Morador do Conjunto Pinheiros compartilha histórias de vida antes e depois da remoção

Conhecido como Zé Gordo, morador relata mudanças no território ao longo dos anos. Foto: Gabi Lino

Morador do Conjunto Pinheiros compartilha histórias de vida antes e depois da remoção

Conhecido como Zé Gordo, mareense conta sua trajetória no território.

Por Hélio Euclides, em 26/04/2022 às 07h. Editado por Edu Carvalho 

“Conjunto de fatos ou acontecimentos relevantes, ocorridos no passado da humanidade, destacando-se época, local e dados importantes.” Essa é a definição da palavra história segundo o dicionário Michaelis. Mas a história é algo ainda maior, é a emoção, a trajetória e a vida de uma população. Essa trajetória que mareenses tentam resgatar contando a sua vivência que se mistura com as linhas históricas da Maré. Nivaldo Braga de Lima, de 62 anos, conhecido como Zé Gordo, morador do Conjunto Pinheiros, é um desses personagens que sente a necessidade de contar um pouco das memórias para o Maré de Notícias, em depoimento a Hélio Euclides.

Nasci no Hospital Estadual Getúlio Vargas, mas o meu berço foi a Rua 29 de Julho, no Parque Maré. Nela, na infância, brincava no mangue, nas pontes e de pique bandeira. Já meu apelido veio da minha mãe. Ela era nordestina, não sabia ler e nem escrever, mas era supersticiosa. Não queria que ninguém soubesse o nome dos filhos, com medo de alguém fazer mal, então apelidava todos. Lembro dela com saudades, era uma pessoa que fazia os chás para a nossa saúde, como saião para coração, saião com leite para tirar o catarro, erva cidreira com capim limão para acalmar e boldo para a barriga.

A vida não era fácil, as bicicletas eram alugadas. Mergulhava na área onde fica a Baixa do Sapateiro e no final da Rua Principal, conhecido na época como barro vermelho. Ajudava a família com o rala rola, onde íamos pegar água no bicão. Era um tempo onde a família incentivava que a criança tomasse todas as vacinas. Elas eram tomadas na Praia de Ramos, no Centro Municipal Américo Veloso. Não se pode esquecer do vendedor de biscoito Globo que cantava: chora neném para mamãe comprar biscoito.

Nós tínhamos liberdade, mas também educação como os mais velhos. Subia e descia o Morro do Timbau. Nadava até a ponta do estaleiro, onde é a entrada da Vila dos Pinheiros e a Ilha dos Macacos, atual Parque Ecológico. Na época não sabia que o local era da Fundação Oswaldo Cruz. Caminhava na Favela da Portinha, onde agora é a Bento Ribeiro Dantas. Tomava banho na Prainha de Inhaúma. Vi essa favela crescer.

Éramos uma família de três filhos. Meu pai trabalhava na Fábrica de Doces Pilares e minha mãe fazia faxina. Estudava na Escola Pe. Francisco Domingues Carneiro, na Igreja dos Navegantes. Levava para escola pão com manteiga Claybom que vinha na lata. O ruim era que sujava o caderno. Na época os professores eram rígidos, com a bagunça Dona Irani dava beliscão e batia na mão de régua. Também tinha fama uma diretora na Escola Bahia que se chamava Cleide, que os alunos tinham muito respeito. Estudei até a quinta série. Era um tempo que estudava ou trabalhava, então tive que largar o caderno e o lápis.

A Maré tinha lideranças e pessoas marcantes como Ivan Neguinho, o Evanildo Alves, que tinha o apelido de Seu Baia, Dona Moura, Severino Gordo, Biu, Dona Edite, Seu Campista Barbeiro e Manoel Tampinha. Uma coisa que merece destaque era a cultura local. O samba corria solto na quadra do Mataram Meu Gato, na Nova Holanda, no Magno, na Baixa do Sapateiro e no Corações Unidos, no Morro do Timbau, que começou no Largo do Centenário. O forró ficava por conta do Bola Branca, no Parque União e o Risca Faca, na Rua Principal. Na Maré ocorriam as tradicionais festas juninas da Rua Guanabara, da Rua Flávia Farnese e Rua 29 de Julho, no Parque Maré.

Já fora da Maré, a diversão ficava nos bailes. Só era necessário se desvencilhar das brigas de grupos de danças, como os ocorridos no Chaparral, de Ramos e no Bonsucesso Futebol Clube. Não se pode esquecer do Festival do Chopp, no Lespam (Liga Esportiva da Marinha). Lembro com saudade do Clube York. Os moradores iam assistir os filmes nos cinemas de Olaria, o Cine Santa Helena e o Cine São Geraldo, esse último era conhecido como poeirinha e ficava próximo ao ponto final da linha de ônibus 484. Em Bonsucesso o local era o Cinema Melo, que depois virou Casas Sendas e hoje é o atual Supermarket. Em Ramos, as estreias ficavam a cargo do Cine Rosário.

Tem acontecimentos que não saem da cabeça. Não consigo esquecer do incêndio do Duplex, local de moradia da Nova Holanda. Não tinha água, então a solução foi pegar água da própria maré para apagar o fogo. Os avanços vinham por meio de lideranças. O nosso ponto de energia elétrica era de responsabilidade do Zé Luiz. Já o morador da palafita tinha como sonho aterrar o terreno, depois passar o vermelhão no chão e encerar para brilhar. Era comum nas datas de festas ir ao galinheiro e pedir para matar galinha. Se pedia para não deixarem o sangue talhar, pois faziam cabidela, conhecido como ao molho pardo.

No baú das memórias, Zé Gordo traz consigo recordações da sua vida que se entrelaçam com a Maré. Foto: Gabi Lino

Remoção é uma mudança nos rumos da vida

Um dia recebemos a notícia que ocorreria a remoção, por meio do Projeto Rio. O motivo que foi apresentado era abrir uma rua, próximo à casa do Biu. Colocamos tudo no caminhão da mudança e em 1986 cheguei no Conjunto Pinheiros, ao Bloco 17. Tudo era novidade, um local de apartamentos ventilados e com janelas, onde se via toda a comunidade. Na época da remoção, poucos se adaptaram. No prédio só ficaram eu e mais sete moradores antigos. A maioria vendeu e voltou para o Parque Maré. Acho que o motivo foi que nos barracos todos eram muito amigos, aqui nos prédios se morrer alguém ninguém nem sabe.

Também percebi mudanças ao longo dos anos por aqui. Antes tinham uns campos de futebol, que depois fizeram o Kinder Ovo, galpões improvisados que moravam 25 famílias para um único banheiro. Depois surgiu no lugar o Marrocos atrás do Ciep Ministro Gustavo Capanema. Nesses tempos vi empresas que investiram na Maré, como o Colégio Santa Mônica e os postos de saúde da Golden Cross, no pé do Morro do Timbau e na Nova Holanda. Já as festas ficam devendo, os bolos das festas eram enormes, com frutas em cima, hoje são pequenos e os pedaços minúsculos. 

Sempre conto que só saio daqui do Conjunto Pinheiros se ganhar na loteria, para morar no Jardim Guanabara, na Ilha do Governador, algo improvável. No fundo do coração, quero ficar por aqui, pois sou feliz na Maré.

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