‘Mulher da vida’: prostituição e a luta por dignidade e direitos

Aos 80 anos, Lourdes Barreto está aposentada, mas permanece na luta para que a sociedade enxergue que quem atua na indústria do sexo precisa ser tratado como qualquer outro cidadão | Foto: Marcus Lyon

‘Mulher da vida’: prostituição e a luta por dignidade e direitos

Fundadora da Rede Brasileira de Prostitutas, atualmente com 80 anos de idade, Lourdes Barreto tem trajetória de luta pelo direito à vida e à dignidade dos trabalhadores sexuais

Por Tamyres Matos, em 02/06/2022 às 18h08. Editado por Edu Carvalho

Prostituta aposentada, Lourdes Barreto é uma ativista de 80 anos que tem quatros filhos, 10 netos e sete bisnetos. Sua causa central sempre foi a dignidade das pessoas que trabalham na prostituição. Fundadora da Rede Brasileira de Prostitutas, ao lado de Gabriela Leite, ela relembra o Primeiro Encontro Nacional de Prostitutas: “Fala, Mulher da Vida”, realizado no Circo Voador em 2 de junho de 1987, ou seja, há 35 anos. A data marca o Dia Internacional da Prostituta.

“O encontro foi uma coisa muito linda! Aquele Circo Voador lotado, muita gente de pé… para mim é uma questão importantíssima, ter participado disso é histórico. Uma nordestina que vive no Norte do país conseguir lançar um movimento como esse em plena ditadura militar, momento em que muitas companheiras nossas foram presas. Eu mesma fui presa muitas vezes sem ter praticado crime nenhum. Estávamos ali para mostrar que existimos. Nós existimos na sociedade e não precisamos nos desculpar por isso”, diz.

Com a presença de centenas de pessoas das mais diversas regiões do país, o evento teve três temas como destaque: discriminação, violência policial e associação de prostituição com doença. “Passei quase 56 anos exercendo o trabalho sexual. É uma atividade que defendo como trabalho, que deve ser regulamentado como qualquer outro. Ainda existe muita hipocrisia depois de todos esses anos, mas eu nunca parei de lutar”, afirma Lourdes, que tem previsão de lançar uma autobiografia ainda este ano.

Em pleno mês do Orgulho LGBTQIA+, é importante lembrar um dado significativo: um levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) estima que 90% da população transexual no Brasil tem a prostituição como fonte de renda e única possibilidade de subsistência. No entanto, durante a conversa com Lourdes, ela ressalta que essa área de trabalho, assim como qualquer outra, deve ser vista como uma possibilidade e não como recurso único. Além disso, é preciso criar estratégias para que seja um trabalho seguro.

“Hoje sou respeitada na sociedade, mas teve época em que não podia andar na rua. A profissão, infelizmente, ainda não é devidamente reconhecida, mas sou uma mulher que luta pelos direitos das putas e muita gente me respeita por causa disso. Todos os meus filhos sabem que foram educados com o dinheiro do trabalho sexual”, conta. 

Lutas que se cruzam

Ainda é tabu discutir prostituição no Brasil. Para Lourdes, o conservadorismo atrasa a evolução do debate e impede que os profissionais do sexo sejam vistos como qualquer outra pessoa. Mas é evidente que esta luta se cruza com diversos outros elementos sociais. 

Em 2000, a antropóloga Susana Rostagnol escreveu no livro “Regulamentação: controle social ou dignidade do/no trabalho”: “A prostituição é um fenômeno social extremamente complexo que atravessa traços profundos da sociedade, com múltiplas derivações. Diz respeito à economia, ao trabalho, à sexualidade e às relações de gênero”.

Lourdes conclama a necessidade de organização para que avancemos na luta por direitos em algo que suplanta a individualidade do trabalho como prostituta. “A indústria do sexo tem sido fundamental para a questão socioeconômica, cultural, questão da saúde preventiva… somos referência em várias áreas. Combatemos a exploração sexual de crianças e adolescentes, essa tem sido uma das lutas permanentes das prostitutas do Brasil”, exemplifica.

Além de ter criado o Movimento de Promoção da Mulher e o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (GEMPAC). Lourdes atua no Conselho Nacional de Direitos da Mulher, integra a Plataforma Latino-Americana de Pessoas que Exercem Trabalho Sexual (PLAPERTS) e a Rede Mundial de Trabalhadores Sexuais (NSWP). Sua história enquanto PutAtivista é reconhecida nacional e internacionalmente. A peleja desta mulher, prostituta aposentada, está diretamente relacionada a muitas conquistas no que diz respeito às políticas públicas no país.

“Durante o encontro no Circo, tivemos várias presenças de importantes aliadas, como a atriz Lucélia Santos. A imprensa também foi fundamental. Tivemos uma grande participação das prostitutas, mas também de pessoas que não tinham relação direta com a atividade. Foi um momento muito rico. Eu luto até hoje para que as palavras puta e prostituta sejam reconhecidas na sociedade, não como ofensa ou palavrão. Muitos projetos de lei não foram em frente porque temos uma sociedade conservadora. Ainda tem muita batalha pela frente, talvez eu não consiga ver o resultado disso em vida, mas as pessoas mais jovens, sim. A participação das putas na representação política é muito importante”, conclui.

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