessas pessoas para que se torne algo natural. Se colocando no lugar de escuta e ouvindo as necessidades dessa comunidade”, diz.

Importância dos dados e da informação

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) surgiu em 2018 com um grito de alerta representado pelo tema: “Resistir pra Existir, Existir pra Reagir”. O objetivo do coletivo é chamar a atenção para as graves violações de direitos humanos da população de travestis e mulheres transexuais no Brasil. No texto de apresentação no site, Keila Simpson, presidente da associação, clama sem rodeios: “Estamos à mercê de nós mesmas. Quem chora por nós? Quem vai contribuir com a vaquinha pra enterrar mais uma pra que não seja enterrada como indigente? Sim, porque ‘abjetas’ já somos, a sociedade já nos cunhou esse adjetivo”.

O ano de 2020, para além das tristes marcas com as mortes da pandemia, tem outra mancha: foi o ano em que foram registrados 175 assassinatos cujas vítimas eram pessoas que expressavam o gênero feminino em contraposição ao designado no nascimento. Desta maneira, ocupamos o primeiro lugar em crimes deste tipo e ainda superamos os dados dos anos anteriores.

“Os dados apresentados, além de denunciarem a violência, explicitam a necessidade de políticas públicas focadas na redução de homicídios contra pessoas trans, traçando um perfil sobre quem seriam estas pessoas que estão sendo assassinadas a partir dos marcadores de idade, classe e contexto social, raça, gênero, métodos utilizados, além de outros fatores que colocam essa população como o principal grupo vitimado pelas mortes violentas intencionais no Brasil”, diz o texto da pesquisa.

Para Gilmara, o dia 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais, ainda é necessário para visibilizar a luta trans, chamar atenção para a situação de vulnerabilidade que marca essa parcela da população. “Estamos organizadas demandando direitos iguais, uma vida digna e livre de sofrimento, garantia de acesso a políticas públicas, ao mercado de trabalho formal. As pessoas trans precisam ter o direito de não serem expulsas de casa por serem quem são, o direito de serem acolhidas nas escolas e nos mais diversos espaços. Visibilidade trans é sobre denunciar o número assustadoramente alto de pessoas trans assassinadas todos os anos no Brasil, mas também sobre chamar atenção para como as vivências trans são também sobre sonhos e potências”, sentencia.

*O termo transvestigênere, que reúne as identificações trans, travesti e transgênero, foi criado recentemente por Indianarae e pela vereadora de São Paulo Erika Hilton.

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Tamyres Matos

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