Movimentos culturais LGBTQIA+ da Maré

Performance de 2019 do projeto Eeer de ativismo LGBTQIA+ – Foto: Matheus Affonso

Movimentos culturais LGBTQIA+ da Maré

Conheça as iniciativas que incentivam a produção por meio da diversidade na Maré 

Por Dinho Costa e Matheus Affonso em 28/07/2021 às 08h

No intuito de saber mais sobre a história mareense desses grupos, o coletivo Entidade Maré, criado pelos pesquisadores e artistas multilingues LGBTQIA+ Wallace Lino e Paulo Victor Lino, fez um experimento a partir da pergunta “O que você sabe sobre os LGBTQIA+ da Maré?”. O questionamento expressa a falta de dados e de documentação sobre a trajetória dessa comunidade nos territórios.

 O coletivo, em seu novo trabalho Noite das Estrelas, também traz à luz os emblemáticos shows protagonizados por travestis e transexuais mareenses nas décadas de 1980 e 1990. A proposta nasce das investigações e experiências de artistas negros LGBTQIA+ contemporâneos que identificaram a necessidade de construir a representatividade de corpos excluídos a partir da memória das performances, trazendo a perspectiva de inclusão desses artistas.  “Os shows da ‘Noite das Estrelas’ reúnem em si uma série de elementos de linguagem das artes cênicas e da memória sociocultural do Rio, mas faltam registros, e nosso coletivo apresenta o projeto como ação reparatória para estas populações. No campo das pesquisas em torno das artes, experiências como a dos shows da ‘Noite das Estrelas’ ainda não encontram espaços, é o sufocamento do epistemicídio nas instituições acadêmicas”, relata Paulo Victor, integrante do Coletivo Entidade.

O experimento terá como ápice um show virtual em agosto. Ele foi desenhado como uma produção de dispositivos performáticos, articulando múltiplas linguagens: música, dança, teatro, artes visuais e audiovisual, recriando assim a história dos shows no presente, resgatando uma memória cultural da Maré. Será a retomada do movimento LBGTQIA+ dentro das favelas da Maré. “Os shows nascem nas experiências de festas e convívios de LGBTQIA+, mas vão para as ruas na festa Junina da Rubens Vaz, conduzidas por Ney, que queria agradar suas amigas travestis que o ajudavam nas costuras das roupas de festa junina. Depois, Menga, que era pai de santo e ligado ao carnaval, cria a Noite das Estrelas. Com o sucesso de público, os shows passam a acontecer também depois  das finais de campeonatos de futebol, além de circular por outras comunidades de fora da Maré, dentre elas a Grota e Parada de Lucas. As artistas que se apresentavam nos shows ficaram também conhecidas na cena cultural LGBTQIA+ carioca, passando a se apresentar em boates, concursos de miss, beleza e do carnaval”, conta Wallace Lino, também integrante do Entidade.

Foto do arquivo de pesquisa do coletivo Entidade Maré – Foto do antigo show “Noite das Estrelas”

Amar na favela

Num mundo homofóbico e machista, onde há perigo de morrer por manter relações homossexuais (Arábia Saudita, Irã, Iêmen, Sudão, Nigéria e Somália punem a homossexualidade com a pena de morte), ser uma pessoa LGBTQIA+ é lutar diariamente para estar vivo. No Brasil, não há oficialmente pena de morte, mas somos o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo. O direito de ser o que se é, sobretudo dentro de uma favela como a Maré, um território marcado pela negligência do Estado e o domínio de grupos civis armados, é revolucionário. Lutas como viver o casamento igualitário ainda são uma realidade para quem nasce na favela e assume uma união homoafetiva. Segundo o relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia, 237 pessoas LGBTQIA+ tiveram morte violenta no Brasil, vítimas da homotransfobia, em 2020. Foram 224 homicídios e 13 suicídios. Isso equivale a uma morte a cada 37 horas. Como pensar nesses crimes em territórios marcados por grupos de civis armados?

Matheus Affonso é bisseexual, nascido e criado da Nova Holanda, uma das 16 favelas da Maré. Há quatro anos está em uma relação homoafetiva. “Eu e meu companheiro moramos juntos, mas não andamos de mãos dadas nas ruas, não nos beijamos dentro da Maré, e mesmo assim as pessoas nos olham ou colocam o nome do wifi de “EU SEI QUE VOCÊ É VIADO” na intenção de nos diminuir ou mostrar que esse lugar não nos pertence. Mas nós vamos seguir nos amando, resistindo e lutando para que esse território um dia respeite nossos corpos e muitos outros LGBTQIA+ mareenses”, completa o fotógrafo.

Ativismo na favela

Ao longo dos anos, a luta tem se intensificado, protagonizada por pessoas e artistas LGBTQIA+s como Gilmara Cunha, que há anos cobra políticas públicas de acesso à cidadania para essa população. “Eu sou mulher trans, negra, favelada e militante, e tenho  esperança de que é possível que haja um equipamento do estado que se faça presente dentro de um território de favela, que pense política pública para a população LGBTQIA +”, diz. 

Uma das grandes conquistas do coletivo que Gilmara dirige, o Grupo Conexão G de Cidadania LGBTQIA+ de Favelas, é a inauguração do Centro de Cidadania LGBTQIA+ que leva o seu nome neste mês, oferecendo serviços gratuitos de assistência psicológica, jurídica e social, além de cursos profissionalizantes de informática e corte & costura “A criação desse centro de referência tem um impacto muito maior na vida de cada indivíduo LGBTQIA+ que vive dentro do conjunto de favelas da Maré e de outras favelas do Brasil. Eu fico feliz em saber que um dia, quando a cortina desse teatro fechar para mim, de alguma forma a minha luta, a minha causa, as minhas dores tiveram um resultado e eu deixei legado: a construção do primeiro equipamento de políticas voltadas para a população LGBTQIA+ de favela dentro de um território de favela”, completa Gilmara Cunha.

Na Maré, além do teatro e dos movimentos ativistas, a cultura LGBTQIA+ é muito presente nos cenários do vogue, do rap, das drag queens, da dança contemporânea, do funk, da fotografia, das artes plásticas, da literatura e da dança afro. Esses movimentos vêm sendo pensados como ferramentas socioculturais, criando novas formas de ativismo no território. 

O artista plástico Jean Carlos Azuos é curador de um dos espaços de disseminação de arte e cultura na Maré. “Arte para mim é o lugar do respiro, o lugar da possibilidade, de poder narrar, imaginar, materializar coisas da ordem do campo físico. Ao mesmo tempo em que toca os outros sentidos, a arte para mim está sempre inserida na vida e em como ela se organiza. É por isso que eu posso vê-la em vários lugares e pessoas; a arte é essa coisa que se multiplica, se estende e se desdobra”, afirma o artista.

Foto Matheus Affonso, performance de 2019 do projeto Eeer de ativismo LGBTQIA+

A Maré exporta nomes para todo o país, sobretudo na área cultural. Estar à frente da luta por direitos é revolucionário, mesmo que, a passos lentos, o movimento cultural LGBTQIA+ mareense venha quebrando barreiras e transformando a Maré em um território livre de preconceitos.

E no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, o Maré de Notícias prestou uma homenagem a artistas dos movimentos culturais da Maré. Ao longo da semana, compartilhamos um pouco mais sobre a trajetória repleta de orgulho da integrante da House of Imperio Brainer Lua, do bailarino e drag queen Marcos Carvalho, do escritor e poeta Vitor Felix e da cantora e compositora MC Natalhão. Todos mareenses! Confira aqui:

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mareonline

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